“Da calçada ao lixo…no Entroncamento”, por Carlos Alves

A rua do Lucas está sempre bem composta de bancadas improvisadas, onde a luz crepuscular do sol espreita à janela, onde os movimentos nos dão a vida que faz florescer a imaginação. Inquietude, arrogância que nos impede de ser felizes. Sim é isto que penso da confusão de ruídos indistintos que nos atingem por todos os lados e nos ensurdecem. A minha rua está um caos! Um vaivém de gente nas pedras da calçada que mais fazem lembrar um arraial. Ali tão perto os ruídos de comboios que mais parecem fumos brancos que condensam qualquer tentativa de expressão literária.

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Nem tudo é mau, por vezes passam senhoras bonitas com sorrisos suaves mas convictos de quem galanteia os seus dotes. Muitas crianças brincam de mão dada, vestidas de marinheiros, observando a selva da calçada e o comportamento daqueles que a sobrevoam. Por momentos ouvem-se os carros a buzinar, os velhos a passear, mais parecendo minhocas ao pôr-do-sol, desejosas de partirem para o descanso ao som de pianos a tocar canções de embalar. Do outro lado pilhas de frutas e legumes de cores brilhantes, bancas de flores e talhos silenciosos.

O silêncio impõe-se, seja de ouro ou prata. A única coisa que amortece a alma e o espírito é um café na tasca da senhora de meia-idade.

E o lixo que muita gente fala, é um direito, mas, não nos podemos esquecer dos deveres de cada um. A vida humana é mesmo assim, cada um de nós tem de contribuir com uma porção de amor e dedicação, essa é a nossa viagem, sem cobiça, olhando o verde das folhas entrançadas, desejando que a natureza readquira os seus direitos. A preocupação com os rumos e o destino da polis é uma preocupação de todos.

Não sei se estamos cansados de ouvir falar do lixo na cidade. O que tenho ouvido por diversas vezes, especialmente naquelas datas mais simbólicas, são vários oradores a citar poetas famosos, pessoas da vida literária. Pessoalmente acho um bom ensaio para as nossas vivências, todas essas referências. Por isso não posso deixar de apresentar uma ideia sobre a questão do lixo.

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Como sabemos foi Camões através da sua multifária poesia, quem sistematizou e deu corpo de idioma literário à língua portuguesa e não um desses carrancudos gramáticos. É natural que os poetas caminhem à frente, experimentem, inventem. Sabemos que os lixos urbanos são aglomerados de fragmentos e o fragmento liga sempre de alguma forma a outro fragmento quando a arte intervém. Convidem o artista que lhes dá uma funcionalização criativa.

Fica aqui o apelo aos nossos timoneiros políticos e tribunos moralizadores, para que façam brotar o apetite e a curiosidade convidando à viagem para dentro e fora de nós, aproximando o artista do Homem do povo.

Há dias e noites, assim, que não acabam no Entroncamento. Façamos cada um o nosso dever.

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