Entroncamento | Conhece o bullying e o cyberbullying? Deram-se conselhos nas Conversas com Café

Conversas com Café, na Biblioteca Municipal do Entroncamento. Foto: mediotejo.net

João, chamemos-lhe assim, tem 12 anos e deixou de querer ir à escola. O rendimento escolar baixou e, ao contrário dos colegas, detesta o toque de saída pois sabe que vai voltar a ser gozado ou agredido no intervalo. “Joana”, 16 anos, tentou suicidar-se depois do ex-namorado publicar uma foto sua no facebook em que aparece despida. “Mariana” tem 7 e a foto em biquíni que os pais colocaram na internet no verão passado foi publicada num site de pornografia infantil.

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Estes são três entre os muitos nomes que integram a lista de crianças e jovens vítimas de bullying e cyberbullying em todo o mundo. O fenómeno deste tipo de violência física ou psicológica praticada de forma intencional e repetida não é recente. As novas tecnologias trouxeram-lhe outros contornos, mas a essência da humilhação manteve-se, transformando o dia-a-dia num inferno sem que pais e professores, muitas vezes, entendam os sinais de alerta.

O tema deu o mote para a tertúlia “Conversas com Café”, que teve lugar na Biblioteca Municipal do Entroncamento na passada sexta-feira, organizada em conjunto pela autarquia e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo (CPCJ) do concelho. As cadeiras foram poucas para as pessoas de todas as idades que apareceram ao final da tarde para ouvir Adelino Antunes e Fátima Marques falar sobre “Bullying e Cyberbullying: o que é, como prevenir e como intervir”.

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A iniciativa foi organizada em conjunto pela autarquia e a CPCJ do Entroncamento, que estiveram representadas. Foto: mediotejo.net

O estudo “Uma lição diária: #PôrFIMàViolência nas escolas” divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no ano passado situava em 150 milhões o número de adolescentes que já sofreram violência dentro ou próximo da escola. Em 39 países da Europa e América do Norte, um em cada três alunos entre os 13 e os 15 anos tinham sido as vítimas, três em cada 10 admitiam ter sido os agressores.

Dados que Adelino Antunes, doutorado em Sociologia – Indisciplina e Violência em Contexto Escolar, conhece bem e para quem o problema passa, em primeiro lugar, por observar as crianças e jovens e ir à génese do problema. O acompanhamento regular por parte dos adultos, sobretudo dos pais, é fundamental desde os primeiros anos de idade, dando bons exemplos num processo de crescimento que se faz com base na imitação.

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Adelino Antunes. Foto: mediotejo.net

Segundo o orador, o contexto atual da sociedade está dominado por fatores de desequilíbrio e insegurança para os mais jovens, competindo, igualmente, aos professores focarem-se no seu papel de “educadores” e irem além do ensino das matérias curriculares. Dentro e fora de casa, defende, deve estimular-se “o sonho e a magia” e trabalhar “os desvios” numa fase que diz ser de “construção”.

Como? Através da prevenção, na qual o diálogo tem um papel fundamental, e no estabelecimento das regras de forma equilibrada, num misto de firmeza e flexibilidade. Quando a prevenção falha, a intervenção deve ser feita não só junto das vítimas, mas também dos agressores e das testemunhas silenciosas. No final, deixou o pensamento: “construir um menino é muito fácil, remendar um homem é muito complicado”.

É no caso dos “meninos” com menos de 14 anos que a Polícia Judiciária entra em ação, ou seja, quando a situação deixa de integrar a lista de “outras formas de violência” e passa ao crime de abuso sexual de menores. O bullying e o cyberbullying não são considerados crime e Fátima Marques, a segunda oradora, acredita que a situação possa alterar-se no futuro, à semelhança do que aconteceu no caso da violência doméstica.

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Fátima Marques. Foto: mediotejo.net

A Inspetora-Chefe da Polícia Judiciária de Leiria dirigiu parte da sua intervenção aos menores presentes na biblioteca municipal, aconselhando para não partilharem as suas palavras-passe e desconfiarem dos perfis que surgem nas redes sociais, que são, muitas vezes, “mascaras”. Quando os convites suspeitos são aceites e o crime ganha forma, o primeiro passo é reportar a agressão e guardar todos os dados, como os emails trocados e os dados temporais dos factos (hora/data/minutos) e fazer printscreens dos écrans do computador.

O crime abrange imagens, textos e desenhos e quando se recebe qualquer um, as partilhas feitas na internet com o intuito de alertar são apontadas como erro pois acabam por contribuir para maior exposição dos menores. As boas intenções podem, de facto, potenciar o problema e, por vezes, são os próprios pais que o geram sem saber. Como exemplo foi apontada a partilha de fotografias de crianças em biquíni durante as férias que são colocadas em sites de pornografia infantil.

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