Entrevista | Vasco Damas, um cidadão sem partido na corrida à Câmara de Abrantes

Vasco Damas. Créditos: Jorge Santiago

O gestor abrantino Vasco Damas, 49 anos, apresentou-se esta segunda-feira como candidato à Câmara Municipal de Abrantes, a sua cidade natal, sem qualquer filiação política e com uma equipa de cinco pessoas. Não é o primeiro a abraçar um movimento independente em Abrantes, mas diz que o concelho é o seu partido, com o slogan de ‘Missão Possível’. Vive atualmente em Tramagal, e explica as razões que o levaram a decidir apresentar uma candidatura independente dois anos antes das eleições autárquicas: ter tempo para ouvir as pessoas, perceber o concelho e conhecer os dossiês.

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Licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade Internacional, trabalhou na Associação Empresarial do Concelho de Abrantes, na NERSANT, como gestor da Mercar, no Grupo Lena, em Leiria, como gerente da MultiOpticas, e regressou a Abrantes para trabalhar no grupo Sonae. Gosta de futebol, integra a equipa de veteranos dos Dragões de Alferrarede, e o tempo passa-o da melhor forma em família, a viajar para “aumentar a capacidade de conhecimento”, no cinema – David Linch é um dos realizadores eleitos – e a folhear livros, tendo mesmo a ambição de ser autor.

Durante muito tempo considerou ‘A Insustentável Leveza do Ser’, de Milan Kundera, como o livro da sua vida, depois amadureceu e tornou-se um romântico, embora o seu escritor predileto seja o japonês Haruki Murakami. Hoje, o seu livro preferido é o que lê no momento. No caso, ‘Amazónia’, de James Rollins, uma obra que considera “altamente inquietante”. A sua máxima é “fazer acontecer” e o momento mais marcante da sua vida foram, na verdade, dois: os nascimentos das suas duas filhas, um “cliché” do qual não quer fugir.

Vasco Damas é o cabeça de lista do ALTERNATIVAcom à Câmara Municipal de Abrantes. Foto: Jorge Santiago/mediotejo.net

Esta é uma candidatura independente. Não está vinculado a nenhum partido político. A ideologia pode ser um empecilho?

A ideologia prende. Torna-nos muitas vezes reféns de algo com o qual não nos identificamos. Como tem de haver uma disciplina, temos, em democracia, de submeter-nos à ditadura das maiorias, e as maiorias nem sempre estão certas. Acredito que a independência desta candidatura é libertadora relativamente a isso. Não estamos reféns de ideologias nem de partidos porque o nosso partido é Abrantes e o bem estar das pessoas. Queremos trabalhar de uma forma altruísta e abnegada para recuperarmos o desenvolvimento que é apregoado mas há muito tempo adiado.

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É o cabeça-de-lista mas falamos de uma candidatura ‘no plural’. Qual o nome?

O nosso movimento chama-se ALTERNATIVAcom. Sabemos que alternativas há muitas, mas sabemos que a nossa é distintiva. Queremos, com vontade e motivação, recuperar o desenvolvimento do concelho, focados no futuro, mesmo quando se diz insistentemente que não existirá futuro no interior do País. E ‘com’ porque queremos que seja inclusivo, com as pessoas, com as 13 freguesias, com as instituições, com as associações, com todos sem exceções. Este é um projeto que durará o tempo que os abrantinos quiserem mas nunca menos de 10 anos, é um compromisso. Para que os abrantinos não se sintam enganados como aconteceu em 2009; tiveram uma candidatura independente sem continuidade. Garantimos que vamos a eleições em 2021 e, independentemente do resultado, continuaremos a trabalhar para ir a eleições em 2025, garantindo que estaremos a trabalhar pelo menos até 2029.

Não estamos reféns de ideologias nem de partidos porque o nosso partido é Abrantes e o bem estar das pessoas. Queremos trabalhar de uma forma altruísta e abnegada para recuperarmos o desenvolvimento que é apregoado mas há muito tempo adiado.

E quem são as cinco pessoas da sua equipa?

