“Em maio, a Festa da Lagartixa”, por António Matias Coelho

Procissão da Senhora da Luz a Tamazim | Foto: mediotejo.net

Tamazim é um sítio perto do Semideiro (Chamusca) onde há um casal há anos abandonado e uma vetusta capela recentemente recuperada. Chega-se a Tamazim por um caminho de terra que vai serpenteando pelo montado. É por ele que segue a procissão, num fim de semana de maio, levando a Santa da Luz a visitar a capela. Para além do povo que a segue, em oração e em festa, há milhares de lagartixas que vêm espreitar ao caminho, aflitas com o calor de maio ou curiosas por sentirem tanta gente rompendo a solidão da charneca. A Festa da Lagartixa é das mais genuínas e curiosas manifestações da cultura popular que se deparam aos nossos olhos.

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Tamazim é um lugar especial. Não é fácil dar com ele, em especial se não se conhecem bem os caminhos desta imensidão de sobreiros e eucaliptos. Mas o povo do Semideiro sabe perfeitamente onde fica e com regularidade lá vai, a meio da primavera, para uma jornada de festa, honrando a Senhora da Luz, confraternizando com as famílias e os amigos e gozando o tempo bom de maio, a sombra que já apetece e a irrequieta companhia das lagartixas.

Quem vier a Tamazim fora do dia da procissão fica por certo espantado por achar naquele sítio, onde ninguém parece ir, uma lindíssima capela, brilhando ao sol no branco da sua cal e alegrando-se no azul intenso da barra que tem em roda. E há de interrogar-se porque terão os homens erigido aqui, em tão isolado lugar, esta maravilha de ermida.

Capela de Tamazim (1641) | Foto: António Matias Coelho

Foram patrióticas razões que ditaram a sua construção. Diz-se que, nos tempos em que o Condestável andava dando guerra aos castelhanos, assim apoiando a causa do Mestre de Avis, terão os portugueses armado uma emboscada aos inimigos que, vindos de Santarém, se aprontavam para seguir para Castela com abundância de tesouros que tinham subtraído aos nossos. Foi Tamazim o campo de batalha. Aí se travaram os castelhanos, sendo mortos muitos deles e recuperadas as riquezas que levavam consigo.

A memória coletiva não esqueceu este feito ali cometido em 1384. Muitos anos mais tarde, correndo o século XVII, andámos outra vez à guerra com o poderoso vizinho, agora já Espanha chamado, conseguindo Portugal, depois de seis décadas de monarquia dualista, restaurar a sua independência no primeiro de dezembro de 1640. E então, para celebrar ambas as vitórias, a medieval e esta, resolveu o povo construir uma capela em memória e ação de graças. Em Tamazim, claro está. E logo no seguinte ano de 1641, como testemunha a data gravada no lintel da entrada.

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Quem chega a Tamazim encontra a capela fechada, não pode estar de outro jeito, e o que resta do antigo casal, pouco mais do que uma ruína, que noutro tempo aqui fixou, em permanência, um razoável número de pessoas. Por ali ainda há os restos da velha fonte, dedicada a Santo António, boa cópia de oliveiras de que hoje ninguém cuida e outros sinais da não distante presença humana que se ausentou para sempre. E umas grandes acácias que dão sombra, num fim de semana de maio, à Festa da Lagartixa.

Aqui vem a Senhora da Luz, trazida da Cascalheira, um casal às portas do Semideiro. De manhã se junta o povo, sendo mais mulheres do que homens, para organizar a procissão e cumprir o ritual. E depois ela aí vai, por caminhos pouco andados, direita a Tamazim. É maio, mês de Maria, da primeira aparição de Fátima, do rosário que a senhora mostrou aos pastorinhos e por isso se reza o terço enquanto avança a procissão. Por todo o lado o amarelo da giesta e da flor do tojo, há milhares de estevas que ponteiam de branco a imensidão do montado e uma infinidade de cores das corolas da charneca. O chão, pedregoso e pobre, feito do cascalho que dá nome ao casal de onde vimos, está coberto de vegetação rasteira que a primavera nos trouxe e por entre ela se agitam as lagartixas, atravessando o caminho, às vezes parando um instante, olhando a um lado e ao outro, engolindo em seco e seguindo a sua vida enquanto passa a procissão.

Senhora da Luz frente à capela | Foto: mediotejo.net

Para além do lado religioso, que inclui missa na capela e a exposição da Senhora – a Santa da Luz lhe chama o povo –, a festa de Tamazim tem comes e bebes porque o ser humano é a um tempo alma e corpo e nesta terrena vida nenhum sentido faz o conforto de uma sem o aconchego do outro. Há por isso que cuidar dela e tratar dele. Tempos houve em que se trazia de casa o farnel e por aqui se ficava pela tarde adiante, comendo e bebendo, conversando, convivendo, descansando o corpo depois de se ter tranquilizado a alma. Mais recentemente passou a haver uma comissão que prepara a comida, uns frangos assados, uns petiscos, uma pinga e dessa forma escusa o povo de vir carregado de casa e se junta algum dinheiro que tem muito onde se aplicar em melhorias de interesse geral.

Pela tardinha volta a Senhora à Cascalheira, fazendo caminho inverso. Para trás ficaram Tamazim e a sua secular capela que ali esperarão sozinhos a próxima festa, quando for maio outra vez, ou alguém que decida lá ir de propósito para apreciar o encanto daquele sítio.

Muitos não saberão que ali já não é concelho da Chamusca, mas terra da vizinha freguesia da Bemposta. Vizinha é um modo de dizer, porque bem longe é a sua sede e quase não há caminho para lá se chegar. Mas há um limite desenhado nos mapas que diz que ali já é território de Abrantes. À gente do Semideiro isso pouco importa porque a Senhora é sua e a capela também. A fé e os afetos não conhecem estremas. Nem as lagartixas que livremente se deslocam pela charneca[1].

[1] Este texto, no qual se introduziram agora muito ligeiras alterações, foi originalmente publicado no livro do autor Os Abrigos da Memória, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012, p. 105-108.

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