Entroncamento | Usar o comboio para trabalhar em Lisboa

O despertador toca. São seis da manhã. Pelas frestas do estore não entra luz e por um milésimo de segundo ocorre-nos que devemos ser as únicas pessoas do mundo acordadas a esta hora. No ritmo matinal tudo é pensado ao minuto porque o carro espera, mas o comboio não. Quando saímos deparamo-nos com as ruas quase desertas. Os estores dos vizinhos continuam fechados e a teoria de que somos as únicas pessoas acordadas apenas é contrariada pelas luzes acesas dos poucos cafés abertos e um ou outro transeunte que, tal como nós, agradece o facto de não estar a chover.

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Na chegada à estação ferroviária o cenário muda. Afinal não somos mesmo os únicos acordados. Os passageiros que saem do autocarro do TURE (Transportes Urbanos do Entroncamento) cruzam-se com quem chega a pé e a maioria dirige-se para a passagem áerea pedonal ali instalada em abril de 2014. Um sinal claro de que são passageiros regulares, utilizadores dos passes mensais da CP. O nosso caso é diferente, a viagem é pontual. Não partimos nem fazemos transbordo diariamente no Entroncamento para ir trabalhar em Lisboa.

Dirigimo-nos à bilheteira, que a esta hora tem pouco movimento, e pedimos o bilhete para o comboio que partirá para a capital depois do que chegará dentro de instantes. Do outro lado do vidro reagem com alguma estranheza: “Olhe que este agora é rápido.” Nós sabemos, mas vamos deixar partir primeiro o das 07h11 e seguiremos no das 07h42, cuja viagem de 01h23 é 16 minutos mais longa. Guardamos o bilhete e seguimos.

São já muitas as pessoas que se encontram nas plataformas de embarque/desembarque e não se vê uma única mala de viagem. Nas mãos seguram-se pastas e chapéus de chuva. Vai-se olhando para o relógio e para o painel que indica as partidas. Está quase na hora e o comboio procedente de Tomar é anunciado minutos antes da sua entrada na linha cinco. Lá dentro traz um número considerável de pessoas e o resto dos lugares depressa é ocupado. Uma vez anunciado o fecho das portas pelo sinal sonoro, a composição segue rumo à capital.

Ficamos sozinhos e seguimos até ao bar, onde se encontra apenas um grupo que fala animadamente sobre o Benfica. Perguntamos se são passageiros regulares e respondem-nos “não, nós levamos as pessoas”. São maquinistas numa breve pausa para café. Quando nos identificamos queixam-se que têm sido maltratados pelos meios de comunicação social e que preferem não ser identificados.

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Dois moram na cidade e um deles, de quem conseguimos o primeiro nome, João, tem esta profissão há mais de 20 anos. Revela que “isto é um sonho de criança, conduzir comboios, e a responsabilidade que se tem” e diz que o número de passageiros a esta hora tem crescido nos últimos anos. O aumento é justificado com a rapidez, conforto e segurança deste meio de transporte. Esta é a hora com mais movimento, “depois começa a baixar até as pessoas regressarem”.

Seguimos para a plataforma com o grupo, ao qual se juntam outros maquinistas, Paulo e Nuno. O primeiro levantou-se às 03h45 para entrar às 04h30 e o outro está de saída, depois de uma noite de serviço que começou à meia-noite. Chegamos a sentir-nos mal por temos amaldiçoado o despertador. O trabalho por escalas diárias obriga a que muitos destes homens se levantem cedo “para que os outros estejam ali à hora” e há semanas em que ficam fora de casa “dia sim, dia não”. Paulo acrescenta: “Ainda hoje dormi em Lisboa, amanhã durmo em Castelo Branco e no domingo vou dormir a Coimbra.” Em jeito de despedida, contam-nos: “Sabe como diziam os velhos às raparigas novas? Oh rapariga, você não case com um ferroviário porque ele come de dia e de noite.”

