“Dinossáurios Serra de Aire : de Teruel à Pedreira do Galinha”, por José Alho

IMPORTÂNCIA CIENTÍFICA DAS PEGADAS DE DINOSSÁURIOS DA SERRA DE AIRE : de Teruel à Pedreira do Galinha

Quando da descoberta de pegadas de dinossáurio na designada pedreira do Galinha, nos limites de Ourém e Torres Novas, em 04 de Julho de 1994, revelaram-se para o mundo um conjunto de 20 trilhos produzidos por dinossáurios que apresentavam um excelente estado de conservação, com marcas de pés e de mãos bem definidas, sendo que um desses trilhos, com 147 metros, é o mais longo que se conhece produzido por dinossáurios herbívoros e quadrúpedes de pescoço e cauda longos.

Vanda Santos, investigadora do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, tem estudado estas pistas da Pedreira do Galinha. Uma das pistas apresentam marcas de mãos com cinco dedos e uma grande garra no polegar orientada para o interior, e a sua forma alargada sugere que os metacarpos estavam dispostos em arco, enquanto as marcas dos pés evidenciam quatro garras triangulares, duas dirigidas para a frente e duas para o exterior, o que, associado à largura das pistas produzidas, sugere a existência de um saurópode primitivo com dedos nas mãos e nos pés e uma estrutura larga de anca.

pegadas
Pegadas de dinossáurio na designada pedreira do Galinha, nos limites de Ourém e Torres Novas

Os Paleontólogos da Fundação Dinópolis de Teruel-Espanha descobriram há alguns anos vestígios fósseis muito completos de um exemplar de dinossáurio que designaram por Turiasaurus riodevensis, um dos maiores animais que alguma vez habitou a Terra e que alcançava 30 a 37 metros de comprimento e 40 a 48 toneladas de peso. A sua reconstituição e o seu estudo revelou uma novidade para a ciência pois representa um grupo anteriormente não reconhecido de dinossáurios saurópodes europeus primitivos que evoluíram no período Jurássico.

Luís Alcalá, diretor da Fundação Dinópolis (Espanha), defende com evidências científicas, recolhidas por si e pela equipa de paleontólogos que dirige, que este foi o tipo de saurópode que há 175 milhões de anos terá produzido as conhecidas pegadas de dinossáurio da Pedreira do Galinha.

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Analisando a distribuição em vida destes animais, Luís Alcalá demonstra que em quatro gerações sucessivas os cerca de 1000 quilómetros que separam Ourém de Teruel poderiam ter sido percorridos por saurópodes como os do género Turiasaurus, e que estes dinossáurios encontrados em Teruel poderiam ser os responsáveis pelos registos de fósseis das pegadas na Serra de Aire.

Estudando as características das pegadas da Pedreira do Galinha e relacionando-as com outras ocorrências e com estruturas ósseas conhecidas, nomeadamente a do gigante de Teruel, sabe-se que o grupo de animais que produziram os trilhos da Pedreira do Galinha corresponde a um estádio de evolução, no Jurássico Médio, intermédio entre os saurópodes mais primitivos e os titanossáurios que se caracterizavam por não apresentarem dedos nas mãos.

Vanda Santos, investigadora do Museu Nacional de História Natural, no âmbito da investigação científica aí desenvolvida, veio defender que as características das pegadas estudadas nos trilhos mais longos, correspondem a um novo “ icnogénero” a quem atribuiu o nome de Polyonyx gomesi em homenagem a Jacinto Pedro Gomes, autor do primeiro estudo de pegadas de dinossáurios em Portugal.

Esta revelação veio enriquecer ainda mais o valioso património natural e científico da Pedreira do Galinha, enquanto património de reconhecido valor Internacional. É de salientar que estes registos continuam a ser investigados e que uma nova tese de doutoramento terá esta jazida como um elemento fundamental no material de trabalho.

O nosso território marca uma etapa na evolução global do nosso Planeta e é importante que todos tenhamos oportunidade de aprender os mistérios destas marcas através da sua divulgação alargada.

(agradeço os contributos científicos de Vanda Santos e Luis Alcalá que me permitiram esta crónica)

 

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José Manuel Pereira Alho Nasceu em 1961 em Ourém onde reside. Biólogo, desempenhou até janeiro de 2016 as funções de Adjunto da Presidente da Câmara Municipal de Abrantes. Foi nomeado a 22 de janeiro de 2016 como vogal do Conselho de Administração da Fundação INATEL. Preside à Assembleia Geral do Centro de Ciência Viva do Alviela. Exerceu cargos de Diretor do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, Coordenador da Reserva Natural do Paúl do Boquilobo, Coordenador do Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire, Diretor-Adjunto do Departamento de Gestão de Áreas Classificadas do Litoral de Lisboa e Oeste, Diretor Regional das Florestas de Lisboa e Vale do Tejo na Autoridade Florestal Nacional e Presidente do IPAMB – Instituto de Promoção Ambiental. Manteve atividade profissional como professor convidado na ESTG, no Instituto Politécnico de Leiria e no Instituto Politécnico de Tomar a par com a actividade de Formador. Membro da Ordem dos Biólogos onde desempenhou cargos na Direcção Nacional e no Conselho Profissional e Deontológico, também integra a Sociedade de Ética Ambiental. Participa com regularidade em Conferências e Palestras como orador convidado, tem sido membro de diversas comissões e grupos de trabalho de foro consultivo ou de acompanhamento na área governamental e tem mantido alguma actividade editorial na temática do Ambiente. Foi ativista e dirigente da Quercus tendo sido Presidente do Núcleo Regional da Estremadura e Ribatejo e Vice-Presidente da Direcção Nacional. Presidiu à Direção Nacional da Liga para a Protecção da Natureza. Foi membro da Comissão Regional de Turismo do Ribatejo e do Conselho de Administração da ADIRN. Desempenhou funções autárquicas como membro da Assembleia Municipal de Ourém, Vereador e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ourém, Presidente do Conselho de Administração da Ambiourem, Centro de Negócios de Ourém e Ouremviva. É cronista regular no jornal digital mediotejo.net.

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