Entroncamento | José Canelo, 94 anos: quem corre por gosto não cansa

José Canelo. Foto: mediotejo.net

José Canelo ganhou balanço numa idade em que a maioria das pessoas abranda o passo. Reformou-se do trabalho, mas não se reformou da vida e dedicou-se de corpo e alma ao atletismo. Desde então, nunca mais parou, transformando cada ano que passa, hoje são 94, em novas conquistas. Sobre as medalhas tudo se sabe por isso tirámos José Canelo das pistas e decidimos partilhar a sua história a partir de outras pistas dadas durante a longa entrevista na qual percebemos que “quem corre por gosto não cansa” mesmo.

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José Canelo fala tanto como corre, admite, e se seria difícil acompanhá-lo nas pistas de atletismo de todo o mundo onde já conquistou medalhas, também a conversa não para depois do “tiro de partida”. As mãos têm ritmo rápido enquanto nos vai falando sobre a infância em Elvas, a passagem por Lisboa e a chegada ao Entroncamento, cuja paragem se funde com a História da cidade onde dá nome à pista de atletismo, uma rua e a caminhada associada ao Grande Prémio Museu Nacional Ferroviário.

As conquistas no oitavo e nono escalão fizeram com que o Hino Nacional tocasse dos dois lados da fronteira e reluzissem no ouro das medalhas que vai trazendo para casa. Algumas estão emolduradas na sala onde nos recebe, outras provavelmente terão sido guardadas pois o espaço nas paredes e nos móveis não chega. Perdeu-lhes a conta e lamenta não ter começado a “registar tudo num caderninho”, mas salvaguardou algumas com as tiras de papel onde regista datas e distâncias.

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O espaço nas paredes e nos móveis já esgotou para tantas medalhas. Foto: mediotejo.net

Já muito se disse sobre o campeão, sempre sem esquecer a idade que já conquistou outra medalha dourada, a dos 94 anos. Número que chegamos a esquecer enquanto conversamos sobre as outras “provas” que foi superando ao longo de quase um século. As de vida, uma vez que sobre as de atletismo já se sabe tudo. Além disso, partimos da expressão que o nonagenário tem repetido em diversos eventos públicos, a de que o aquecimento “é a base principal de qualquer atleta”.

Posto isto, porque não “descalçar-lhe” os ténis e dar a conhecer as décadas de aquecimento que prepararam José Canelo para se tornar num atleta multimedalhado, com mais resistência do que muita gente com metade da sua idade. O brilho nos olhos torna-se quase pueril quando nos fala sobre o atletismo, o “seu alimento”. Brilho este apenas suplantado pelo que surge quando recorda a mãe, que lhe deu “uma infância de doçuras”.

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As tiras de papel com informação sobre as provas ajudam a memória. Foto: mediotejo.net

E é verdade. O doce sabor da vitória que vai sentindo sempre que a ANAV – Associação Nacional de Atletismo Veterano o chama para uma prova teve outros sabores meigos para o paladar, começando pelo das ameixas confitadas produzidas na fábrica de Elvas onde a mãe trabalhava. Raros eram os dias em que não era mimado com uma, muitas vezes surgindo como compensação dos “nãos” ao pão com queijo.

“Mãe, tenho tanta fome…”, pedinchava ao chegar à casa de família que dividia com os pais e as três irmãs na Rua das Parreiras às Almas. “Dá-me pão com queijo”. “Filho, eu não ganho para queijo. Come pão seco”. Reproduz o diálogo de forma expressiva. A mãe, conhecida por “Maria Garçoa”, por associação à família Garção, mandava e pronto. Tal como o fazia numa das mais de 50 fábricas dedicadas à ameixa que chegaram a existir em Elvas.

Ela ia dando indicações sobre o ponto ideal da cozedura “das oito às oito” enquanto o pai trabalhava na herdade “de sol a sol”. Os escudos conquistados ao final do mês eram parcos, mas permitiram sustentar a escola privada em que fez a formação primária, na mesma rua onde existia a pastelaria. Facto cruel para quem por ali passava regularmente com fome, mas a vida voltaria a compensar esta amargura com os bolos com oferecidos pela Nelinha, a filha do pasteleiro.

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O olhar de José Canelo quando fala do atletismo. Foto: mediotejo.net

Os beijos e abraços que recebia em troca não chegaram para o conquistar o “Zé Miguel” pelo estômago uma vez que ele apenas tinha olhos para a Lurdes. Se a vizinha no início lhe chamava “baboso”, anos mais tarde passaria a tratá-lo por esposo. Isto depois dos anos de namoro à meia porta da casa dos pais dela, que era hábito terminar com o sabor das torradas feitas pela sogra. O sogro não se importava e, muitas vezes, era ele quem as pedia. Rapaz alimentado e estava na hora de seguir caminho, sinal de que as doçuras do “Zé Miguel” com a filha tinham terminado naquele dia.

“A questão da minha Lurdes já vem de gaiato”, recorda enquanto olha embevecido para a imagem de ambos pendurada na lareira. O preto e branco dos tempos que já lá vão, trazendo consigo a viuvez, contrasta com o vermelho e verde das outras fotografias que rodeiam a moldura de madeira envelhecida. Essas, as do equipamento que usa quando corre, têm as cores de um passado mais recente e que teve início iniciado outro verde, o verde tropa.

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Fotografia dele e da sua Lurdes. Foto: mediotejo.net

Tinha a “mania” de que queria ser serralheiro, inspirado no Álvaro, o vizinho que o desafiava para o acompanhar no ofício e começar a “cortar a cantoneira, como deve ser”, mas que também lhe prometia lambadas se o adolescente não se portasse bem. Trabalhou por lá até decidir, antes da idade adulta, que estava na altura de partir e a primeira paragem que fez foi no Regimento de Lanceiros n.º 1, em Elvas, para falar com o “Capitão Assis”.

