Entroncamento | À Mesa com… Manuel Fernandes Vicente

Manuel Fernandes Vicente. Foto: mediotejo.net

*Entrevista publicada em agosto de 2018, republicada em julho de 2019

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Convidámos o professor e melómano Manuel Fernandes Vicente para se sentar à mesa connosco num local à sua escolha e foi no restaurante “O Ribeirinho”, em Vila Nova da Barquinha, que os sabores gastronómicos e os sabores musicais da sua vida se juntaram. Desde a sopa de agrião que nos levou aos tempos de infância quando a avó preparava a iguaria, durante as férias grandes passadas em Malpica do Tejo, no concelho de Castelo Branco, à descoberta de receitas musicais inovadoras na última edição do Festival Músicas do Mundo, em Sines, onde é presença assídua há mais de uma década.

Pelo meio, surgiu o bacalhau e as memórias da “ditadura”, em que as crianças eram obrigadas a comer “tudo o que havia no prato”, as emissões de rádios pirata, os primeiros LPs que chegavam por correio e eram recebidos como tesouros, o estado atual da indústria discográfica, a matemática (que faz parte da vida profissional como docente), e do jornalismo, ao qual se dedicou desde cedo.

Alguns ingredientes entre os muitos que conheceu nas viagens da família entre Alenquer, Santarém, Mação, Abrantes e Entroncamento, correspondentes a cada promoção do pai na carreira de GNR. Em suma, tivemos mesa “farta” desde o momento em que o entrevistado lançou o repto “Vamos a isto?” até ao brinde final, com vinho tinto da casa.

O jornal mediotejo.net recupera esta entrevista a poucas horas do lançamento de “O Vento das Sete Serras”, o novo livro do professor e jornalista Manuel Fernandes Vicente e que vai ser apresentado este sábado, dia 13 de julho, às 17:30, no Centro Cultural do Entroncamento.

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Foto: mediotejo.net

Onde provou os primeiros sabores musicais?

Na minha infância, esse contacto com a música funcionava sobretudo ao nível das festas populares. Eu costumava ir passar as férias a Malpica do Tejo, junto do Tejo Internacional, na zona fronteiriça. A aldeia fica a quatro quilómetros de Espanha e recebíamos visitas de espanhóis que traziam os seus cantos, as suas danças, mas predominava sobretudo a música popular. Lembro-me que as vedetas da altura, das filarmónicas que costumavam acompanhar estas festas e corriam as ruas. Eu com os meus amigos, com sete ou oito anos, íamos atrás delas que tinham temas regulares das filarmónicas, mas que encantavam.

Nessa altura, também havia dois grupos que eram os conjuntos “Maria Albertina” e “António Mafra”. Rapidamente, houve a “beatlemania” e, ao mesmo tempo, Cliff Richard que mesmo nas festas populares eram dominantes e substituíram de um ano para o outro a invasão britânica com os Beatles, os Birds – que são americanos, mas também apareciam – os Rolling Stones, os Kings, os Small Faces… Rapidamente começaram a tomar conta das festas populares, substituindo as músicas tradicionais.

Foi, talvez, a altura em que comecei a sentir mais gosto pela música. Fui apanhado em cheio pela onda dos Beatles. Eu tinha um amigo em Malpica do Tejo, que era um pouco mais velho do que eu e ia à minha frente, sem dúvida nenhuma, em termos de música. Muitas vezes, no verão, estávamos nos poiais [bancos de pedra que ladeavam as portas das casas], que antes eram locais de convívio, até às três da manhã e apanhávamos rádios pirata dos primeiros recetores transístores que apareciam e apanhavam o AM, o FM…

Apanhávamos a Radio One e a Radio Caroline, que eram rádios pirata sediadas em navios que emitiam do Mar do Norte. Apanhávamos também a Radio Luxembourg em que apareciam estas novas músicas britânicas e que também passaram a contaminar quando foi esta “british invasion”. Os Estados Unidos também passaram a contaminar e então apareceram bandas como os Birds, os Jefferson Airplane…

