“Vende-se fiado”, por Berta Silva Lopes

Taberna do Zé Maia, Queixoperra, Mação | Foto: Berta Silva Lopes

Tabernas, lojas e cafés conheceu a aldeia vários. A taberna do Zé Maia foi a última a fechar, sucumbiu de velhice, tédio e solidão, num último suspiro sem exigências modernas de requintes e asseio.

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Ficaram os bancos corridos e mochos sem ninguém para se sentar neles, o balcão de mármore sem cascas de amendoim nem ‘copos de três’, enferrujaram as ferragens e ferrolhos dos armários, desbotaram os autocolantes da cerveja Clok e dos sumos Frisumo e Capri-sone, nasceram teias de aranha junto ao vão.

Para entrar é preciso dar um jeito à porta, empenada, cansada, triste, a ranger de tão pouca serventia. As paredes salitradas e a janela partida, parcialmente tapada com um pedaço de cartão, confirmam o abandono.

Já ninguém sobe ou desce a aldeia para ir à taberna ou à loja, Zé Maia e Benvinda, amor de verdade, de carne e osso, taberneiro e mulher sobre o mesmo sobrado, debaixo do mesmo telhado, paredes-meias, ele servindo bagaços, vinho, tabaco, ela aviando mercearias várias na divisão ao lado.

Açúcar, farinha, leite, bacalhau, detergentes, sabão em barra, sabonetes, lâminas para aparar a barba, a loja é pequena mas tem de tudo, bens essenciais, claro está, que o dinheiro das jornas não é para estafar em quinquilharias.

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Quando a compra é a granel segue o produto embrulhado no famoso papel manteigueiro, apontada que está a despesa. Aqui vende-se fiado, benesse das aldeias pequenas em que todos se conhecem, amparam misérias e desgraças.

Se é preciso, o casal partilha a gaveta dos trocos e em caso de urgência um e outro trocam de lugar, mas ambos sabem onde pertencem: ele à taberna, ela à loja. Ninguém discute assuntos relacionados com igualdade de género, empowerment feminino, discriminação sexista ou coisas que tais. Só Fátima, futebol e fado, por enquanto.

Cumpriram os dois o seu papel, tantas vezes recordado por gerações anteriores à minha, sempre com nostalgia e afeto. Se o dia em que uma criança ia, sozinha, aviar um recado à loja da ti Benvinda representava um marco no seu crescimento, já o dia em que se entrava na taberna do Zé Maia com meia-dúzia de tostões no bolso, ganhos por mérito próprio, significava para muitos uma espécie de iniciação na vida adulta.

A loja resistiu à morte da taberna, já então prenúncio de outros falecimentos, a televisão Grundig e a balança AP sobreviveram a ambas, solitárias e em silêncio, e as memórias de toda uma aldeia sobreviverão a tudo isto, acredito eu, feitas que são de boa cepa.

Há uma latada antiga junto à casa do casal, videiras que se renovam a cada ano, florescem e dão belos cachos de uvas. Não sei se alguma vez as uvas ali vindimadas viraram vinho nas pipas do Zé Maia, mas sei que enquanto naquela aldeia alguém se lembrar do velho taberneiro haverá brindes que evocam o seu nome.

As memórias de uma aldeia têm raízes profundas e rijas como as das videiras, são como os vinhos das melhores castas, o tempo apura-as. Quanto mais velhas, melhores, não azedam nunca. Se não acredita, é apostar. Quem perder paga a rodada.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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