“E aquele mar, ainda é o mesmo?”, por Adelino Correia-Pires

Foto: Adelino Correia-Pires

Na Foz do Douro, no mar que engoliu o avô, as ondas permanecem num vaivém de espuma. No céu, as nuvens vagueiam salpicadas de pássaros low-cost, onde ontem voavam meia dúzia de companheiros, nefelibatas de Brandão.

Foi aí, nessa Foz adormecida e doirada, nesse mar “que se mistura ao oiro que o céu derrete”, que Raul Brandão assume que “o que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o n’esse tempo…”, nesses tempos livres de catraio.

Depois, Pascoaes, Dostoiévski, Columbano, as viagens, os amigos e, sempre, mas sempre, o mar. Passou então pela Escola do Exército onde “… ensinavam no meu tempo coisas inúteis que me deram mais trabalho a esquecer que a aprender…” (Memórias, Vol. II).

Entre a Foz do Douro, as suas idas a Lisboa e a Casa do Alto, o seu refúgio perto de Guimarães para onde se retirou e mergulhou nos ciclos da natureza, Raul Brandão, estudou, fez jornalismo e escreveu.

A leitura da sua obra, mais de século e meio após o seu nascimento, revela-se-nos surpreendente. Pelo mais pitoresco dos costumes como em “Os Pescadores” ou “Ilhas Desconhecidas”, pelos ensaios de ressurreição histórica com que nos delicia em “El-Rei Junot” ou a “A Conspiração de Gomes Freire”, ou ainda pela profundidade tão bem expressa em “Húmus”, livro maior da literatura portuguesa.

Mas mergulhar nas suas “Memórias”, será viajar naquelas fascinantes primeiras duas décadas do passado século, num novelo de páginas irrepetíveis. Cruzamo-nos com Columbano que “…todo elle mexe, todo elle é caricatura e imprevisto: os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode que se encrespa, desenham e imitam…”, com Eça, que toda a vida “usou bentinhos ao pescoço”, ou ainda com Junqueiro que versejava palitando os dentes, com palitos por ele próprio talhados da sua mesa de pinho, lá na casa de Barca d’Alva.

Folhear as “Memórias”, é imaginar o ranger do soalho da casa de Gomes Leal, poeta das luvas, que as não tirava para escrever, muitas por ali espalhadas, como que aconchegando-o da solidão em que vivia: “vivo só, a minha mãe morreu-me… vou aos templos, passo pelas bibliotecas e pelos livreiros e venho para casa escrever…”. Ou também de António Nobre, que apesar de “Só”, pedia uma Bíblia para, ao morrer, lhe almofadar a cabeça. Seria o reconforto divino.

E dos Reis, das Rainhas, dos encontros e desencontros. Dos charutos de Maria Pia. Dos descompassos do Paço. Do Soveral, do Pindella, do Burnay e de tantos outros. Do Regicídio e da República. Da maçonaria e carbonária. Do Sidónio e da Grande Guerra. Dos segredos e dos degredos.

Enfim, viajar pelas “Memórias” iluminados por Brandão, é assim como que entrar no barco dum pescador anónimo, sem comprimido para o enjoo. E, depois?

Depois, deixarmo-nos ir, seguir à deriva, acreditando no homem do leme e numa viagem a não perder.

Como aquele mar, que ainda é o mesmo…

 *Na semana em que passam 151 anos sobre o nascimento de Raul Brandão

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here