Foto: mediotejo.net

Já estamos a falar de sabores musicais da adolescência…

Sim, foi nessa fase que comecei a ganhar um gosto particular pela música. Eu tinha 13, 14 anos e já comprava os dois jornais ingleses sobre música que eram o “Melody Maker” e o “New Musical Express” e havia outro que comprava todas as semanas, que era o jornal espanhol “Disco Express”. Ouvindo, por um lado, as músicas à noite com o meu amigo Gil e, por outro lado, acompanhando as novas tendências que surgiam, eu sentia estar na crista da informação. Apercebia-me de tudo antes de chegar a Portugal porque lia, exatamente, esta imprensa. Aqui as coisas andavam muito devagarinho.

E onde conseguia encontrar esta imprensa?

Na altura [1964], eu estudava em Tomar e o “Disco Express” chegava lá todas as semanas, ao mesmo dia, e eu ia comprar. Em relação ao “Melody Maker” e ao “New Musical Express”, aproveitava as minhas idas regulares a Lisboa e havia ali uma livraria com muitos jornais perto do Largo do Rossio onde eu ia regularmente. Mesmo que houvesse números atrasados, comprava-os…

Somos interrompidos pelo primeiro “Posso?” da empregada de mesa, que vem recolher as tigelas da sopa. O pão continua intacto, como se manteve até à despedida, tal como as azeitonas.

Falando em sabores, podemos dizer que os primeiros da adolescência eram “clandestinos”…

Sim, podemos considerar dessa maneira e nós tínhamos a perceção de que havia um bocadinho de rebeldia em estar a ouvir rádios pirata, mas também nunca sentimos que houvesse qualquer consequência negativa de as estarmos a ouvir. Elas existiam e eram ouvidas em muitas zonas da Europa. Nós ali, naquele cantinho da Beira Baixa quase confinante com Espanha, tínhamos um prazer particular até porque tinha este picozinho de, a partir de determinada altura, fazíamos um desafio entre nós para ver quem conseguia adivinhar qual era o grupo e a faixa que estava a emitir no mínimo de acordes possível. Isto quando já nos sentíamos verdadeiramente confortáveis e que já dominávamos. Eram muitos grupos, sobretudo da cena pop-rock britânica, grupos de blues…

Novo “Posso?”… e o bacalhau chega à mesa, seguido dos naquinhos de vitela com alho francês.

Seja na infância ou na adolescência, sempre teve uma forte ligação à música.

Sim, sempre senti que tinha música dentro de mim. Sempre senti que a música tinha uma essência de alma que não se encontra noutras esferas de atividade e que era uma maneira de, mentalmente, nos transcendermos a nós próprios. Sobretudo porque sentia que a música tinha possibilidades infinitas, não só pela sua variedade, como pela maneira como era abordada e isso levou-me a começar a ser quase um colecionador compulsivo de música, de álbuns, na altura.

Lembro-me que nas férias do meu 10º ou 11º ano, na terminologia atual, fui trabalhar um bocadinho contra a vontade dos meus pais para uma fábrica que havia na região de concentrado de tomate que era a Unital [nos Riachos, concelho de Torres Novas] e recolhia toneladas de tomate que o Ribatejo produzia. Esse tomate era transportado em camiões e tratores que chegavam a todo o minuto à fábrica que depois os transformava em concentrado de tomate exportado, salvo erro, sobretudo para a União Soviética. Eu fui para porteiro, pesava os tratores com a carga à entrada e à saída e, desta maneira, sabia qual era o tomate que tinha sido transportado pelo camião… até carroças puxadas a mulas e tratores com reboques.

