Entrevista/Fernando Siborro | Ir embora é “a oportunidade de reviver as minhas filhas através das minhas netas” (c/video)

Fernando Siborro nasceu há 60 anos em Lisboa onde viveu até aos 8 quando se mudou com a família para Águeda. Com um pai Guarda Republicano mais uma vez muda de casa e vai para Coimbra onde fez o liceu, voltando novamente a Lisboa para fazer a faculdade de medicina. As mudanças eram uma constante, por isso iniciar a sua vida de médico de clínica geral longe da família no interior do país não foi uma escolha difícil. O médico recebeu o mediotejo.net no seu consultório, no antigo Centro de Saúde de Abrantes, antes de ser homenageado em Santa Margarida da Coutada. A iniciativa partiu dos próprios utentes que chegaram mesmo a promover um abaixo assinado na esperança de manter o clínico por terras do Médio Tejo. Não o demoveram e dia 2 de outubro Fernando Siborro começa uma nova vida em Sintra onde espera ficar até à idade de reforma.

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Nasceu em Lisboa, mudou várias vezes de escola, acabou por fazer o Liceu em Coimbra antes de regressar à capital. Como é que veio parar a Abrantes?
De Coimbra não tenho boas recordações. A nível liceal é extremamente sectário, olham muito para aquilo que os pais fazem e antes do 25 de Abril ser filho de um Guarda Republicano não era a melhor coisa. Os meus colegas todos filhos de médicos, de professores e eu o único de um Guarda Republicano. Fui um bocado maltratado lá… mas já passou. De regresso a Lisboa fiz o curso, o estágio no Hospital Pulido Valente e no Hospital Santa Maria e aquando do concurso olhei para o mapa e escolhi Constância. Vim para cá sem conhecer nada disto, porque a minha nota não foi das mais altas e a colocação na altura era por nota. Se não concorresse na primeira fase estaria nesta altura na Madeira, nos Açores ou em Trás-os-Montes.

Então praticamente ofereceu-se para vir para Constância?
Sim. Aliás, naquela altura o meu desejo era ir para Óbidos. Porque a minha namorada, que viria a ser minha mulher, tinha lá uma irmã e nós queríamos juntar-nos a ela. Mas não deu. O caricato é que falava-se que havia muita gente a concorrer para duas vagas em Óbidos e ninguém concorreu. Havia uma vaga para Constância e calhou-me a mim em 1985.

Acredita ter sido o destino?
Não direi que sou fatalista mas acredito um bocado no destino. Por isso pensei: se fui parar a Constância haverá uma razão. E fiquei por cá. Primeiro fui morar para Santa Margarida da Coutada para um quarto alugado, depois aluguei uma casa em Tramagal e mais tarde comprei lá uma vivenda pequenina que ainda tenho.

Mas agora reside em Abrantes, ainda que por poucos dias…
A cabeça de alguns homens aos 40 anos fica maluca, a minha ficou e então divorciei-me. Fui viver um ano para Tomar, depois estive em Praia do Ribatejo e finalmente assentei em Abrantes e daqui já não saí mais… até mudar-me para Terrugem dia 2 de outubro. Com esta mudança, a minha atual companheira ficou muito chateada mas havemos de nos arranjar. Se Maomé não vai à montanha, via a Montanha a Maomé.

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E onde deu consultas?
Primeiro trabalhei só em Santa Margarida que é o meu local oficial de trabalho. O concelho de Constância mas extensão de Santa Margarida e ali estou há 32 anos. A certa altura, ainda não existiam tarefeiros, fazíamos muito banco de urgências no Hospital de Abrantes, e então trabalhava mais no hospital do que em Santa Margarida. Entretanto fui para Praia do Ribatejo, nunca deixando Santa Margarida. Tinha um ficheiro de utentes pequenino depois os ficheiros aumentaram. Saio de Praia e fui para Tramagal onde estive 3 ou 4 anos. Passei por Sardoal, Alferrarede e até Chamusca para substituir uma colega. Durante as minhas duas horas de almoço ia fazer consultas. Por volta do ano 2000 os políticos juntaram os três centros de saúde: Abrantes, Sardoal e Constância e esse entrosamento fez com que trabalhasse também em Sardoal e em Abrantes. A chefiar, comecei como coordenador do centro de saúde de Constância, depois diretor clínico do centro de saúde de Constância, Abrantes, Sardoal e Mação, mais tarde diretor desses quatro centros de saúde e durante a última grande reforma fui diretor executivo do ACES do Zêzere.