Este grupo foi constituído com base em duas grandes variáveis: pessoas com credibilidade que acrescentassem valor a este núcleo, que nos permitissem construir uma alternativa credível; e pessoas com as quais me identifico, da minha confiança. O número dois, dos últimos a entrar mas dos primeiros a ser escolhido, é o Rui André, presidente da Junta de Freguesia de Rio de Moinhos. Quero que este projeto seja o mais transversal possível e mais representativo da realidade abrantina, tanto ao nível de faixas etárias como de quadrantes ideológicos, e Rui André, apesar de uma ligação no passado ao PSD – eu fui deputado municipal pela CDU, embora como independente – é uma pessoa extremamente corajosa, que não se deixa ficar refém das ideologias. Não é por acaso que teve a coragem de se desvincular do PSD e avançar com uma candidatura independente e ganhou tranquilamente a freguesia de Rio de Moinhos. É uma mais valia tendo em conta o conhecimento do funcionamento do sistema autárquico local. Depois a Ana Gomes, arquiteta, que pretende dar resposta a uma das nossas prioridades; o urbanismo e a requalificação urbana. José Rafael Nascimento, ex-professor universitário, que não conhecia mas fui conhecendo através das redes sociais, trocando opiniões e percebendo que era muito mais aquilo que nos aproximava do que aquilo que nos afastava, apesar de existirem assuntos em que discordamos mas temos capacidade de discutir e de chegar a consenso, com cedências de parte a parte. Tem tido uma intervenção cívica brutal desde que chegou a Abrantes, tem experiência destes movimentos porque esteve ligado a um nas Caldas da Rainha. Pode dar uma ajuda muito forte no desenvolvimento de um conjunto de iniciativas e projetos que temos. E por último João Pedro Céu. Temos uma forma de ser, de estar e de alinhamento cognitivo muito parecida. Uma pessoa em quem deposito uma confiança ilimitada, que me tem dado lições tremendas, que se colocou de forma altruísta neste projeto, que tem colocado sempre os interesses do projeto à frente dos seus.

Vasco Damas. Créditos: Jorge Santiago

Não se identifica com nenhum dos partidos políticos do panorama nacional?

Identifico-me com todos e com nenhum. A minha opinião é pública e está publicada. Escrevi várias vezes que não gostava de política. Errado! Gosto imenso de política, não gosto é da política feita por estes políticos. A política deveria ser uma arte nobre de servir os superiores interesses das pessoas e dos territórios e, normalmente, vemos o inverso: os interesses pessoais e corporativos colocados à frente dos interesses das pessoas. Todos os partidos têm ideias válidas e às vezes são rejeitadas porque há inversão da cadeia de valores no poder.

A política deveria ser uma arte nobre de servir os superiores interesses das pessoas e dos territórios e, normalmente, vemos o inverso: os interesses pessoais e corporativos colocados à frente dos interesses das pessoas.

Portanto concorre como independente por acreditar que um político profissional acaba por agradar a quem lhe abriu as portas?

Sim. Quero ter sempre liberdade e tranquilidade para tomar decisões com a equipa que está ao meu lado e não com políticas emanadas de Lisboa, ou concelhias, ou nacionais ou pelo que quer que seja. Não me revejo na classe política nacional porque não tem sabido fazer-se respeitar precisamente por causa daquilo que é do conhecimento da opinião pública. Independentemente de também acreditar que há muito mais políticos honestos do que desonestos, a imagem que temos da classe política em geral é muito negativa.

Já percebemos que é um homem da esquerda… Acha que as designações esquerda/direita ainda fazem sentido?

Uma das pessoas com que me identifico mais neste momento é Rui Rio. E tenho uma crónica escrita, quase profetizando no tempo de Passos Coelho [no PSD] e de António José Seguro [no PS], onde escrevi que o País estaria no bom caminho quando Rui Rio fosse líder do PSD e António Costa líder do PS. Há dias estive para escrever sobre ideologias… existe uma conotação tão negativa quando se fala de esquerda ou de direita, e muitas vezes os partidos direita apresentam políticas de esquerda e vice versa, que confundimos conceitos porque os conceitos se têm vindo a esbater devido à evolução social dos últimos anos. Se me quiser rotular – e detesto rótulos – identifico-me mais com uma política, uma filosofia ou ideologia de esquerda, porque as pessoas são muito mais importantes que uma folha de Excel. Ainda há pouco tempo, com Vítor Gaspar, vimos a obsessão pelo controlo de um défice, independentemente do sacrifício das pessoas.

