Entroncamento | De um Tejo “quase morto” a um “Tejo comVIDA!” em debate

João Matos Filipe, Mário Rodrigues, e Francisco Pinto, foram os oradores convidados (Foto: mediotejo.net)

As críticas à poluição no rio Tejo foram transversais a todas as intervenções durante a tertúlia temática “Conversas com Café…” sobre o tema “O Tejo comVIDA”, que se realizou no dia 16 na Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Perante uma plateia cheia e interessada, os oradores apresentaram as suas visões e vivências do rio, sempre com o problema da poluição como pano de fundo.

O próprio Presidente da Câmara, Jorge Faria, defendeu a necessidade de um equilíbrio entre a atividade industrial e a qualidade ambiental nos cursos de água e zonas ribeirinhas. Deu como exemplo a fábrica de papel da Renova, em Torres Novas, que consegue laborar devolvendo a água com mais qualidade do que recebe. Por isso, o autarca defende que a Celtejo também deve investir para que concilie a sua atividade produtiva com a preservação do rio.

O debate foi organizado pela Câmara do Entroncamento (Foto: mediotejo.net)

Na tertúlia organizada pela Câmara Municipal do Entroncamento, participaram como oradores: João Matos Filipe, licenciado em história, com trabalhos e publicações sobre a cultura e a arte de pesca tradicional; Mário Rodrigues, ex-Diretor Adjunto do Complexo de Formação e Educação da Fernave, S.A. – Entroncamento e Francisco Pinto, pescador profissional de Ortiga, Mação.

João Matos Filipe falou do rio Tejo “como elemento primordial dos ecossistemas taganos” defendendo a necessidade de se “travar o seu processo de degradação (…) uma vez que o rio Tejo congrega aspetos biofísicos, históricos e culturais que se traduzem numa enorme riqueza e diversidade paisagística”.

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Com recurso a imagens antigas e atuais, o investigador abordou o rio como “cartão de visita e espaço de festa”, “espaço de convívio familiar” e “suporte de atividades lúdicas e desportivas”.

Desde 2005 existe formalmente a Zona de Pesca Profissional do Rio Tejo – Ortiga, compreendida entre 200 metros a jusante da barragem de Belver, freguesia de Ortiga, concelho de Mação, na margem direita, e freguesia e concelho de Gavião, na margem esquerda, a montante, e a captação de águas do Taínho, freguesia de Alferrarede, na margem direita, e freguesia do Pego, na margem esquerda, concelho de Abrantes, a jusante.

Mas, questiona João Matos Filipe, como é possível garantir a atividade piscatória nesta zona se há “falta de conectividade” no rio por causa de barreiras como o açude insuflável de Abrantes que impedem a subida dos peixes pelo rio acima?

Para o orador, este açude foi mal concebido, apresenta várias limitações. Defende que, para lá dos dispendiosos estudos e de execução de um futuro PassaPeixes (como existe em Coimbra), seria muito mais fácil criar a jusante, logo a partir do muro, um pesado cachão capaz de criar uma rampa cujas espécies transporiam muito facilmente. Esta solução articular-se-ia com o fecho do açude no Verão e a abertura no período de Inverno, época da subida, para desova, das espécies migradoras.

A juntar a este problema, acrescenta o da poluição e o dos caudais “fracos, muitíssimo irregulares e bastas vezes inexistentes”.

O rio Tejo foi o tema desta tertúlia temática (Foto: mediotejo.net)

O rio está quase morto”

O problema da poluição, inicialmente resultante dos esgotos urbanos despejados no rio, quer em território espanhol, quer em território português, “ao longo da última década assumiu especial gravidade, dado que o rio passou a receber os efluentes das muitas e diversas fábricas instaladas ao longo da sua bacia hidrográfica, em particular para montante da Vila de Belver”.

As impressionantes imagens da espuma branca e amarela e da água preta no açude de Abrantes serviram para ilustrar este problema.

Quanto ao problema dos caudais de água, João Matos Filipe defende que as entidades gestoras das barragens, em vez de garantirem caudais ecológicos anuais ou mensais, deveriam cumprir “com caudais ecológicos mínimos, mais que diários, horários”.

“No Tejo, espécies como o sável, a saboga e a lampreia, entre outras, estão seriamente ameaçadas por força da obstrução das suas rotas de migração – por açudes, por barragens e por outras barreiras artificiais – e consequentemente pela diminuição, destruição e perturbação das suas áreas de desova”, denuncia o especialista.

Na sua opinião, para regenerar a “riqueza e diversidade paisagística e cultural” é “inadiável conciliar (…) as atividades económicas que se servem dos recursos da bacia hidrográfica do Tejo, com o respeito devido ao natural bem-estar dos ecossistemas taganos, desde as espécies piscícolas, à vegetação ripícola, às diversas espécies de aves e outros animais selvagens cujo habitat natural são as margens dos rios e isso só se consegue garantindo caudais mínimos e a  qualidade da água” .

“O rio está quase morto. Carece de uma estratégia global para recuperar a saúde e voltar à vida”, conclui João Matos Filipe.

O segundo orador, Mário Rodrigues, deu a conhecer a sua ligação umbilical com o rio Tejo. Nasceu a poucos metros do rio, o seu pai era pescador e a sua mãe lavava a roupa nas águas do Tejo, rio onde aprendeu a nadar e de onde tirava o sustento para compor o orçamento familiar.

Num tempo em que bebia água do Tejo quando ia à pesca, lembra-se dos profissionais que pescavam sáveis, lampreias e sabogas.

Por tudo isto, definiu-se como “um amante do rio Tejo” e destacou o papel que os dirigentes do movimento ambientalista PROTejo (Arlindo Consolado Marques e Paulo Constantino) têm tido em defesa do rio.

Sobre a “situação grave de alguma incúria pública” que se vive no rio, falou “com um misto de preocupação, frustração e revolta”, defendendo um “consenso político” para “salvar o rio Tejo dos prevaricadores”.

O pescador Francisco Pinto, de Ortiga, também criticou o açude de Abrantes por funcionar como “um muro de cimento” que impede a subida do peixe, defendendo a sua demolição. Filho de pescadores, diz que há oito meses não captura qualquer exemplar apontando o dedo à Celtejo. “Quem sofre na pele somos nós”, lamenta.

Em paralelo com a pesca mantém um restaurante mas mesmo esse esteve registou uma quebra de 70 por cento devido à desconfiança dos clientes em relação ao peixe servido. A lampreia que serve à mesa vem de França, revela.

Apesar de tudo, há uma réstia de esperança com as medidas tomadas nas últimas semanas que resultaram numa melhoria significa da qualidade da água do rio.

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