Cargos que lhe deram dores de cabeça?
Este último sim, deu-me dores de cabeça. Coincidiu com a época em que a maioria dos nossos colegas entraram na reforma. Ou seja, tivemos de montar uma nova máquina administrativa pesada e éramos todos inexperientes. Trabalhávamos aqui trinta e poucos médicos neste momento estão 10, na USF estão três, portanto somos 13.

Mudou muita coisa a esse nível nos últimos 32 anos?
Quando vim para cá a minha listagem era de 600 utentes. Ter uma listagem de 2500 era enorme e hoje em dia os meus colegas todos têm 1800, 1900 utentes. Aliás, hoje é normal termos listagens de 2000.

Por falta de médicos?
Sim. Não há médicos. Tivemos de pedir a colaboração dos colegas para ir encaixando mais algumas pessoas. Foi daí que surgiram as consultas de recurso, de recurso de saúde infantil, saúde materna, de diabéticos. Tivemos de inventar maneiras de servir as pessoas, dar-lhes alguma coisa porque não havia mais nada. Claro que não é método de trabalho. Nestes anos de chefias nunca recebi má vontade dos colegas, mesmo ficando sobrecarregados.

E a relação com os doentes?
Essa vai sendo diferente. Conheço os avós, os pais, os filhos, os netos e até os bisnetos, portanto são quase cinco gerações que passam pelos médicos de família, coisa que no hospital nem sabem o que isso é. Nós acompanhamos durante a vida toda, vamos-nos afeiçoando e fazendo as nossas amizades.

Relações afetivas inevitáveis durante estas três décadas…
Tenho 60 anos, mais de metade da minha vida foi passada aqui. Nos últimos 16 com responsabilidades em relação à gestão, portanto mais apego tenho. As pessoas podem não entender aquilo que eu decidi. Mas foi sempre numa ótica de servir melhor as pessoas dentro das possibilidades de serviço. Para isso tivemos que desativar algumas extensões porque era impossível com dez médicos. E para mim servir as pessoas não é ter médico uma ou duas tardes por semana. Isso não é nada, é enganar os utentes. O ter médico é ter todos os dias de manhã e à tarde. Daí tentarmos ter concentração de meios, mantivemos a Bemposta e tentámos fechar São Facundo e Vale das Mós. Na zona norte ficou o Carvalhal e tentámos colocar os poucos recursos só nesse local que era para lá estar o mais tempo possível, porque assim é que se servem as pessoas. Ter médico um dia por semana serve só para passar receitas porque quando o doente precisa não está lá.

Portanto considera esse método errado?
É um erro que os nossos políticos tentam fazer, nomeadamente os presidentes de junta, lutar para que haja um médico uma vez por semana para quê? Isso é enganar as pessoas. No meio destas decisões todas sempre foi ponto de honra: as visitações domiciliárias estavam asseguradas quer de enfermagem quer de médico. Portanto, quem mais precisava íamos lá, quem não precisava vinha ao local onde havia consultas. Continuo a pensar assim. A única forma de servir a população e não ter médico em todas as ‘chafaricas’ uma vez por semana. Em vez dos presidentes de junta fazerem birra dizendo mas valia juntarem-se, arranjarem um transporte e desviarem as pessoas da freguesia para outro lado. Temos o caso de Rio de Moinhos e Aldeia do Mato que os presidentes de junta arranjaram uma carrinha e as pessoas deslocam-se de um lado para o outro e têm consultas todos os dias.

E como explica os utentes estarem à porta do posto médico às 06h00 para arranjar consulta?
Às vezes é a cultura das pessoas. Vão cedo para arranjar consulta porque querem despachar-se cedo e depois estão a manhã toda a conversar à porta do centro de saúde. Outras vezes não é só isso mas má gestão do colega em relação à sua consulta. Gerir a consulta aprende-se e se pensarmos sempre nas pessoas arranjamos meios para que as pessoas não estejam às 06h00 à porta. Agora se não há meios também é difícil inventar.

E como foi a sua passagem pelo Médio Tejo?
Foi agradável. Gosto de estar aqui. Gosto das pessoas. As minhas filhas nasceram cá, embora agora estejam fora e essa é uma das razões da minha partida. Porque o meu irmão e as minhas filhas estão em Lisboa, a mais pequena que está no 11º ano e também se vai embora. Uma pessoa à medida que vai envelhecendo o peso da família torna-se cada vez maior. Aqui sinto-me um bocado sozinho.