Vasco Damas. Créditos: Jorge Santiago

Depois de uma carreira no privado o que o levou a candidatar-se para ser “funcionário público”, no caso na Câmara Municipal de Abrantes?

Desde que passei a estar nos meios de comunicação social local, desde 2010 na Antena Livre e mais recentemente no mediotejo.net, tive consciência que a minha responsabilidade social aumentou exponencialmente. Ao longo deste percurso, até porque tento dizer as coisas com alguma elevação e alguma acidez controlada, não deixei de criticar sempre que achei que deveria e tive sempre mais motivos para criticar do que para elogiar as várias decisões da Câmara Municipal de Abrantes. E a certa altura comecei a ser confrontado com: é mais fácil falar do que fazer. E senti necessidade de avançar de forma corajosa, acreditando que há outras formas de fazer e outras formas de otimizar recursos, conseguindo com o mesmo resultados totalmente diferentes. Se não o fizesse provavelmente perdia grande parte da legitimidade para continuar a apontar o dedo e para criticar a autarquia e para dar sugestões de melhoria. Essa foi a razão, acreditando nas minhas capacidades e acreditando muito mais nas capacidades da equipa à minha volta.

identifico-me mais com uma política, uma filosofia ou ideologia de esquerda, porque as pessoas são muito mais importantes que uma folha de Excel.

Vasco Damas. Créditos: Jorge Santiago

Acha que as pessoas estão fartas de ouvir os políticos e querem ser ouvidas ou essa exigência ainda não chegou a Abrantes?

Relativamente às últimas polémicas que envolvem a atual ministra da Agricultura [ex-presidente da Câmara de Abrantes] quando passo os olhos pelas redes sociais fico na dúvida como é que Maria do Céu Albuquerque ganhou com maioria absoluta em 2017 reforçando os resultados de 2013 porque, segundo o que leio, mais de 90% dos abrantinos não votou nela. E como acredito na nossa democracia acho que os votos foram bem contados.

Ou seja, vão apelar às vozes discordantes. Acredita que estarão na abstenção?

Essa é uma batalha que vamos tentar combater. Sabemos que é muito difícil roubar votos ao Partido Socialista. Tem uma organização bem montada e bem alimentada, há muitos anos. Portanto, para podermos ter o melhor resultado possível, teremos de apostar na recuperação das pessoas que perderam o hábito de votar. Construir o tal projeto credível, de alternativa. Vamos trabalhar para que a taxa de abstenção em 2021 seja a mais baixa dos últimos anos. Se não o conseguirmos, será uma derrota pessoal para nós.

Costuma ouvir as pessoas na rua, escuta as queixas ou os desabafos dos abrantinos, conhece bem o concelho? Como pretende fazer campanha para as eleições de 2021?

Estamos a fazer as coisas de forma pouco convencional, ou seja, estamos a apresentar a candidatura dois anos antes das eleições. Normalmente este tipo de movimentos apresentam-se três a quatro meses antes e depois fazem uma corrida rápida, vão a votos e as coisas acontecem com ou sem resultados. Vamos avançar já precisamente para termos tempo: de sermos conhecidos, de construir um projeto, de ouvir as pessoas, porque queremos dar voz aos cidadãos, algo que me parece que não tem sido muito praticado nos últimos anos. A política local é autista, toma decisões sem ouvir a vontade dos cidadãos, de forma quase egoísta e às vezes elitista. Às vezes existe uma cultura de brilho construído de forma premeditada para nos ofuscar mas sem conteúdo. Corremos o risco, porque acreditamos em nós e que faz falta uma alternativa que possa abanar os pilares da democracia local. Não nos candidatamos contra ninguém, mas por Abrantes.

para podermos ter o melhor resultado possível, teremos de apostar na recuperação das pessoas que perderam o hábito de votar. Construir o tal projeto credível, de alternativa. Vamos trabalhar para que a taxa de abstenção em 2021 seja a mais baixa dos últimos anos. Se não o conseguirmos, será uma derrota pessoal para nós.

