Entroncamento | Os verões danados de Pedro Cabeleira (entrevista)

Pedro Cabeleira. Foto: mediotejo.net

O mundo ficou a conhecer o “Verão Danado” de Pedro Cabeleira no Festival de Locarno (Suiça) em agosto de 2017. Três meses depois, a sua primeira longa-metragem estreava em Lisboa e em 2018 a região ficou a conhecê-la na sessão do Cine-Teatro Paraíso, em Tomar. O ambiente quente e frenético vivido pelas personagens contrasta com o dia invernoso e calmo em que conversámos sobre a produção que lhe trouxe a fama e os verões menos conhecidos do público, passados no Entroncamento.

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O ponto de encontro com Pedro Cabeleira é a estação ferroviária do Entroncamento e poderia ter sido dali que Chico, a personagem principal, e o seu grupo de amigos partiram do interior rumo a um verão de Lisboa com noites muito mais quentes do que os dias. Tal como surge em cena, a dificuldade em entrar no mundo profissional segue a bordo apeadeiro após apeadeiro numa viagem de descoberta dos outros, daquilo que os rodeia e de si próprios.

O percurso do jovem realizador não difere muito do das personagens de “Verão Danado”. Em 1992 foi nascer a Tomar e regressou poucos dias depois para a casa de família no bairro da COFERPOR – Cooperativa de Habitação Económica Ferroviários de Portugal, freguesia de S. João Baptista, no Entroncamento. Dali saiu em 2010 para estudar na Escola Superior de Teatro e Cinema, do Instituto Politécnico de Lisboa, onde se licenciou com especialização em Realização três anos depois.

A entrevista começou na estação ferroviária do Entroncamento. Foto: mediotejo.net

Na capital terá, certamente, sentido o ambiente do filme protagonizado pelo estreante Pedro Marujo ao lado de Lia Carvalho, Ana Valentim, Daniel Viana, Sérgio Coragem, João Robalo, Luís Magalhães, Maria Leite, Ana Tang, Rodrigo Perdigão, Eugeniu Ilco, Cleo Tavares e Isac Graça. No entanto, Pedro Cabeleira não é Chico ainda que, tal como ele, tivesse andado pela noite lisboeta no difícil arranque da vida profissional e os avós do realizador entrem no filme como avós da personagem.

Os dois, personagem e realizador, “saíram” juntos durante os cerca de 40 dias de rodagem distribuídos por sete meses pagos “com comida e deslocação”. Chico divertiu-se entre drogas e (des)amores, Pedro “queria fazer uma coisa autêntica”. O primeiro viveu a noite sem pensar muito na manhã seguinte, o segundo filmou sem pensar muito no processo de pós-produção. Ficaram os momentos, o “que estava a acontecer em Lisboa na altura” e “tinha validade para ser visto em grande”.

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No interior do país, no trajeto que percorremos a pé com Pedro Cabeleira entre os anúncios das chegadas e partidas dos comboios e o bairro da infância, que aos 13 anos deu lugar à casa da Meia Via no concelho vizinho de Torres Novas, revela que “os filmes têm sempre muito de nós”. As fórmulas estandardizadas foram substituídas pela exploração da “extensão e a dilatação do tempo” focada em “atmosferas” e não tanto numa história.

A Zona Verde transformava-se em relvado de futebol. Fotos: mediotejo.net

Da sua recorda os jogos de futebol com a camisola do CADE – Clube Amador de Desportos do Entroncamento e da equipa da Meia Via. Os primeiros treinos amadores foram feitos nas partidas disputadas com os amigos no Jardim Afonso Serrão Lopes, perto da antiga escola primária (atual Escola Básica da Zona Verde), e no “quadrado”, uma caldeira do pátio entre dois prédios da COFERPOR de onde desapareceu o antigo salgueiro-chorão, perto da baliza improvisada na cabine baixa da EDP.

No pátio aponta-nos para a janela de terceiro andar onde cresceu com o irmão mais novo e os pais, ambos professores primários, que são os primeiros responsáveis da lista pelo mundo conhecer o “Versão Danado” do filho. Se Chico e o grupo de amigos receberam a menção especial do júri do Festival de Locarno (Suíça) e já passaram por Argentina, Itália e Geórgia devem-no ao facto do realizador ter encarado a dica parental de seguir cinema como uma “oportunidade” e passado o 12º ano de Economia a “tentar absorver tudo o que conseguia” sobre aquela área.

As personagens da longa-metragem começaram a ganhar forma depois de duas curtas, o trabalho de final de curso intitulado “Estranhamento” e que integrou a seleção oficial do FantasPorto 2014 e a segunda produção “Nós Somos Gomes Pipa”. Com elas cresceu a Videolotion, a empresa de cinema e vídeo fundada em Lisboa com colegas da universidade no ano de 2013 e produtora de “Verão Danado”, em associação com a OPTEC.

A primeira casa de família situava-se no bairro da COFERPOR. Fotos: mediotejo.net

Falamos do futuro enquanto nos afastamos do passado partilhado no número 14 da Rua Cottinelli Telmo, que Pedro Caldeira associa mais à realização da “Canção de Lisboa” (1933) do que às marcas deixadas pelo o arquiteto no concelho, como o emblemático Bairro Camões, inaugurado sete anos antes da estreia do primeiro filme sonoro português. O passar dos anos surge como tema não pelos 25 que já viveu, mas pela ideia que tem do cinema enquanto “viagem no tempo”.

O potencial da tela é esticado até ao cenário de algo “que nos leva para outros mundos, outros universos”, salvando “coisas que estiveram cá há muitos anos e das quais quase não há registo”. Se tivesse oportunidade, pegava no equipamento de filmagem e ia até à “altura incrível” dos Descobrimentos, entre os séculos XV e XVII, ou optava por uma viagem mais curta até às Aparições de Fátima, em 1917, dois pontos marcantes que gostava de ver através da câmara.

Não sendo possível andar para trás, seguimos em frente e por lá encontra-se a continuação da promoção de “Verão Danado” e o novo filme que Pedro Cabeleira gostava de realizar.

À semelhança da primeira longa-metragem, os apoios escasseiam e acrescenta que “não se paga às pessoas com água”. Com água ou sem água a caminhada profissional que começou com um ritmo acelerado continua e quando perguntamos se é este o caminho responde: “claro, quero continuar a fazer filmes. É isso que quero fazer a minha vida toda”.

*Entrevista publicada em janeiro de 2018, republicada em janeiro de 2019

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