Entroncamento | Amélia Bernardino: ao pé dela, a cidade é uma menina

Amélia Bernardino e uma foto sua de quando era mais nova. Foto: mediotejo.net

A cidade do Entroncamento e Amélia Bernardino têm 74 anos de diferença. A primeira comemorou o aniversário na passada quinta-feira, dia 20, a segunda soprou as velas a 6 de fevereiro. À partida, pensa-se que Amélia é a mais nova, mas não. No ano em que o Entroncamento nasceu como freguesia, em 1926, ela pedia um livro ao irmão pois queria ir para a escola. Chegou ao concelho já depois dos 90 e é hoje a habitante com mais experiência de vida guardada em memórias de 102 anos, marcadas por decisões à frente do seu tempo.

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Combinamos o encontro com Amélia Bernardino no Lar Fernando Eiró Gomes, da Santa Casa da Misericórdia do Entroncamento, que se tornou no seu lar há cerca de cinco anos. É na freguesia de Nossa Senhora de Fátima – a mais jovem do país antes da reorganização administrativa do território em 2013 – que encontramos a habitante mais idosa do concelho e quando lhe perguntamos como é ter 102 anos responde: “então… já passaram! Se eu lhe contar tudo, há tanta coisa a dizer”.

Caberá tanto tempo numa manhã de conversa? Não. A tarefa acaba por ser simplificada pela memória que, apesar de enfraquecida, não trai Amélia e traz ao de cima os episódios mais marcantes. A mente tem essa capacidade fantástica de condensar numa frase anos a fio, sejam de alegria ou sofrimento. Talvez seja a prova de que os momentos não valem por si mesmos, mas sim pela importância que lhes atribuímos.

Amélia e a filha Maria Alice. Foto: mediotejo.net

Voltando ao momento da entrevista, o corpo frágil de Amélia não revela que carrega mais de um século de vida em que as mãos alternaram a agulha da costura e a enxada da terra. As mesmas mãos que contrariaram a tradição dos outros irmãos e pegaram nos livros de estudo. Os mesmos dedos que receberam uma malfadada aliança, que decidiu tirar por opção própria.

Regressar à casa da mãe com os filhos não terá sido decisão fácil, sobretudo numa altura em que a Concordata assinada com o Vaticano não permitia o divórcio aos que se casavam pela Igreja. Isso não lhe diminuiu a devoção vinda dos tempos em que escutava atentamente a “doutrina”, ainda menina, e quando as recordações das Aparições de Fátima, datadas de 1917, estavam frescas.

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Amélia nasceu nesse ano na aldeia de Fatela, a sete quilómetros da sede de concelho do Fundão e onde, mais tarde, passou a ter em comum com os três pequenos videntes da Cova da Iria a função incumbida de guardar rebanhos. Tratar dos animais era uma das formas de sustento da casa que perdeu o “chefe de família” quando ela tinha apenas 20 meses de idade. Ficaram as terras e os filhos para as trabalharem e era na quinta que passava as tardes.

As mãos alternaram entre a agulha da costura e a enxada da terra. Foto: mediotejo.net

Todos contribuíam e a filha mais velha, Maria Alice, com 72 anos, ajuda Amélia quando lhe perguntamos sobre os irmãos. Um a um, os nomes vão surgindo devagar e por ordem de nascença até chegar ao dela, que foi a última dos sete a conhecer o mundo: João, Albino, Francisco – que, tal como o pai, foi vitimado pela gripe pneumónica – Manuel – que sentiu a “morte atravessar o corpo” quando lhe “morreu nos braços” – Ana e Maria.

Foi a um dos rapazes que pediu um livro quando tinha nove anos pois “queria ir à escola” e conseguiu que lhe fizessem a vontade. As manhãs até ao final da quarta classe, cujo exame não fez, eram passadas entre letras e números no local para o qual dedicava uma hora de caminhada diária. Meia para lá, meia para cá. Na vinda, trazia as folhas de papel com o “O” de “Ótimo” e os livros que se sentava a ler “à sombrinha” das figueiras durante a tarde, enquanto “as cabrinhas andavam a comer em volta”.

Amélia Bernardino. Foto: mediotejo.net

A rádio e a televisão nem sequer eram miragens para as crianças a quem a realidade impunha trabalho adulto desde cedo. Mais tarde, já nos tempos de adulta, não parece que tenham tido impacto significativo pois quando lhe perguntamos sobre ambas responde: “olhe, eu só me lembro das ovelhas e das cabras, foi isso que deu a vida à gente”. “Isso” e a costura, que era a arte da mãe e depressa passou a ser a sua.