A solidão traçou o momento da partida?
O nascimento das minhas netas, estão a crescer e não ter tempo para estar com elas mexeu comigo. Estão na Terrugem, Sintra, e é para lá que vou. A juntar a isso alguns desaguisados de serviço mas que neste momento não têm importância embora tenham a causa da questão. Com a minha insatisfação de repente caí em mim e comecei a ver as minhas netas que quase não me conhecem, as minhas filhas estão longe eu estou aqui sozinho. Já nada me prende porque as responsabilidades organizativas desapareceram. Quero ir buscar as minhas netas ao jardim escola, passar os fins-de-semana ir à praia. Há coisas que nunca fiz e que quero fazer. Acho que estou a perder uma oportunidade muito grande de reviver as minhas filhas através das minhas netas.

A família tem neste momento um peso maior que todas as outras ligações afetivas que criou ao longo dos anos?
Sou muito brincalhão. Toda a gente me conhece por isso. Outros não gostam de mim por nada deste mundo mas a maioria gosta, até porque estou sempre bem disposto, tento ser o mais cordial e atencioso possível. Mas no meio de toda esta popularidade não criei aqui grandes amigos, ando sozinho. É um defeito meu, não consigo criar amizades e mantê-las. As minhas amizades são à distância e não muito em cima de mim. Não consigo. Há pessoas que me surpreendem porque não estava à espera de atitudes de amizade e de repente revelam-se e há outras que me dececionam. Faz parte da vida, estar sempre a aprender.

O que é que deixa para trás?
A ligação às pessoas. O que deixo para trás são precisamente as gerações que acompanhei. Há utentes que conheço desde pequenos. Conheço parte das suas vidas que se calhar nunca contaram a ninguém, isso é a vantagem de ser médico de família. Quantas pessoas não desabafaram à minha frente? Quantas não choraram? Trabalhando numa aldeia onde constantemente estou a ver as pessoas é capaz de ser muito mais intenso do que numa grande cidade. Deixo ainda para trás o trabalho, mas é inglório porque ninguém é insubstituível. Soube hoje que estão para vir 4 ou 5 novos médicos. A novidade deixou-me contente porque finalmente as pessoas vão ter aquilo que merecem. E triste porque estou aqui [em Abrantes] há 10 anos e os maus foram todos passados comigo. A bonança vem agora quando me vou embora. As memórias é aquilo que deixamos para trás. Estou muito apegado ao centro de saúde de Abrantes, de Constância e Sardoal.

A ligação com as pessoas é o melhor que leva de Abrantes?
Sim. Os afetos são sempre o melhor. Sinto-me extremamente honrado por saber que as pessoas gostam de mim.

Sente alguma mágoa?
O facto de ter sido obrigado a pedir demissão magoou-me muito. Essa foi a primeira razão porque me quis ir embora. A segunda foi a família. Vou-me embora para não voltar, com duas sensações: uma de ter trabalhado com tudo o que eu sabia e podia. Passei muitas noites em branco. Enquanto diretor executivo tive o prazer de nunca me ter chateado com ninguém. Montámos uma máquina que funcionava e que depois foi totalmente desfeita porque entretanto as regras mudaram. Tinha 20 pessoas a meu cargo e de repente chefiei 300 pessoas sem experiência nenhuma. Em Lisboa olhavam para mim com certo gozo pela falta de experiência. Fui olhado na ARS com desdém mas tudo funcionou bem. Foi um cargo que nunca pensei conseguir, apesar de ambicionar porque gosto de gerir, de comandar pessoas. Não é ser chefe! Tentei ser um líder e esse é um orgulho que levo. E se calhar foi esse o motivo do destino ao ter ficado em Constância.

Vai-se embora dia 2 de outubro para não voltar?
Sim. Pedi a mobilidade no final de fevereiro mas por ser uma zona carenciada nunca pensei que me deixassem sair. Deram-me a mobilidade a partir de 1 de agosto. Deveria estar a trabalhar em Sintra. Achei que era muito cedo, que não era justo ir de férias e nunca mais voltar. Se calhar deveria ter feito isso, em termos emocionais era muito mais fácil. No dia 2 de outubro já estou no meu novo posto. Mas trata-se de uma mobilidade, tenho um ano e meio para voltar o que dá uma certa garantia. Eu gosto de desafios. Tomei esta decisão à meia noite, danado com o que me tinham feito. Achei que era injusto terem-me convidado a sair de diretor dos três centro de saúde depois de 16 anos de dedicação. Já não volto atrás.