Foto: mediotejo.net

A minha determinação nessa altura – fui dois ou três anos nas férias grandes – o meu objetivo era comprar os novos álbuns com o dinheiro que ganhasse. Lembro-me dos álbuns dos Doors, do Jethro Tull, dos Led Zeppelin, dos Jefferson Airplane e do Jimi Hendrix, pelo qual eu tenho uma fixação próxima da demência. Eu era um fedelho, tinha 16 ou 17 anos… Os tempos na altura eram muito diferentes dos atuais. Eu mandava vir esses discos, normalmente fazia encomendas de três ou quatro, de Inglaterra, e eram importados por correio. Quando os recebia em casa era uma epifania porque eu mal os conhecia e não passavam muito na rádio.

Essas leituras que eu fazia levavam-me a descobrir coisas, por exemplo, o Jimi Hendrix… ninguém conhecia o Jimi Hendrix. Lembro-me do Jethro Tull, do Steppenwolf, do Frank Zappa quando ninguém conhecia o Frank Zappa. Lembro-me de descobrir os Pink Floyd quando ninguém sabia quem eram os Pink Floyd… Aliás, uma característica minha é a de gostar quando não são conhecidos. Quando os grupos começam a tornar-se populares, começa a apagar a chama que eu sinto por eles.

Podemos dizer que quando é uma iguaria tem um sabor diferente, mas quando começa a ser produzido em série…

Exatamente, quando é produzido em série e entra no domínio das massas é a mesma coisa que estar a dizer “vou-me embora”. É uma coisa minha, não sei definir, mas consigo gostar de uma coisa e adorá-la enquanto culto. Um culto que não enche uma capela porque quando o culto começa a encher a capela, a igreja, a catedral e até o anfiteatro à frente, estão preenchidas todas as condições para eu dizer assim “vou partir para outro sítio porque este já não me convém”. Eu gosto de descobrir. Tenho esta faceta de descobrir e de não andar em autoestradas, ando mais por caminhos de pé posto e, sobretudo, até por caminhos que eu próprio faço. Desbravar, ao fim e ao cabo.

E, hoje em dia, ainda é possível encontrar esse culto que não enche a capela?

Sim. É possível e, talvez, mais ainda. Hoje em dia existem micro-movimentos de tendências musicais que têm cultos muito restritos e é onde se encontram as músicas mais promissoras porque estão pouco infectadas com o vírus comercial. São músicos que, muitas vezes, são amadores e fazem o que fazem porque têm uma atividade principal que lhes permite viver com algum conforto. Têm dinheiro suficiente para se dedicarem a atividades de que gostam genuinamente, de que são pioneiros. São músicas que têm originalidade, não têm a infeção nem a contaminação do vírus comercial e que valem por serem músicas genuínas.

Seja na eletrónica, em instrumentos acústicos, em músicas de vanguarda ou mais etnográficas, descobre-se estes sentimentos e eu acredito que seja no lado de amadores cultos e preocupados que estas novas músicas realmente estimulantes acontecem, mais do que no mainstream. O mainstream é o que é, não se pode pensar “vamos lá encontrar grandes delírios ou grandes descobertas”. É um produto feito em série, testado comercialmente com êxito garantido, com promoção a favor. Apesar de haver músicos de mainstream que são estimulantes também, valem a pena ouvir e que, para além das aparências, têm uma mensagem, têm conteúdo e nos fazem ir um bocadinho mais além.

Foto: mediotejo.net

Prosseguindo nesta ideia da quantidade e da produção em série, podemos pensar que é o que acontece nos festivais? Estamos no verão e os festivais multiplicam-se.

O público tem correspondido muito bem ao mercado dos festivais de música de verão, tem dado uma resposta extraordinária, penso que a proliferação dos últimos anos… Enquanto eu vivia intensamente o momento em que recebia os álbuns vindos de Inglaterra, era um momento único que eu vivia com uma ansiedade adolescente muito intensa, próxima da paixão. Nessa altura, os discos eram o ganha-pão das bandas, dos músicos. Vendiam-se centenas de milhares de exemplares. A internet e a digitalização da música veio, de certa maneira, asfixiar… Os números comprovam, houve uma crescente em que o CD matou o vinil sem dó nem piedade.

O vinil que, neste momento, é vintage.