A meia-hora passou a correr e a plataforma voltou a estar cheia de pessoas. Desta vez embarcamos e durante a viagem falamos com alguns dos passageiros. O ambiente é de silêncio e damos por nós a falar quase em surdina para não quebrar o “pacto” que parece ter sido feito numa qualquer reunião secreta. Aquela hora de viagem funciona como que um prolongamento do despertar, ainda que alguns o façam quase na estação de destino. Também aqui nos deparamos com a dificuldade em conseguir nomes. Ninguém quer ser identificado.

Os dois primeiros passageiros com quem falamos são professores do primeiro ciclo em Vila Franca de Xira. Ele mora no Entroncamento e faz a viagem há sete anos. Ela vem de mais longe, mora numa aldeia no concelho de Abrantes e é obrigada a percorrer 40 quilómetros de carro até embarcar no Entroncamento devido à escassez de transportes públicos. Ao longo dos últimos 15 anos já teve como destino diversas estações. Pelas 17h30 estarão de volta, algo que não acontece quando têm reuniões, altura em que chegam a casa às dez da noite.

A dificuldade em conciliar a vida familiar com este ritmo é apontada por muitos dos passageiros “anónimos” com quem falámos nas diversas carruagens que vão percorrendo a distância entre o Entroncamento e a capital. Entre eles encontramos uma habitante de Tomar que acordou à mesma hora que nós. A mulher de 40 anos trabalha como comercial numa empresa de cosmética em Lisboa há oito anos e refere que “não é fácil” cuidar dos filhos quando se parte “às sete da manhã e regressa às nove da noite. É o dia todo, mas tem que se fazer”. O comboio é, na sua opinião, “o transporte ideal” para o seu caso, justificando a opção com a segurança, além de “ser confortável e calmo, como pode ver”.

O dia foi nascendo e as paisagens rurais deram lugar ao ambiente urbano. Os campos verdes são substituídos pelos prédios e a partir da estação da Azambuja os lugares deixados vazios são ocupados pelos passageiros que moram na periferia. À chegada todos saem apressados, o dia de trabalho está quase a começar. Daqui a algumas horas, muitos estarão de volta à gare do Oriente para fazerem o caminho inverso e passarem algum tempo com a família que, nalguns casos, ainda dormia quando saíram de casa.

Nove horas depois também nós estamos lá, prontos para regressar no interregional das 18h23 com destino a Tomar. O cenário é quase igual ao da manhã. Noite cerrada e plataforma cheia, apenas mudam as caras e as condições metereológicas. A chuva de que nos livrámos de madrugada agora não dá tréguas e a água trazida pelo vento torna a espera desagradável. Muita estética e pouca funcionalidade. A questão é apontada por um dos passageiros, ainda na plataforma, com quem entramos no comboio.

Sabe bem a dobrar entrar na primeira carruagem, escolhida por quem sai no Entroncamento pois pára mais perto das escadas de acesso à passagem aérea pedonal e do elevador. Apesar do cansaço típico de final de dia de trabalho, o ambiente é mais agitado e as conversas em volume normal são “permitidas”. O pacto de silêncio não abrange este horário, mas a preferência pelo anonimato mantém-se.

Sentamo-nos em frente ao barquinhense de 55 anos que trabalha na área da segurança e viaja diariamente para Lisboa há treze. Os turnos rotativos fazem com que conheça bem os comboios ao longo do dia e da noite. Na sua opinião, o passar do tempo trouxe melhor climatização das carruagens e pior conforto. Queixa-se de terem permitido aos utilizadores dos passes suburbanos viajarem nos comboios regionais, obrigando muita gente a “ir em pé” até à Azambuja, e lança a acusação: “Isto agora é controlado por Lisboa”.

Num dos bancos laterais ali perto segue um passageiro com phones nos ouvidos. De manhã poucos usam nas novas tecnologias mas, ao final do dia, os telemóveis e os ipads estão por todo o lado. Arriscamos e interrompemos o momento de descanso de um bancário de 55 anos, morador no Entroncamento, para quem optar pelo combóio foi óbvio pois “entre o Entroncamento e Lisboa não há outra maneira e de carro é caro”. A climatização das carruagens e a redução dos tempos de viagem são apontados como a evolução a que assistiu ao longo de uma década, contrastando com o aumento dos preços. O passe mensal ronda neste momento os 215 euros.