E como foi a fase da sua vida em que esteve ligado à comunicação social como presidente da direção da Rádio Tágide?
Quando fui morar para o Tramagal alguém me convidou para fazer um programa de rádio sobre saúde. Aí começou a minha ligação à Rádio Tágide. Entretanto fiquei sócio da cooperativa. Mais tarde tive um programa sobre coisas que no fundo era comentar a atualidade do país. Entretanto entrei nos órgãos sociais da rádio e fui presidente da direção durante muitos anos.

Acompanhou a rádio numa boa fase?

Acompanhei a rádio Tágide numa fase boa, numa fase má e numa fase muito má. Até que faliu. Sinto-me culpado porque não deveria ter aceite o cargo por falta de tempo para gerir. Podemos delegar algumas funções mas as grandes decisões nomeadamente a parte financeira tem de ser presencial. Tenho muita pena que a rádio Tágide tenha fechado. Embora tivéssemos funcionários, funcionava sempre num espírito de amador. Nunca os funcionários perceberam que tinham obrigações perante a rádio. Gostavam de receber o ordenado mas a mentalidade era de colaboradores.

Sentia por parte das autarquias uma certa visão redutora da rádio Tágide, como se fora um parente pobre?
Da Câmara Municipal de Abrantes sim. Não só da atual presidente mas dos anteriores presidentes. Sempre desdenharam da rádio. Olhavam de lado. O que é pena porque não tínhamos filiação partidária, não tínhamos telhados de vidro, éramos completamente independentes. A IURD queria comprar 4 ou 6 horas de programação e para nos mantermos independentes não aceitámos. Fomos burros, porque dava dinheiro e se calhar a rádio ainda existia, embora com uma tarde inteira da IURD a falar. Fazíamos 2 ou 3 mil euros em publicidade e de repente passámos a fazer 100 euros com a crise. Foi o descalabro total. Compramos carros, a casa, computorizamos todo o sistema tudo sem empréstimos. Éramos a única rádio que fazia a transmissão em direto dos jogos de futebol da região. Além da rádio também fiz teatro em Tramagal e ultimamente estive no orfeão de Abrantes, algo impensável conseguir cantar. Se em Sintra houver um coro, vou.

E como vê esta homenagem promovida pelos utentes?
Não estava à espera. O ideal era ir-me embora e pronto. Hei-de cá voltar ao fim de semana e palmear isto tudo mas nunca pensei que as pessoas se organizassem para me homenagear. Aliás deveriam era estar zangadas porque de repente as deixo sem nada. Houve um abaixo assinado para não ir, mas avisei logo que não valia a pena porque se numa primeira fase fui obrigado a pensar em ir-me embora, depois foi por vontade própria. Custa-me tomar algumas decisões mas quando as tomo é irreversível. Mas fico comovido. Este jantar levanta-me o ego. Sendo que alguns doentes vão comigo para Sintra. Têm lá família e podem inscrever-se. Apesar de não ter grandes expectativas quanto ao serviço até porque dentro de meia dúzia de anos estou na reforma, espero mesmo é aproveitar o tempo para estar com a minha família.

Mas vai sentir saudades?
Claro que sim. Aqui as pessoas conhecem-me. Sabem que entro a assobiar, que faço barulho no meio do consultório, que de manhã digo boa noite. As minhas entradas nas salas de espera são sempre as coisas mais incríveis e ninguém me leva a sério… em Sintra ninguém me atura coisas destas.

Se não fosse médico poderia ser outra coisa?
Não. Embora não fosse um desejo. Nunca quis ser médico. O meu irmão desde pequenino que queria ser médico e é pediatra. Eu queria ser tanta coisa, tudo ligado a automóveis ou máquinas industriais. Depois de ser médico não me vejo a ser mais nada. Embora gostasse de experimentar trabalhar num entidade privada, com responsabilidade de gestão porque já tive esse trabalho no público e sei quais são as limitações. Gostava também de formar um novo médico de família porque o que acontece com os jovens médicos é que vêm tão formatados para o computador que se esquecem que têm uma pessoa à frente. As novas tecnologias são em parte um impedimento à medicina porque os médicos distraem-se muito com os computadores. A tecnologia vem prejudicar o relacionamento entre as duas pessoas, o utente do lado de lá e o médico do lado de cá.

A nível pessoal o que é que ainda quer fazer?
Viajar. Gostava de na reforma, primeiro ajudar as minhas filhas, e depois o meu sonho é comprar uma autocaravana e ir passear. Sozinho ou acompanhado. Lido bem com o silêncio e com a solidão. Uma coisa que aprendi com o divórcio. Claro que se puder ser acompanhado é muito melhor. Não somos bichos solitários.

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