Está a querer recuperar, mas é apenas com uma mentalidade comercial. Ninguém vai pagar 30 euros por um disco de vinil. Os colecionadores… Aconteceu-me isso, em casa eu estava sempre a ouvir os meus álbuns. Aliás, entre CDs e LPS, eu neste momento tenho em casa mais de cinco mil cópias. Aliás, uma altura fiz as contas e se estivesse a passar os meus LPs todos 24 horas por dia, sete dias por semana, chegava ao dia 31 de dezembro e ainda não tinha repetido uma música.

Senti ali por volta de 89, 90, para grande pena minha que resisti até que pude com os LPs. Aqueles discos grandes, que se riscavam. Cada risco era uma dor, era um risco que me faziam na alma, mas senti que os ventos mudavam para o CD e eu próprio me converti à nova religião. Tenho lá o meu gira-discos, tenho lá os meus LPs. Certamente, há mais de 25 anos que eu não ouço um LP dos meus. O CD apareceu inevitavelmente. O primeiro LP que eu comprei foi o do dos Doors chamado “13”, era uma coletânea de temas dos álbuns anteriores, e o primeiro CD foi do Brian Eno, “Before and After Science”.

Depois colecionei alguns milhares de CDs até que surgiu a nova onda da internet, dos motores como o YouTube e muitos outros sites que nos dão música, e a minha coleção começou a esmorecer porque os recursos agora já eram muito mais fáceis… Voltando ao princípio, antigamente os grupos faziam festivais para promover a venda dos discos, que era estimulada sobretudo pela rádio. Hoje em dia, os grupos fazem periodicamente álbuns para promover os concertos. Os concertos é que são o ganha-pão. O público é sobretudo jovem, a não ser que os festivais tenham características muito restritas, e quando falo de jovens, falo até aos 40 anos.

Eu percebo a aderência dos jovens aos festivais porque um festival não é música. É toda uma ambiência, é todo um envolvimento, toda uma experiência pessoal e coletiva de uma intensidade emocional que dá uma transcendência pessoal a quem eles assiste e, muitas vezes, existe uma química entre as bandas que estão no palco a atuar e o público que está a participar. Porque o público não assiste, o público participa no festival e, muitas vezes, os grupos sentem. Já vi grupos a pedir para o público se aproximar. Os grupos precisam do público para dar inflamação à música, para dar estímulo. Eles arrefecem com o público longe. Precisam da chama do público para realizar os concertos.

Também se verificaram algumas mudanças ao nível da própria indústria discográfica e muitas bandas têm, atualmente, um elemento extra com mais protagonismo do que se pensa: o computador.

É um elemento importante para quem o sabe usar. Na semana passada, em Sines [Festival de Músicas do Mundo] assisti a um concerto dos BayanaSystem [grupo originário do Brasil que atuou no dia 28 de julho] em que a presença da eletrónica, dos soundsystems e de dois computadores galvanizaram completamente o público. No entanto, também os computadores, a eletrónica e os sintetizadores têm a sua alquimia, ou seja, é preciso caírem em mãos de virtuosos. Não são exímios como um violinista, mas são virtuosos de outra maneira. Aqueles são os que conseguem entrar numa outra gama de tons que vai diretamente ao sistema sensorial, o sistema neurológico do ser humano.

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E porque o computador também envolve números. Sempre teve este gosto pela música, mas algures pelo caminho do seu percurso profissional começamos a falar em ciências exatas, em sabores com fórmulas precisas.

São coisas compatíveis. Há cerca de 30 anos fiz um trabalho em que mostrei uma forte correlação estatística entre o nível de qualidade entre um bom aluno de matemática e a música. Aliás, eram as duas disciplinas em que havia uma forte correlação ao nível do aproveitamento dos alunos. De uma maneira geral, um bom aluno de matemática era também um bom aluno de educação musical, ou seja, com talento para a música. Por aquilo que eu li e me tenho apercebido, isto terá a ver com estruturas neurobiológicas, estruturas sensoriais, que vivem um bocadinho de ritmos.

