“Crónica troncamaronca”, por Berta Silva Lopes

Foto: dietadeporte, Flickr

Quinze dias de férias, todos passados no campo, grande parte do tempo a banhos nas praias fluviais da zona do Pinhal Interior, outro tanto em sestas demoradas, passeios ao luar, muita preguiça, vidas em dia. O calendário diz que terminaram as férias, o coração quer ficar, é melhor não lhe passar cartão.

Regressamos à cidade a contragosto, na bagageira do carro apenas os sacos da roupa e uma caixa com figos ‘pingo de mel’ e ‘abêberos’. Protelámos tudo até ao serão, beijos e abraços na despedida, as maganas das saudades à espreita e ainda nem sequer arrancámos.

As cachopas ainda ficam, respondo à minha avó, preocupada com o abalar tarde para Lisboa. Digo-lhe para não se preocupar nem andar sempre alvoreada com a vida de tanta família. Cinco filhos, 13 netos e já dez bisnetos. 81 anos de vida e há mais de 60 a ralar-se com tanta criatura, já devia ter aprendido que não vale a pena.

A minha avó fala à moda da minha aldeia e eu gosto de falar assim com ela. O meu marido diz que mudo o vocabulário e a pronúncia mal chego a Queixoperra. Talvez seja verdade. Ele faz o mesmo na terra dele, o melhor é não caçoar.

Nestas férias até tanganho disse. Tanganho! Tanganho é um galho seco. Lápis de pau é um lápis de carvão, normalíssimo, mas na minha aldeia todos dizem lápis de pau. E porta-minas também, em vez de lapiseira.

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Os mais velhos ainda dizem artelhos e todos sabemos que se referem aos tornozelos, preferem baraço a cordel, gostam de pão com conduto em vez de pão seco, guardam o azeite na almontolia e aventam as caliqueiras para o sobradinho. Na cozinha, as panelas têm testos, há malgas de vários tamanhos e a água bebe-se por um púcaro.

No tempo deles, que é o Outono, comem-se tortulhos assados na brasa e na estação seguinte não são raras as tempestades de escardoça. Os cagarolas escondem-se dentro de casa e os agricultores correm para as hortas para dar fé dos estragos. E muitas vezes saem de lá descorçoados tal foi a malha de granizo.

Nos galinheiros põe-se caruma acartada do pinhal e nas furdas os bácoros dormem sobre cama de mato, que os porcos não são achadiços. Nas hortas, cômaros e ribeiras não é raro avistar calhandras e debaixo das árvores (alheias) há abelhudos e lampareiros.

No Verão a roupa fica a corar, escarrapachada ao sol, antes de mais uma esfregadela à mão. Só os burrancanas andam mal-enjorcados, novos e velhos andam bem arreados. No Inverno, não vão as orelhas arreganhar e ficar a pessoa engadanhada, todos usam garruço. Trunços é coisa de homens mas portinhola todas as calças têm.

Quem vê mal usa cangalhas e até pode andar desenculatrado, mas só um bocadinho, que logo alguém o avisa para se enjorcar melhor, nada d’escabeches. Também há quem goste de alanzoar, claro, mas a esses poucos dão paleio.

É por isso que também não ligo aos comentários do meu marido. Na terra dele dizem m’guelho e ósdespois. Cá para mim, todas estas palavras deveriam ser reunidas e esclarecidas. Para memória futura, para que quem vier a seguir saiba como se falava nesta zona da Beira Baixa antigamente. Esta crónica reúne apenas algumas palavras mas sei de uma chusma delas por inventariar.

No próximo fim de semana regresso à aldeia para ir buscar as cachopas. Acabaram-se as sestas prolongadas, os banhos de mangueira, os passeios depois do jantar. As fedelhas ainda não querem regressar, e eu percebo-as bem. Não há dias melhores do que os que passam em casa dos avós.

Eu e o pai já voltámos ao trabalho, acabou-se a moinice. De férias já tivemos o nosso quinhão, por agora. Custa mas tem de ser, não há cá jeites para depressões, até porque os figos ainda não levaram sumiço das figueiras e no próximo domingo regresso à cidade com mais caixas cheias deles. Haja saúde e trambelho.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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