Passámos Santarém, mais 20 minutos e chegamos. Já na cidade ferroviária falamos com o último passageiro e quando tínhamos quase desistido de perguntar o nome completo, ficamos a saber que se chama Abílio Oliveira. Uma vitória. Saímos juntos do comboio e falamos na plataforma, abrigados da chuva que molha quem atravessa a passagem aérea pedonal revelando a necessidade de uma cobertura apontada pelo bancário.

Abílio tem 44 anos, era uma das pessoas que seguiram no comboio das 07h11 e viaja diariamente para Lisboa há três meses, onde trabalha na área da informática como gestor de projetos. A experiência recente “está a ser boa, apesar de desgastante”, em parte porque à viagem de comboio acresce a condução entre Torres Novas e o Entroncamento devido à falta de articulação dos transportes públicos na região. Diz que se encontra numa fase “de adaptação” e chegou a utilizar o autocarro até ao Campo Grande, o que se revelou mais económico, mas “menos funcional em termos logísticos”.

O conforto, a segurança e a pontualidade fizeram-no optar pela vida que muitos fazem há anos, apesar dos ajustes que exige, nomeadamente a nível familiar. Segundo Abílio “vamos passar a ver menos televisão, temos que nos dedicar mais. Passamos a valorizar mais o tempo e nesse sentido é mais enriquecedor”.

Despedimo-nos e seguimos para casa. Amanhã o despertador tocará mais tarde e o carro esperará por nós. A maioria das pessoas com quem falámos, juntamente com tantas outras cujos números não conseguimos apurar junto da CP, estarão ali novamente, dia após dia, com partidas e chegadas reguladas pelos painéis informativos das estações onde fazem o transbordo entre a vida de passageiro e a vida pessoal/profissional.

*Publicada em janeiro de 2016

**Republicada em abril de 2017

***Qualquer semelhança com a atual realidade não é pura coincidência

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6 COMENTÁRIOS

  1. Gostei muito desta reportagem, porém falta explorar o outro lado da mesma. Foi mencionado e bem, o valor do passe do comboio, no entanto muitas pessoas ao chegar a Lisboa ainda têm de ter outro passe de forma a poderem viajar de forma mais económica. Pois por vezes ainda apanham o Autocarro, Metro ou outro meio de transporte para chegarem ao seu local de trabalho. Pois o conhecido Passe Social, infelizmente só abrange Lisboa e Porto. Com a escassez de emprego nos meios pequenos, em parte devidos aos poucos meios de locomoção, cada vez mais as cidades mais desenvolvidas são uma alternativa, sem no entanto muitas dessas pessoas gastarem metade do vencimento em transportes. Mas entre o desespero de não receber nada e a aceitação de receber metade, o que escolhia? Portugal, não é só Lisboa e Porto! Todos têm Direito aos Passes Sociais.

    • Concordo integralmente, efetivamente o resto do país é paisagem… basta analisarem o volume de passageiros que vêm de outros locais para constatar. Mas para isso é preciso levantar cedinho …

  2. Pois este combóio de Tomar tinha até há pouco tempo 6 carruagens e quem entrava na Azambuja esperava por ele para poder ir sentado. Mesmo assim ia cheio tal como o originário da Azambuja que só peca por ser pouco confortável. Agora o de Tomar só traz 3 carruagens e é o caos…, na Azambuja só lugares em pé e tanto este como o que nasce na Azambuja passaram a andar tipo metro japonês ou á portuguesa tipo sardinha em lata. É pena , ter de morar fora de Lisboa, ter de acordar muito cedo, ter de ir em pé ou sentado em desconforto total, ter de pagar um passe caro para não falar na falta de segurança devida á quase inexistente manutenção que os comboios tem hoje em dia. É pena.

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