“E se Camões voltasse a Constância?”, por António Matias Coelho

Escultura de Camões, em Constância Foto: António Matias Coelho

Voltasse Camões a Constância e haveria de chegar de barco, subindo o Tejo, como se fazia no seu tempo. Sendo embora homem aberto e muito dado à aventura, não se atreveria o poeta a experimentar essa extraordinária invenção, surgida três séculos depois da sua passagem por Punhete, que pega umas nas noutras uma fila de carruagens, rolando sobre um caminho de ferro. E muito menos aquelas máquinas que voam rente à imensa e larguíssima estrada negra, capazes de cruzar toda a largura do Zêzere em menos de uma avé-maria. De barco viria, pois, de barco.

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Aportaria por certo ao Zêzere, rio de tantos encantos que tantas vezes cantou. Estranhamente sereno o acharia, tão diferente do caudaloso rio onde amiúde poisava o olhar, e talvez suspeitasse que algum adamastor lhe tivesse saltado ao caminho, barrando-lhe o fulgor da corrente.

Desembarcado no areal e virando-se para a vila, haveria de subir a escadaria para dar de frente consigo mesmo, Camões, ele próprio, ali sentado, descalço, um dos pés sobre um calhau tirado ao rio. E ficaria por certo feliz: via-se jovem, vigoroso, na força da vida, fitando com ambos os olhos e sem pala em qualquer deles, o Zêzere lá adiante.

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Ali ao lado, de portão aberto, um Jardim-Horto com o seu nome pôr-lhe-ia diante desses olhos a maravilha de uma imensidão de plantas, das daqui e das de longe, da oliveira à pimenta, da rosa à cânfora e à árvore da canela, que cantou na sua obra, fosse lírica ou epopeia. Percorrendo o jardim como quem percorre o mundo, de Lisboa a Macau, com retemperadora paragem, à vinda, na Ilha dos Amores, Camões não resistiria a alinhar umas quantas rimas em louvor de quem se terá lembrado de criar ali, naquele chão da foz do Zêzere, em tão pequeno povoado, este monumento vivo, de plantas feito, em homenagem a um poeta, é certo, mas, através dele, à universalidade da nossa língua e da nossa cultura e às obras valerosas da nossa gente. Profundo conhecedor da ciência do seu tempo e da forma como funcionava a grande máquina do mundo, haveria Camões de se alegrar com a vista dos sete céus no empedrado do planetário ao ar livre e com a enorme esfera que ponteia o espaço ao fundo do jardim. E que maravilha, diria, aquele Pavilhão de Macau – mesmo precisando, é bom de ver, de urgente (e dispendioso) arranjo –, a lembrar-lhe o oriente mais oriental onde chegou o seu andarilhar pelo mundo! Ou a forma como os artistas de hoje evocam o paraíso na Terra que Vénus e Cupido proporcionaram aos marinheiros do Gama na viagem de regresso! Ou os versos do epitáfio inscritos, por expressa vontade do poeta, em pranchas de cortiça dependuradas na oliveira da entrada!

Se voltasse a Constância – a quem já Punhete chamar não podia –, haveria Camões de se maravilhar com o que em sua honra e em honra do mais altos valores que cantou e representa se construiu nesta terra. E apreciaria o esforço, que não é grande mas grandíssimo, que aqui se anda fazendo para cuidar deste bem, para renovar este Horto, para dar face nova ao seu encanto de sempre.

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E, se calhasse vir pelo 10 de Junho – que, por ser o dia em que se finou, o país justamente lhe dedica –, se encantaria por certo o épico com o regresso que a gente de Constância, um povo inteiro, dos meninos de bibe às mais maduras pessoas, constrói em cada ano, trazendo o século XVI de novo à vila, no seu jeito de vestir, de tocar, de dançar, mostrando e vendendo as flores e os frutos que o poeta deixou cantados pela sua diversificada e imorredoira obra. Que terra esta, pensaria, que tanto me quer, que de forma tão grandiloquente me evoca e me enaltece como sendo um dos seus e o mais ilustre de todos!

Voltasse Camões a Constância e seguisse ele pela Rua Grande a caminho da margem do Tejo, e muito admirado ficaria quando lhe contassem a história, tantas vezes já contada, que a tradição de tantos séculos trouxe a este século XXI em que andamos nós agora: o que diz o povo, porque sempre lho disseram, os pais, os avós, os bisavós, os bisavós deles e muitos outros antes ainda, na correnteza do tempo: que numa casa por ali, a jeito de ver as tágides, se demorou por algum tempo o poeta, sendo jovem e estando enamorado – das tágides, de Punhete e dos olhos de uma Belisa que habitava um palácio, da Torre chamado, tão perto que dali a enxergaria ele se ela assomasse à janela.

Casa-Memória de Camões vista do Tejo | Foto: António Matias Coelho

Não se perderia Camões, mesmo se sozinho andasse, porque pequena é a vila, mesmo bem maior sendo ela agora do que era quando o poeta aqui viveu, quase 500 anos passados, antes que vila ela fosse. E porque familiar lhe seria Tem-Te-Bem – não as escadinhas, que não as havia no seu tempo, mas o nome daquela tão inclinada ladeira que então ligava o caminho para a vila de Abrantes ao grande rio lá em baixo. A mesma ladeira vizinha da casa que, como o povo continua a dizer, o acolheu. Mas agora, que maravilha, o que ali está é um edifício moderno, com janelões imensos que lhe metem dentro a luz toda do sol e a beleza sem par do encontro dos rios. E pelas frestas do portão que dá para o Tejo e por onde às vezes o Tejo intruso lhe entra, haveria o épico de divisar o que resta das paredes dessa casa, ainda nova quando a habitou, que são agora memória de um tempo muito distante.

Alguém daria conta a Camões das vicissitudes da vida desta Casa, aqui escrita com letra grande por ser ela mesma grande e maior ainda o esforço de muitas décadas para a ver erguida sobre as ruínas da outra, mais pequena e mais antiga, que lhe serviu de morada Haveria a sua alma de poeta de ser sensível à corrente de paixões que há muito tempo está ligada a esta Casa. E aos sonhos que ela tem feito sonhar. Mas, em sabendo a história toda, haveria o épico, que é homem de sentimentos, de mergulhar na mais funda tristeza quando lhe dissessem que é aquela a Casa-Memória de Camões. Não por lhe não parecer digna de si que sempre com pouco se teve de contentar e na miséria morreu. Mas porque, sabendo agora que finalmente o seu país o eleva à tão honrosa condição de símbolo, como fez a Espanha com Cervantes e a Inglaterra com Shakespeare, ambos génios do seu tempo, não tem ainda Portugal uma Casa de Camões digna da grandeza e da universalidade da língua e da cultura portuguesas. Tendo-a… Aqui em Constância… Erguida, com hercúleo esforço e paciência de Jó, há uma dúzia de anos mas ainda vazia de conteúdos e à espera que, sendo fracas as forças que aqui se podem juntar, um poder maior a olhe com a atenção que ela deveria merecer e se decida pôr fim ao desperdício que, por míngua de meios, aqui se está praticando.

Se Camões voltasse a Constância, depois de tanto se alegrar à chegada, uma vez aqui, aos pés desta Casa-Memória, ficaria porventura sem vontade de subir Tem-Te-Bem, não vendo, por isso, a rua que há século e meio assumiu o seu nome para alegria de todos. E, pesaroso, talvez do porto da Cova se fizesse ao Tejo, para que, partindo por onde veio, se libertasse, na correnteza das águas, desta apagada e vil tristeza.

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