A matemática tem um ritmo, a música também tem e correm em paralelo. Há harmonia quando as relações entre os ritmos estão como números naturais entre si porque se a proporção entre esses ritmos for diferente da dos números naturais, o que sai é cacofonia, é ruído. Pitágoras debruçou-se genialmente sobre isso. A harmonia entre os números é paralela à harmonia entre a música. A música propaga-se por ondas, as ondas têm as suas frequências, têm os seus comprimentos de onda e para haver harmonia a melodia principal tem que estar sintonizada em múltiplos nos harmónios e isso dá musicalidade.

Já falámos de música e de números. No seu caso, podemos acrescentar as palavras, pois não se limitou a ouvir música e também tem escrito sobre ela, nomeadamente no terceiro volume do livro “Música nas Cidades – Sons do Mundo” [lançado em maio de 2017, o primeiro foi editado em 2008 e o segundo em 2012].

Eu escrevo completamente fora de aspetos técnicos e teóricos que fazem a música. O que eu procurei fazer foi uma ligação, uma pesquisa entre a natureza das cidades, seja nas suas características demográficas, de imigração, de indústria, climáticas, económicas e sociais com o tipo de música que um dia germinou dentro delas. E procurar obter certas essências que, manifestamente, nos levam a pensar que determinadas músicas, determinados géneros musicais, com as suas características próprias, os seus sentimentos, as suas emoções, o seu humor só poderiam ter surgido em determinadas circunstâncias, num determinado momento e em determinada cidade.

Por exemplo, o tango e Buenos Aires. O tango com a sua sedução, o seu poder de alguém seduzir outro alguém, só poderia ter surgido no final do século XIX na cidade que Buenos Aires que era uma cidade de solidões, com uma migração em massa e compulsiva que criou uma multidão de gente só. Solidões nos homens que chegavam e solidões nas mulheres que estavam. Daí surgiu, sobretudo na zona portuária, uma música que traduzia toda esta solidão e toda esta necessidade de um ser vivo precisar de alguém para a sua alma, a sua essência.

Continuando nas palavras, também existe em si a vertente de jornalista.

Sim, faz parte de mim. Quando tinha 15 anos e estava no liceu de Tomar já tinha uma paixão grande pelo jornalismo. Talvez tivesse começado por gostar dos jornais como leitor e depois porque sempre senti a curiosidade de passar do lado do leitor para o lado de lá, onde os jornais se faziam, e surgiu uma oportunidade em que o vice-reitor do liceu, penso, que terá sido convidado pelo diretor de um jornal que havia em Tomar que era o “Nabão” no sentido do liceu participar em cada número com uma página sobre acontecimentos, notícias, crónicas, reflexões dos alunos.

Não sei porque carga de água, teria 14 ou 15 anos, acabei por ficar como coordenador dessa página. Era responsável por elaborar alguns textos, recolher os dos meus colegas, a quem dava algumas indicações sobre o que deviam escrever. Ironicamente, eu já escrevia sobre música e, mais ironicamente será se lhe disser que dois textos meus com reflexões sobre música tive o privilégio de os ver censurados pelo lápis azul da censura.

Veio a prova de uma das páginas e a esmagadora maioria dos textos, meus e dos meus colegas, vinha com o carimbo vermelho da censura, o que eu aproveitei desde logo para a minha primeira manifestação anti-fascista que foi ir falar com o vice-reitor e pedir-lhe a demissão do cargo porque não era comportável que, escrevendo coisas tão inocentes e tão puras como aquelas que jovens da minha idade escreviam, o jornal viesse todo maculado com tanto carimbo vermelho, censório, dos censores que manifestaram uma grande ignorância em relação aos conteúdos. Fiquei desiludido por aquilo sair assim e acho que foi o último jornal que eu fiz.

Foto: mediotejo.net

Depois deu o salto e saiu do território local até atingir o nacional.

