“Crónica vinda do futuro”, por João Morgado

Foto: DR

Estamos numa tarde quente de domingo em outubro de 2051. Desde 2025 que o verão se tem prolongado até outubro e este ano há a previsão de novembro vir a ser o mês mais quente do ano. Este fim de semana seria o melhor para os portugueses irem de férias, muito sol, a água no sul de Espanha está bem quente e têm direito à segunda feira de borla pois domingo é dia de eleições para a Assembleia da República.

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Maioria dos portugueses, cerca de noventa e cinco por cento não se interessou pela política nem pelo futuro do país e agora já não vota. Os impostos, as taxas e taxinhas são tão altas que a maior parte de nós já nem vem ao país para visitar os nossos país e avós que não conseguem uma forma para fugir de cá e muito menos para votar naqueles bandidos. Os que ficaram entregaram-lhes tudo o que tinham. É verdade, afinal os políticos sempre foram bandidos e agora revelaram aquilo que valem.

Tudo aconteceu há quatro anos atrás. Nessa altura ninguém se dirigiu às urnas para votar. Apenas um partido se apresentou a eleições e ganhou. Desde 1974 que se apresentam e foram o único partido que aguentou estes 77 anos de democracia portuguesa. Pela primeira vez elegeram um deputado em 2039 e desde então que não arredaram da Assembleia da República. Defendem a verdadeira revolução do povo e o povo nunca os levou a sério, agora que lá chegaram já fizeram metade do povo desaparecer.

As praias do Algarve estão desertas, nenhum português consegue lá chegar sem gastar 100€ em portagens. 100€ equivale a quatro meses de trabalho árduo. O regime acabou com o divertimento. O Alentejo está deserto, foi transformado em celeiro do país como imaginou Salazar. Eles que muito o criticavam afinal em muito se assemelham ao ditador que tivemos antes da democracia que já desapareceu. Deixamos de participar e permitimos que apenas alguns decidissem por todos.

Os que ficaram em Portugal foram transferidos para cidades do norte. Cada cidade não pode ter mais de 30.000 habitantes. Quando morre um, rapidamente há outro para o substituir. Portugal não é mais parte da União Europeia e os únicos países com quem tem relações económicas é a China e Cuba. Eles mandam para cá os produtos transformados e nós exportamos carne de porco, cereais e cortiça. O azeite português não chega para satisfazer o consumo interno e temos que pedir a Espanha que venda algum do seu a preço de ouro. Não podemos usar a banha do porco pois essa é para os Chineses.

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Portugal virou um inferno e agora já vamos tarde de mais para dar a volta a esta situação. Tudo se teria evitado se tivéssemos dado mais atenção aos sinais. Se tivéssemos ido votar sempre que houve eleições. Os políticos tentaram de tudo. Ofereceram o dia seguinte das eleições a todos os portugueses, ofereceram petiscos nas assembleias de voto, alargaram as votações para sábado também e mesmo assim nós não demos o nosso contributo.

A culpa de o país estar assim é nossa. Não pensamos nos outros que aí vinham e agora nem nós cá podemos entrar sem uma autorização e boa vontade dos líderes deste regime. Os nossos passaportes são carimbados à fronteira, parece que não fazemos mais parte deste país. Somos vistos como forasteiros e traidores, não pertencemos mais aqui.

Quero levar os meus pais e o resto dos meus familiares comigo para a Suécia, mas é impossível, ninguém sai sem ter mais uma nacionalidade de outro país.  Eu venho e tenho que prometer e jurar fidelidade ao regime e que não relato lá fora o que se passa cá dentro, mas não consigo compactuar com isto, o meu país está entregue à pobreza e à tirania. Nunca pensei que voltássemos a passar por isto.

*Carta para o passado de um português do futuro

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