Como é que isso se faz?

Temos de estar representados em todas as freguesias. Ir ao terreno para conhecermos em profundidade a realidade do concelho. Temos de perceber as necessidades das pessoas para construirmos o nosso projeto, não em função daquilo que nós achamos porque pode ser totalmente diferente das reais necessidades das pessoas. A partir de janeiro arrancaremos em força com uma série de iniciativas. Temos recursos limitados, não temos máquina partidária, portanto temos de ser criativos e apostar na comunicação, no contacto direto com os cidadãos.

E se for eleito? Terá de passar da teoria à prática e atender as várias preocupações das pessoas…

Temos de gerir prioridades. E perceber que recursos teremos para o fazer. Devo dizer que o orçamento [para 2020] me deixa muito preocupado! Se para 2020 as despesas de pessoal vão crescer 20% e se o investimento vai cair, ficamos muito preocupados com as opções dos executivos. E não é só este que estará refém de decisões estratégicas de executivos anteriores. Tem a ver com investimentos que provavelmente vão ter custos de manutenção brutais e correm o risco de se transformar nos tais elefantes brancos que serão absorvedores de dinheiros públicos e que retirarão à Câmara a capacidade de dar resposta às prioridades. Sem ter um conhecimento profundo da atual situação financeira da Câmara, não deixo de ficar preocupado.

Uma das maiores preocupações das pessoas é o desemprego. Defende o encerramento da Central Termoelétrica do Pego?

É claramente uma ameaça para o futuro do concelho, porque não é só em relação ao emprego que é fundamental, temos de trabalhar para criar emprego e não criar condições para aumentar o desemprego, mas também ao nível dos impostos, com a Derrama que aquela empresa paga, pode provocar uma diminuição de receitas que pode limitar os recursos para investimentos que queiramos fazer. Agora o que queremos é total transparência relativamente ao que vai acontecer. Sabemos que a parte do carvão vai encerrar mas não sabemos quais são as alternativas, já ouvimos várias versões. A função da autarquia perante o poder central é pedir um esclarecimento e fazer pressão. Também não percebo a razão do Pego encerrar em 2021 e Sines só em 2023, gostava que me explicassem.

Vasco Damas. Créditos: Jorge Santiago

As cidades do interior, de media dimensão como Abrantes, têm vindo a perder importância no panorama nacional. Concorda? O que fará para inverter tal tendência?

Se não concordasse não avançaria para uma candidatura. Algumas estatísticas indicam que Abrantes não está mal, mas se analisarmos ao detalhe percebemos que nos indicadores positivos, até nesses Abrantes está mal porque em média, nos concelhos à volta, normalmente estamos sempre abaixo dos resultados positivos dessas estatísticas. Numa primeira fase temos de estancar a hemorragia que tem sido a perda de população nos últimos anos. Se calhar faz-se ao contrário do que tem sido feito. Aquilo que é apregoado passa por criar empresas, criar emprego, convidar as pessoas a virem para cá, mas, antes de tudo, não podemos deixar que se vão embora. As pessoas têm de sentir que estão num concelho com um conjunto básico de infraestruturas que lhes permita ter um mínimo de qualidade de vida. Não basta ter só um bom ambiente ou não termos hora de ponta. Precisamos de uma oferta cultural que dignifique a cidade e faça com que as pessoas tenham vontade de cá estar, de cá ficar e de nos visitar. Olhamos para Abrantes e falta-nos praticamente tudo. Fomos perdendo. Até a tal casa de espetáculos está fechada quase há dois anos. Depois de termos essas infraestruturas convidar as empresas.

