“Dizer não à solidão”, por José Rafael Nascimento

Foto: José Rafael Nascimento

Dentro de dias celebramos o Natal (Dies Natalis ou Natalis Domini), uma festa cristã com raízes na tradição pagã de adoração do deus Sol (Noio Hel) e da árvore como símbolo da vida, a sempiterna necessidade humana de estar em harmonia com a natureza. Com a contemplação do Mistério da Encarnação do Filho de Deus, o nascimento de Jesus, celebra-se a vivência familiar e comunitária, representadas pelo presépio e as figuras que o compõem. Não existe, pois, verdadeiro Natal em solidão, ou seja, o Natal exige a presença e o envolvimento do meio social e natural a que todo o ser humano pertence ou, para seu equilíbrio vital e bem-estar, deve pertencer. Este é, pois, o tempo certo para falar da solidão e de como ela oprime o ser humano, chegando a roubar-lhe a vida. Como disse um dia o poeta francês Victor Hugo, “Todo o Inferno está na palavra Solidão”, mas o Diabo persiste em escondê-la e negá-la.

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Solidão não é o mesmo que isolamento, podendo estar-se acompanhado e, no entanto, sentir-se uma profunda solidão. Tal como se pode estar só, sem sentir solidão. Esta pode definir-se, então, como “um sentimento subjectivo e indesejado de falta ou perda de companhia, que acontece quando há uma incompatibilidade entre a quantidade e a qualidade de relações sociais que temos e aquelas que gostaríamos de ter” (Perlman e Peplau, 1981). É, portanto, uma condição não só física mas sobretudo psíquica, variando de pessoa para pessoa e ao longo da vida, podendo ter causas diversas: é mais reportado por jovens (16-24 anos) e idosos acima dos 65 anos, mulheres, viúvos/as, doentes e incapacitados, por quem vive só, cuidadores e aqueles que se relacionam pouco com vizinhos e familiares.

O fenómeno está longe de ser despiciendo, sendo mesmo considerado uma epidemia dos tempos modernos, mais nociva do que a obesidade ou o tabagismo (ver o videoclipe “Os perigos da solidão”). Só no Reino Unido, segundo dados governamentais, 9 milhões de cidadãos de diferentes estratos sociais (cerca de 13,5%) sentem algum grau significativo de solidão, 3,6 milhões de idosos têm a televisão como principal forma de companhia e 200 mil destes queixam-se de não ter uma conversa com um familiar ou amigo há mais de um mês. Entre os jovens institucionalizados, 43% sente solidão, subindo esta percentagem para 50% entre as pessoas portadoras de deficiência (mais de metade não trabalha) e para 80% entre os cuidadores de familiares próximos. A maioria dos médicos de família (76%) afirma atender diariamente 1 a 5 pacientes com problemas de solidão e, nas empresas, 42% dos trabalhadores reconhece não ter um só colega que possa considerar um amigo.

A solidão não pode continuar a ser escondida e negada.

Para além dos enormes custos pessoais, sobretudo em termos de depressão e fraca condição física, o impacto da solidão na economia é tremendo, afectando negativamente a produtividade do trabalho e a rentabilidade das empresas. Contudo, estima-se que cada euro investido no combate à solidão gere uma poupança de 1,26 euros para a sociedade, reduzindo-se por exemplo em cerca de um quarto os actos médicos de clínica geral. Com tão grandes impactos, que medidas está já a tomar o governo britânico para enfrentar o problema? Desde logo, nomeou um Ministro para a Solidão e aprovou uma Estratégia Governamental que envolve toda a sociedade desde os primeiros sinais de alerta, designadamente a administração central e local, as empresas, as escolas, as unidades de saúde e de polícia, os amigos, as famílias e os grupos comunitários e de voluntariado.

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Os médicos de família vão começar a efectuar “prescrição social”, orientando os seus pacientes para pontos de ajuda que podem incluir terapêuticas tão variadas como caminhadas, dança, workshops, voluntariado, apoio à procura de emprego ou a melhores condições de habitação. Os farmacêuticos, carteiros, assistentes sociais e funcionários dos centros de emprego, entre outros profissionais, são também envolvidos neste processo, alertando para sintomas ou riscos de solidão, designadamente aquando de “eventos súbitos de vida” como morte, nascimento ou saída de pessoas do seio familiar, doença, incapacidade ou reforma. A nível comunitário, é proporcionada uma maior oferta de transportes locais e são criados ou aproveitados mais espaços de convívio e colaboração (inclusive para imigrantes), como cafés, jardins, escolas e oficinas artísticas. As empresas são convidadas a criar espaços de conversa e a admitir mais pessoas portadoras de deficiência, as quais são também orientadas para acções de voluntariado. A população prisional é igualmente merecedora de maior atenção. A comunicação digital, embora potenciadora de solidão, é também utilizada para a combater, nomeadamente através da instalação de mais redes wi-fi e de treino na utilização de computadores, da Internet e das redes sociais.

A estratégia britânica de combate à solidão deve fazer-nos reflectir sobre a nossa própria realidade. | Foto: Zimio

Também em Portugal se entende que as comunidades locais devem ser protagonistas numa estratégia nacional para a prevenção e combate à solidão. Para o especialista português Adalberto Dias de Carvalho, coordenador do Observatório da Solidão do ISCET – Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo, “é nas freguesias e nos municípios onde tudo deve começar, porque é onde a sociedade civil está mais próxima e mais presente”. Em declarações ao Observador, defendeu que “o poder local tem de ser sensibilizado para a criação e funcionamento de espaços de convívio, de partilha, de comunidade; mas não basta construir infraestruturas, é preciso que os espaços proporcionem interacção social”.