A partir de então, as linhas das “cópias” que tanto gostava de fazer deram lugar às linhas dos trabalhos que iam surgindo. Os chinelos reforçados vezes sem conta com a ganga, as camisas que outras costuravam com três metros de tecido e ela conseguia fazer com “dois metros e três quartos”, entre as outras peças que media com nós na linha e na ausência da fita métrica. Cada peça, seu preço e algumas eram vendidas a “três e quinhentos”.

Até ter clientela fixa, voltou a fazer a mesma caminhada de meia-hora em cada direção, desta vez para ir ter com o alfaiate que foi o seu mestre na parte do “corte”. Enquanto aprendia a “talhar”, tendo os moldes como referência, também assistiu a uniões, nomeadamente a dele com a outra rapariga solteira que frequentava o atelier. A dela surgiu aos 29 anos, seguindo o conselho com tom de augúrio da vizinha que lhe dizia “se não casas agora, não casas nunca”.

O andarinho ajuda, mas quase não é necessário. Foto: mediotejo.net

Seguiu o conselho e partiu com o esposo, José, da quinta arrendada da família para uma casa “no povo”, a aldeia de Peroviseu, terra dos seus pais. Ali lhe nasceram os filhos Maria Alice e Manuel, sempre ao sábado pelas mãos da vizinha parteira a quem repetia “ainda há-de ser num dia em que você não está lá”. Ela estava lá, no caso da filha ao final de um dia sentada a costurar e, no caso do filho, pouco depois do almoço.

Os dois, certamente, terão brincado “na varandita” da “casita que ainda era grande”. Um lar que pouco teve de doce durante os anos em que a vida de casal foi perturbada pela antiga namorada do marido que não se tornou esposa porque a família dele não deixou. Manuel vivia preso no passado e Amélia decidiu enfrentar o futuro. Pegou nas crianças, na altura com dois e quatro anos, e rumou a casa da mãe.

Quando os pequenos se tornaram adolescentes e a vida voltou a impor trabalho adulto a quem não atingiu a maioridade, seguiram os dois até Lisboa para trabalhar. As visitas a Amélia passavam, pouco depois, a ter como destino a localidade de Fatela. Voltou à terra onde cresceu e continuou a partilhar o tempo entre a costura e a agricultura até ao dia em que caiu de uma “ginjeira”, recorda a filha.

A árvores artesanal que recebu no 102º aniversário. Foto: mediotejo.net

“Ginjeira, não”, corrige Amélia, “da ginjeira caí e não tive perigo, foi de outra árvore!”. Maria Alice esteve três meses em casa da mãe, não só a tratar dela, mas dos terrenos cultivados. Findo esse período, decidiu que estava na altura de fazer as malas para a casa no Entroncamento, onde Maria Alice chegou em 1970, depois de casar. Excesso de zelo? Depende do ponto de vista e conta o facto da queda ter ocorrido quando ela tinha 90 anos, com culpa da pernada que se partiu.

Nove décadas comemoradas sem quebrarem a energia para subir às árvores na escada e continuar a costurar. Quando saíram do concelho do Fundão ainda houve quem lhe pedisse “uns trabalhitos”, mas Amélia não os fez na altura. Não por falta de vontade que, essa, mantém-se aos 102 anos, apenas acompanhada pelo lamento de não conseguir “enfiar a linha na agulha” porque as mãos lhe tremem muito.

A idosa com a neta Olga e a filha Maria Alice. Foto: mediotejo.net

Perguntamos qual o segredo para se chegar a esta idade. “Eu não tenho segredos”, responde Amélia, “estou cá porque Deus quer”. De seguida, lança a questão “como é que as pessoas dão a saudação?”. Apanhados de surpresa, arriscamos a medo “Bom dia… boa tarde…” até sermos interrompidos por ela “já não vai bem. A primeira palavra é sempre para Deus! Deus me dê os bons dias, Deus me dê as boas tardes, sempre assim, seja a que hora for”.

Intervenção divina ou não, a verdade é que já ultrapassou a marca simbólica dos 100 aniversários, com direito ao bolo oferecido pela Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima aos munícipes com mais de um século de vida. Este ano recebeu o terceiro, acompanhado por poemas criados no lar e que lê sem grande dificuldade. Na sala de convívio – onde conhecemos a neta Olga, que ali trabalha – encontramos outra prenda especial, a “árvore” artesanal com fotos suas penduradas.

Cada imagem é como se fosse um fruto entre os muitos que foi colhendo ao longo dos anos. Uns adoçaram-lhe os dias, outros amargaram-lhe a alma. No entanto, continuou com perseverança e a força que hoje torna o andarilho quase desnecessário. Ele apenas lhe ajuda os passos e Amélia não parece querer que passe de adereço na caminhada que, segundo ela, apenas depende do Criador pois Ele “é que sabe o que está para fazer de mim”.

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