Aliás, o “senhor Capitão Assis” como lhe ensinou o militar que estava na Porta de Armas do quartel do Exército Português mais antigo do país e onde fez o tempo de recruta no Batalhão de Caçadores n.º 8, para desgosto da mãe. O Batalhão de Caçadores daria lugar ao Regimento de Infantaria n.º 8, que fechou portas, vindo a tornar-se no Museu Militar de Elvas, fortificação reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade.

Bem, mas voltemos à pista de vida de José Canelo. O Senhor Capitão depressa o reconheceu como “sobrinho do João” e acabou por ser na oficina do Primeiro-Sargento Oliveira que foi colocado depois de lhe dizer “olhe, eu não sou nada na vida, não tenho nada, e queria ver se ia para a tropa”. Pouco depois, essa porta de armas daria lugar a outra, em Sacavém, e, mais tarde, à da Direção de Material e Transportes, em Lisboa.

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O atleta e as medalhas que o tornaram tetracampeão mundial. Foto: mediotejo.net

O percurso quotidiano fazia-se entre a Avenida Infante Santo e a zona da Graça, onde a sua Lurdes o esperava na casa “pequenina” que a tia Adelaide tinha com o tio, guarda fiscal, numa das ruas da Quinta do Ferro. O almoço comia-se na Manutenção Militar, quando não aproveitava para ir ver a esposa ao “lar doce lar” alheio. A inexistência de ajudas de custo significava ausência de um privado, mas José Canelo afiança que o mais importante era estarem juntos.

O ritual diário do dobrar da esteira com que dormiam no chão é encarado como um pormenor, mas acabou por se revelar “pormaior” e motivar o anseio de mudança. Chegado o dia em que se fartou “daquela vida um bocadinho atrofiada e ingrata” pediu para sair, mas queriam-no por perto. O destino do Sargento-Mor Bento, entretanto falecido, acabou por se cruzar com o seu, dando-lhe a vaga que abriu no Entroncamento.

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Algumas medalhas conquistadas pelo nonagenário. Foto: mediotejo.net

Quando perguntamos sobre a idade que tinha na altura aponta para a cabeça “deixa cá ver se a massa funciona”. Pausa a palavra e busca no arquivo mental de 94 anos de memórias. Acaba por apontar “os trintas” e o posto de Sargento-Ajudante. Pedimos então para continuar a pesquisar e avançamos cerca de trinta anos em poucos minutos, até à fase final da vida de militar em que se cruzou com o médico miliciano que lhe disse “Anda cá, tu nunca deixes o atletismo, não pares”.

Reconhecia-lhe os feitos nas competições de atletismo militar nas quais tinha participado em representação da região centro, resultado da preparação que ele estabelecia como prioridade e os “outros não tinham”. Foi nessas provas em que ouvia a concorrência dizer “ele aí vai que tudo começou e, nas suas palavras, “o bichinho do atletismo entrou na minha pessoa”. Entrou, veio para ficar e ganhou ânimo quando chegou a situação de reserva.

Aos 60 anos, uma parte da vida tinha parado. Podia ter optado pelos jogos de sueca ou resgatado os finais de tarde semelhantes aos que passava com o “Abelho” e o “Marujo”, ambos já na “Terra da Verdade”, como chama ao fim da prova de vida. Depois do trabalho, seguiam os três para antigo armazém de vinhos até ao dia em que filha, à janela e ao detetar-lhe o passo errante, lhe fez o ultimato: “tu agora já não jantas. Da próxima vez que vieres assim, volto lá para dentro a chorar e nunca mais falo contigo”.

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José Canelo durante a entrevista. Foto: mediotejo.net

Excluídas estas e outras hipóteses, optaria por algo que lhe desse “movimento e alegria de viver” e, afinal, já tinha o que precisava. Começaram os treinos com maior regularidade que o fazem sair de casa com outro ânimo, mas que já vai cortando quando chove. Nos dias soalheiros começa pela caminhada que passa pelo Jardim Parque Dr. José Pereira Caldas, conhecido na cidade pela famosa aranha, até à passagem de nível.

A subida estimula as pernas e o ritmo começa a aumentar depois da “esquerda perguntar à direita e a direita perguntar à esquerda” se estão prontas para correr. Não gosta de ganhar balanço na descida e o passo só acelera perto do Parque Desportivo Municipal. Pouco a pouco, ganha o ritmo que o tornou atleta federado e campeão já depois de ter ultrapasso os 80 anos. Hoje, os 90 também já ficaram para trás e continua a correr apesar das dificuldades.

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Os ténis estão sempre calçados, dentro e fora das pistas de atletismo. Foto: mediotejo.net

Não as impostas pela idade, mas pela falta de apoios. Tem orgulho nos títulos conquistados e consciência de que leva o nome do concelho, da região e do país aos quatro cantos do mundo do atletismo. Um “valor” que gostava de ver reconhecido através de apoio financeiro quando se desloca ao estrangeiro, nem que fosse no transporte até ao aeroporto, na maioria das vezes assegurado pelo neto. O único apoio deste género que diz ter tido até à data foi da Delta.

Não é fácil, mas “quem corre por gosto não cansa” e José Canelo afiança que é mesmo por gosto que corre, pelas medalhas e contra o tempo. Garante que quer continuar a competir enquanto o corpo deixar e percebemos que é impossível tirar-lhe os ténis. A medalha da Terra da Verdade, essa pode esperar. As outras continuarão a tornar-se verdade deste lado sempre que os calçar para somar vitórias.

*Publicada em junho de 2018, republicada em janeiro de 2019

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