“Escrever de, ou escrever sobre…”, por Adelino Correia-Pires

Foto: Adelino Correia-Pires

Esta foi uma semana atribulada. Começou com o texto que escrevi sobre o jogo da bola, que saiu ao correr da pena, como quando a dita sai ao lado e não bate no fundo das redes. Logo aí percebi que, como dizia o Perestrelo de saudosa memória, “é disto que o meu povo gosta!”. Então não é que um escrito daqueles, que não me obrigou a ler uma linha, para o qual não pesquisei um só livro, foi lido, relido e largamente comentado?

Depois, bem, depois tinha pensado escrever sobre “La Lys”. Mas, pensei melhor e havia tanto e tão bem escrito sobre o tema que resolvi pousar a caneta e escrever apenas de. Optei então por visitar a exposição “Os nossos homens foram à guerra”. E lá voltarei. Não à guerra, mas à exposição. Porque merece mais tempo para ser vista e revista. Está esteticamente bonita, depurada, mas com conteúdo. E não deve passar ao lado, já que mais que um momento, foi um tormento. Soubessem os nossos bravos heróis, alimentados a ração de combate, que cem anos depois posariam na Praça do Peixe e talvez a história fosse outra…

Passei então ao assunto seguinte. Escrever sobre os vários livros apresentados em Torres Novas, ou o CF (Comércio do Funchal) que mãos amigas me fizeram chegar à livraria? Ou ainda sobre os assuntos da ordem do dia, o que se faz e não se devia ter feito? Também o não fiz. Uma vez mais, escrevi de e não sobre.

Lembrei-me então de um compromisso de há anos, quando publiquei um texto no Jornal Torrejano sobre os «150 anos de Bom-senso e Bom-Gosto» e que agora recupero, na semana em que passa mais um ano sobre o nascimento de Antero de Quental:

“Em Setembro de 1865, há precisamente cento e cinquenta anos, o meio cultural português agitava-se com a polémica entre o ‘status quo’ de Castilho, António Feliciano de Castilho, e o arrojo de Antero de Quental.

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Quando o velho Castilho, olhando do interior da sua cegueira, refastelado na sua provecta idade e avesso a aventuras, foi agitado por aquela estudantada coimbrã, encrespou-se, irritou-se e fez-se ouvir. Habituado a apadrinhar um ou outro pupilo que lhe seguisse os métodos, queria lá saber agora daquela gentalha moderna, misto de agitadores e metediços. Fosse porque os olhos o não permitissem ou porque mesmo às apalpadelas o não quisesse sentir, a António Feliciano não lhe falassem em aventuras, em desvarios poéticos ou em odes mais ou menos modernas.

Isso seria para um tal Antero, açoriano, dos Quentais de Ponta Delgada, cabelo enruivado e alma endiabrada que dera em partir a loiça por aqui e por ali, numa Coimbra boémia, idealista e intelectual.

E o curioso é que ambos haviam tido algo em comum. Fôra com Castilho que Antero, ainda menino, começara a afrancesar as primeiras letras quando aquele, já então com quarenta e sete anos, se instalara em Ponta Delgada, desgostoso com o insucesso do seu ‘Methodo Portuguez’ que seria suposto ser para leitura repentina e não para indiferença duradoira.

O caldo entornou-se com o prefácio de Castilho aos ‘Poemas da Mocidade’ de Pinheiro Chagas. Os tempos haviam mudado e Antero, cansado de tanto elogio mútuo entre românticos, reagiu com a célebre ‘Bom Senso e Bom Gosto – Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho’, subscrevendo-a com um ‘Nem admirador nem respeitador, Anthero de Quental’.

Foi o rastilho daquela que, ficaria conhecida como a Questão Coimbrã, qual pedrada num charco ultra-romântico. Nela se envolveram, por um lado, figuras como o próprio Castilho e os seus apaniguados Tomás Ribeiro e Pinheiro Chagas e por outro, os então inconformados Antero, Eça de Queiroz ou Oliveira Martins. Com direito até a um inimaginável duelo entre Ramalho Ortigão e o próprio Antero, ocorrido em Fevereiro do ano seguinte.

Veio depois a Geração de 70, vieram as Conferências do Casino, e tudo o resto que numa simples crónica ficará por escrever.

Porque escrever sobre Antero de Quental, talvez lá mais para o ano, quando também em Setembro, se ouvirem os ecos dos dois tiros com que há cento e vinte e cinco anos, nos Açores onde havia nascido, o Poeta decidiu partir. Talvez lá, onde estiver, continue escrevendo as suas Odes e Sonetos, olhando de longe a casa que o viu nascer em Ponta Delgada, numa tal Rua do Lameiro, hoje ironicamente chamada, Rua António Feliciano de Castilho.” [1]

Relendo este texto, recordei o compromisso de então: escrever sobre Antero. Mas, meus caros, ainda não será desta. Porque uma coisa é escrever de, outra sim, é escrever sobre. E para escrever sobre Antero, há que ganhar outro fôlego.

[1] Texto publicado no Jornal Torrejano em Setembro de 2015.

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