Antes ainda tive duas experiências com o lançamento da revista “Nova”, uns anos mais tarde, e do jornal “Notícias do Entroncamento”, que durou 33 anos, em que fui sempre o chefe de redação. Entretanto veio a aventura no jornal Público, aventura essa que durou bastante tempo. Eu não a considero terminada porque nem eu me despedi do Público, nem ele me despediu a mim. Houve um afastamento talvez porque eu também me comecei a interessar mais por fazer uma escrita mais dirigida para os livros e, entretanto, também surgiu a colaboração com o jornal “Entroncamento Online”, que se mantém.

A passagem pelo jornalismo podia ter ficado pela crónica musical, mas escreveu sobre todos os temas. Quando se escreve sobre música e outros temas, as cadências são diferentes?

Eu penso que sim, apesar de haver um tronco comum que é o ser humano, a nossa essência, os nossos valores, as nossas referências estão cá e são os mesmos quando se escreve sobre política, uma partida de futebol ou um concerto que se ouviu há dois dias. Nós temos esta matriz, este padrão que nos identifica, a nossa idiossincrasia e as coisas, mesmo no jornalismo, nunca podem ser consideradas objetivas porque se falarmos em objetividade no jornalismo estamos a falar de um assinto, ou seja, uma coisa que, tendencialmente, iremos perseguir. Nunca conseguimos despir a nossa subjetividade, nem sei se será desejável nos despedirmos dela ao escrever seja sobre o que for.

Somos interrompidos por um “Já terminaram? Gostaram?”. A resposta é afirmativa e chega o momento da sobremesa: Manuel Fernandes Vicente segue o nosso pedido de panacotta com doce de frutos silvestres, revelando que é uma estreia, acabando por dar o mote para a pergunta seguinte, respondida quando as taças já estão vazias.

Uma vez que a panacotta é uma novidade nos sabores gastronómicos, falemos também no sabor musical mais recente, a sua última descoberta.

Vou-lhe já dizer, foram os Moon Hooch [grupo originário dos Estados Unidos da América que atuou a 25 de julho no Festival de Músicas do Mundo], uma banda com uma tuba, tem que que ter alguma coisa exótica, saxofone tenor e duas baterias. A química que a tuba e saxofone fizeram, um diálogo surpreendente…

Uma música que para eu a definir teria de falar, pelo menos, em 10 géneros musicais. Desde espírito funk à cena downtown de Nova Iorque, ao punk, uma certa abordagem de brassband, uma certa forma balcânica de tocar… Uma música, realmente, muito orgânica em que os músicos da tuba e do saxofone criaram ritmos surpreendentes que empolgaram todo o público do castelo de Sines.

Entretanto também se bebeu o café. O nosso em estado puro e o do entrevistado com adoçante. A última pergunta surge pouco depois do cacau do chocolate preto que acompanha a bebida ser tema de conversa, um dos muitos paralelos que foram surgindo ao longo do almoço.

No final da refeição propomos sempre um brinde ao entrevistado. A que brindamos hoje?

Gostava de brindar ao nosso país, a Portugal, porque acho que somos um povo extraordinário. Somos uma nação valente, acredito que imortal e temos um género que nem sempre valorizamos, mas cada vez tenho mais orgulho em ser português. Acho que todos devemos ser orgulhosos do nosso país e é a isso a que eu brindo.

Posso parecer ridiculamente patriota, mas acho que devemos ser o país com condições para sermos mais felizes em todo o mundo. Podemos não ser os mais desenvolvidos economicamente, mas mesmo assim estamos dentro dos 30 primeiros a nível económico e acho que ao nível de tolerância, compreensão e humanismo estamos, seguramente, nos cinco primeiros. Fazendo o compósito disso tudo, acho que vamos parar a primeiro lugar.

*Publicada em agosto de 2018, republicada em julho de 2019

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1 COMENTÁRIO

  1. Fantástico, como sempre. Atento ao que o cerca e às “coisas do mundo”. Uma mais valia de escritos e documentos que ficarão… (como tudo fica) à espera de um mundo melhor.

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