Numa primeira fase temos de estancar a hemorragia que tem sido a perda de população nos últimos anos. Se calhar faz-se ao contrário do que tem sido feito. Aquilo que é apregoado passa por criar empresas, criar emprego, convidar as pessoas a virem para cá, mas, antes de tudo, não podemos deixar que se vão embora.

Falando num espaço cultural defende um novo ou a preservação do Cineteatro São Pedro?

Defendo o que for melhor para a cidade em termos de relação custo/benefício. Como disse há formas de, com os mesmos recursos, conseguir resultados diferentes. Fará sentido investir um milhão e duzentos mil euros no Colégio de Fátima, que não sabemos quando estará operacional… se calhar a situação o Cineteatro São Pedro já estava resolvida, e se calhar ainda sobrava dinheiro para outras opções como a construção de um multiusos ou para a preservação do antigo mercado diário, outra das nossas bandeiras. Queremos apostar na preservação do património municipal. Faz sentido o investimento que foi feito no novo mercado diário que não tem condições nem para quem lá está a vender nem para quem lá quer ir comprar? Basta falar com os vendedores e perguntar sobre a queda nas vendas que têm, na passagem de um lado para o outro. Se a opção tivesse sido diferente se calhar preservando o edifício e dotando-o de outras valências permitindo que fosse uma fonte geradora de receitas que permitisse o auto-pagamento. São negócios que não entendo! Agora fala-se no McDonalds… oiço esta conversa há 20 anos e até agora continuamos a ter de ir a Torres Novas. Não estou a defender a vinda dessa marca para cá, mas ela está nas cidades que têm o mínimo de desenvolvimento, dando alguma notoriedade e atratividade. E também por isso que queremos fazer de forma diferente.

as pessoas têm de sentir que estão num concelho com um conjunto básico de infraestruturas que lhes permita ter um mínimo de qualidade de vida. Não basta ter só um bom ambiente ou não termos hora de ponta. Precisamos de uma oferta cultural que dignifique a cidade e faça com que as pessoas tenham vontade de cá estar, de cá ficar e de nos visitar. Olhamos para Abrantes e falta-nos praticamente tudo. Fomos perdendo.

E como vê o Centro Histórico da cidade?

Com tristeza! Ainda hoje sou o mais novo presidente da história da Associação Comercial de Abrantes, Mação, Sardoal e Constância. Tinha 30 anos, em 2000, e já naquela altura começamos a falar na gestão de um centro comercial a céu aberto, aquilo que hoje se tenta dinamizar, há 20 anos já falávamos nisso e o objetivo era trabalharmos em parceria com a autarquia para dinamizar o Centro Histórico de uma forma contínua para que as pessoas não perdessem o hábito de o frequentar. Hoje vê-se que se perdeu demasiado tempo e que o futuro não foi acautelado. As últimas vezes que lá fui levei um murro no estômago com o seu estado, o abandono, o estado devoluto e perigoso dos edifícios do Centro Histórico. E em tempo útil a Associação Comercial alertou para isso. A verdade é que duas décadas passadas pouco ou nada foi feito. Por isso, a requalificação urbana é uma das nossas bandeiras.

O atual executivo defende uma nova Escola Superior de Tecnologia de Abrantes no Tecnopolo, para o incremento do ensino superior no concelho. É também uma aposta vossa?

Neste momento ainda não avaliei. Um dos elementos da equipa vai ter como área principal a Educação, mas em teoria tudo aquilo que seja para retirar valências ao Centro Histórico oponho-me. Muito do estado do Centro Histórico tem relação com a retirada de institutos e serviços públicos que neste momento se está a tentar recuperar. Em teoria essa concentração poderia fazer sentido para a Escola e para a gestão de recursos. Para o Centro Histórico não me parece que seja benéfico. Mas havendo a possibilidade de se reutilizar esse edifício com outro tipo de valências ou oferta, eventualmente pode ser uma solução.

Vasco Damas. Créditos: Jorge Santiago

Quais são os grandes desafios que Abrantes tem de ultrapassar?