A Câmara Municipal de Amares é um exemplo, entre muitos outros, de como as competências digitais estão a ser promovidas para proporcionar melhor qualidade de vida à população idosa, nomeadamente através da utilização básica do computador, da navegação na Internet e da utilização responsável do correio electrónico e das redes sociais. No município de Silves, os idosos dispõem de um serviço permanente de atendimento à distância, baseado num aparelho accionado em caso de necessidade (saúde, segurança, etc.). Em Águeda, o apoio aos idosos é assegurado pelo Banco Local de Voluntariado, no âmbito do projecto “SOS Solidão”, o qual, entre outras actividades, proporciona conversas, leituras, jogos, contactos, passeios, pequenas tarefas domiciliárias, etc. recomendando-se a adopção de hábitos e rituais. Em Barcelos, a autarquia promoveu um curso prático contra o desânimo, o ruído, o medo e a solidão, intitulado “Haja Ânimo”.

Há excelentes exemplos de combate à solidão entre os municípios portugueses | Fonte: Oeiras Marca o Ritmo

Outras experiências de génese municipal ou nacional têm sido bem-sucedidas, como é o caso do Turismo Sénior e das Universidades Seniores (ou da Terceira Idade). Também a adopção de animais de companhia se tem revelado uma boa resposta na prevenção e combate à solidão, qualquer que seja a idade. As rádios locais, por seu lado, sobretudo quando interagem com os ouvintes, cumprem neste domínio uma função social imprescindível, diferente (e até mais eficaz, em certo sentido) do que a realizada pela televisão, podendo também colaborar na identificação de casos críticos ou sinais de solidão. Note-se que a detecção precoce é essencial para que a solidão não se transforme num círculo vicioso, gerador de níveis mais corrosivos de solitude, sendo os períodos de celebração (como é o caso do Natal), pelas memórias que despertam, épocas especialmente emotivas e solitárias, para as quais é necessário estar mais atento.

À semelhança de outros municípios, Abrantes desenvolve uma actividade social importante mas, surpreendentemente, tanto o Diagnóstico Social como o Plano de Desenvolvimento Social não fazem uma única menção à palavra “solidão”, apesar do “Censos Sénior 2017” do comando distrital da GNR apontar Abrantes como o concelho do Médio Tejo (excluindo Sertã e Vila de Rei) com mais idosos a viver sozinhos ou isolados. Ainda assim, o problema é tratado de forma indirecta no âmbito da velhice e da deficiência, prometendo a autarquia avançar com o teste de uma aplicação informática destinada a erradicar a solidão a qual, além de propor actividades em grupo e de exterior para pessoas idosas, será usada para transmitir dados sobre o peso, oxigénio no sangue, tensão arterial e outros indicadores de saúde dos utilizadores. Também a sociedade civil se mobiliza e as colectividades lançam projectos de intervenção social. A Cres.Ser, por exemplo, tem em curso os programas Viver.Sénior, composto por 11 ateliês de animação em freguesias rurais e urbanas, Movi.Sénior, oferecendo aulas de hidroginástica semanais, e Cres.Ser das Tradições, valorizando o património e a identidade cultural através de cantares e ditados populares, convívios tradicionais e gastronomia local.

Se a problemática da solidão entre os idosos constitui uma prioridade, o fenómeno entre as crianças e jovens não é de menor urgência. Problemas de desestruturação familiar, ausência parental, crescimento precoce, bullying juvenil, relacionamento nas redes sociais, incompetência emocional e fraca resiliência, entre outros, contribuem para que as crianças sintam mais dificuldade em lidar com os desafios do crescimento, refugiando-se no isolamento e sofrendo em solidão. Como afirmou Jean Jacques Rousseau, “a infância tem as suas próprias formas de ver, pensar e sentir; não há nada mais insensato do que pretender substituí-las pelas nossas”. Do que as crianças precisam é de pais que lhes prestem mais atenção, que as abracem, que gritem menos e dialoguem mais, e que as deixem brincar umas com as outras. Em relação aos jovens, além dos problemas de aceitação e integração grupal, coloca-se também a necessidade de se sentirem compreendidos e apoiados na transição para a vida adulta.

A solidão entre as crianças e jovens merece tanta ou mais atenção do que a dada aos idosos | Foto: Sky News

A prevenção e combate à solidão é, pois, uma responsabilidade de todos, merecendo maior educação e consciencialização. Em Lisboa, a Associação Mais Proximidade, Melhor Vida organizou a exposição “Lisboa à Janela” com o propósito de ilustrar “a realidade escondida atrás das janelas dos idosos”, fazendo com que as pessoas “levantem o olhar para os andares de topo dos prédios” da Baixa Pombalina. Em Ílhavo, o município convidou um conceituado fotógrafo local a “registar momentos e sentimentos de solidão no mais íntimo reduto da vida das pessoas mais velhas”, trabalho que integrou a exposição “Rostos da Solidão” e que visou consciencializar a sociedade para o problema da solidão. Mais a Norte, o técnico de apoio social e fotógrafo amador Ricardo Ramos está actualmente a documentar “o último sopro de Trás-os-Montes, pois daqui a uns dez ou vinte anos, a população destas aldeias [de Valpaços] ter-se-á finado”. O seu projecto visa “sensibilizar as pessoas para o flagelo da solidão na terceira idade e para o problema do despovoamento do interior do país”, um objectivo que é também partilhado por Adalberto Dias de Carvalho, para quem “se a sociedade civil se capacitar, se motivar, se ela própria for interveniente neste processo, aí sim a problemática da solidão vai ganhar o estatuto de problema político”.

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