Fixação de pessoas. Se tivesse menos 30 anos… gosto imenso de teatro, de cinema, de um conjunto de ofertas culturais. Reconheço que foram feitas infraestruturas, a Cidade Desportiva, as piscinas, mas falta-nos muito. Enquanto a cidade não tiver esta capacidade de atratividade, de uma oferta básica para podermos fruir a nossa existência humana não somos competitivos e não temos capacidade de atração.

E se ainda assim falhar a vinda e a fixação de pessoas? Arrisca a existência de infraestruturas sem pessoas?

Sim, é um risco. Mas parece-me um maior risco precisamente o contrário que é não fazer pelo risco de estarmos a fazer para depois não termos pessoas. Há um gabinete chamado AbrantesInvest pergunto qual é o custo benefício dos últimos anos desse gabinete e o resultado apresentado? Temos exemplos a nível nacional de concelhos que foram vender o seu concelho e convidar as empresas a instalarem-se lá, mas para isso têm de estar presentes em feiras empresariais e têm de ter trunfos, as tais valências e infraestruturas para oferecer a quem quiser vir instalar-se. O que tem Abrantes de diferenciador para convidar as empresas a virem para cá? Pouco ou nada.

A vossa aposta concentra-se na cidade ou contempla as freguesias rurais?

Claro. Não há parentes pobres. Dentro das prioridades e gestão de recursos. Neste momento desconheço os recursos financeiros da Câmara, mas o objetivo passa por termos uma presença forte nas freguesias. Ou seja, a cidade tem de ser forte para ter capacidade de atratividade que as freguesias depois possam beneficiar. Demasiada dispersão é dividir migalhas, mas há condições de tornar uma cidade mais atrativa que por indução e por contágio vai fazer bem às freguesias, quer urbanas quer rurais.

Tem visão, por exemplo, de apoio à habitação no sentido de fixar jovens também nas freguesias ou não?

Neste momento, em teoria estamos abertos a tudo. Mas também temos de perceber, em termos de legislação, o que existe e a que candidaturas podemos concorrer para obter fundos. Se há algo que Abrantes está carenciada é de uma política ou de uma revisão profunda ao nível da requalificação urbana. Enquanto não olharmos para isso como uma prioridade estamos constantemente a adiar o futuro. Tem de ser uma prioridade do concelho, incluindo nas freguesias. A nossa grande prioridade é o desenvolvimento.

Se for eleito, o que levará da gestão privada para a gestão pública?

O rigor e a transparência. Atualmente no meu trabalho tenho uma parte variável no meu rendimento, mas só a recebo se apresentar resultados. Sou gestor mas não público, daqueles que no fim do ano apresentam resultados altamente negativos e são premiados pelo mau trabalho que fizeram. Todos os trabalhadores têm um prémio mensal, mas só têm direito a esse prémio se conseguirmos um conjunto de premissas e trabalharmos de forma a atingir esses resultados.

Como vê o poder autárquico?

Vejo de uma forma ingénua. Deveria ser uma gestão de recursos de maneira a colocar à disposição das pessoas aquilo que efetivamente necessitam. Esta é versão romântica. Aquilo que observo é que normalmente não acontece assim. E não tem a ver com Abrantes, é um problema transversal à maior parte dos concelhos de Norte a Sul do País. Muitas vezes tomam-se decisões que os cidadãos não entendem porque são onerosas para o concelho e não são aquilo que precisa.

Por falar em transparência, como comenta as notícias nacionais que envolvem o 180 Creative Camp, o cidadão Jorge Ferreira Dias, ou as oliveiras da Escola Lucília Moita?

Em relação ao caso de Jorge Ferreira Dias escrevi duas crónicas dando a minha opinião mas devo dizer que neste processo tenho mais dúvidas do que certezas. Tive a preocupação de fazer perguntas ainda sem resposta. Já estive com Jorge Ferreira Dias, conheço os documentos, mas é um processo complexo. Tenho dúvidas se não terá sido um problema político. Mas o seu arrastar não é benéfico para ninguém. Nem para a autarquia, nem para o empresário, nem para o concelho. Relativamente às outras notícias… quando vejo que a dúvida é entre irregularidade e ilegalidade…. deixa-me profundamente triste e ainda mais descrente na tal lógica de serviço público. O que deveríamos era colocar a dúvida entre regularidade e irregularidade e entre legalidade e ilegalidade, e admito que se possam cometer erros e não excluo, se estiver a exercer funções, que também os possa cometer, afinal somos humanos. Mas quando há determinado efeito padrão na tomada de várias decisões…. as coisas chegaram agora à comunicação social nacional, mas na sua generalidade já eram do conhecimento da opinião pública. Provavelmente chegaram à comunicação social nacional porque Maria do Céu Albuquerque foi nomeada ministra. Também não percebo qual é o objetivo, porque a polémica vende mais do que as boas notícias. Não percebo o que está por detrás disto porque a cadência e a forma como as notícias têm saído indicia uma estratégia, sem levantar nenhuma teoria da conspiração. Se há irregularidades ou ilegalidades têm de haver consequências.

Vasco Damas. Créditos: Jorge Santiago

Segundo números do INE o turismo cresce no concelho de Abrantes, mas não é ainda visível como nas grandes cidades. O turismo faz a diferença?

É óbvio que sim! Não o podemos negligenciar. Todos os turistas que nos visitam são potenciais investidores no concelho e permitem ajudar a economia local a ganhar robustez. E tendo em conta as mais valias que temos para oferecer, em termos de centralidade, temos o rio Tejo com um potencial brutal apesar de todos os problemas, temos uma gastronomia que abrange três regiões – Ribatejo, Beiras e Alentejo – temos bons vinhos, temos bom azeite, temos o rio Zêzere. É uma oportunidade grande para aumentar as receitas do concelho.

Tem como exemplo cidades do País ou do Mundo que gostasse de ver replicado em Abrantes?

Temos de ser honestos e perceber que os concelhos do interior acabam por estar parcialmente reféns das políticas nacionais e quando uma nova ministra da Coesão Territorial nos alerta que temos de começar a saber gerir o declínio, isso tem de nos deixar com um pé atrás. Mas como diz um presidente de Câmara de quem sou amigo e com o qual me identifico, na grande parte das suas práticas, interioridade tem de ser sinónimo de qualidade, de oportunidade e de um conjunto de outras situações. E também pode passar por aí dentro de uma lógica de escala. Existe uma Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, mas isso não significa que, para ganhar escala, não possamos desenvolver parcerias com concelhos vizinhos, criando sinergias de uma forma objetiva. Em Abrantes, ao fim de semana olhamos para o Centro Histórico e está deserto, parece quase um concelho fantasma. Torres Novas e Tomar, com um perfil idêntico a Abrantes, em tempo útil conseguiram inverter a situação, com opções estratégicas, têm hoje uma fruição e uma vida nomeadamente noturna que nada tem a ver com o deserto a que Abrantes está votada.

Qual o momento mais marcante da sua vida?

Claramente quando fui pai. Não posso fugir ao cliché! Fui pai duas vezes, pensei que a segunda fosse menos marcante que a primeira, mas enganei-me. São duas meninas e, se voltar a ser pai, gostaria que fosse a terceira menina.

Qual a máxima da sua vida?

Desde a crise, até porque fui trabalhar em 2008 para uma empresa que vendia materiais de construção e para a casa, num momento em que não era a prioridade dos portugueses, a minha máxima passou a ser “cada vez mais com menos temos de fazer acontecer”. Ou seja, independentemente alguns desígnios que possam influenciar as decisões, somos nós que fazemos acontecer, as coisas boas e as coisas más. Avançarmos neste momento com este projeto, o ALTERNATIVAcom, é um misto de coragem e irresponsabilidade porque se alguns dos fatores se desequilibrasse provavelmente não estávamos aqui, por todas as dificuldades que vamos encontrar. Não temos qualquer estrutura, acreditamos só nas nossas capacidades, nas nossas ideias e no nosso projeto. A nossa convicção é que depois da apresentação da candidatura ’em Abrantes nada será como dantes’ e é com esse objetivo que vamos trabalhar. A nossa assinatura é ‘Missão possível’, aprendemos com o Nelson Mandela que ‘só é impossível até acontecer’.

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