Crónica de Viagem (5) | De Ourém aos EUA: O valor da profissão de Bombeiro

Fanfarra deixou o hotel em Newark na manhã de 10 de junho, tendo ainda um extenso dia pela frente, com avião perto da meia-noite Foto: mediotejo.net

Morreram 343 bombeiros nos ataques às Torres Gémeas, em Nova Iorque, a 11 de setembro de 2001. Ser bombeiro nos EUA é uma profissão com várias regalias, uma remuneração acima da média e a manutenção das corporações consome, a par com a polícia, boa parte dos orçamentos das Câmaras Municipais. No último dia da visita da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ourém à comunidade portuguesa de Newark, EUA, segunda-feira, 10 de junho, a comitiva de meia centena de pessoas foi visitar o antigo “Ground Zero”, atual “Memorial 9/11”. Um momento para refletir sobre o que implica ser bombeiro nos momentos em que todo o sistema de proteção falha. 

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Rostos. Centenas deles. Enfileirados numa sala escura, onde não se podem tirar fotografias, ouvindo-se o som em fundo dos testemunhos de familiares, que narram episódios biográficos dos que desapareceram nos atentados de 11 de setembro. Aqui e ali, uma caixa com lenços de papel encontra-se discretamente posicionada. Facilmente se encontram pessoas a chorar. Outras não aguentam e saem do museu.

Passaram 18 anos mas parece que foi ontem. Ao longo da viagem da Fanfarra aos EUA, em conversa com os emigrantes portugueses, esta terá sido das observações mais ouvidas: “tudo mudou depois do 11 de setembro, sobretudo para quem procurava emigrar para o país”.

Para quem ainda tem memória, o “Memorial 9/11” é mórbido, pesado, enganadoramente semelhante ao Louvre ou a outro grande museu europeu. Há quem lance umas piadas  –  “o museu do ferro velho” – mas estas desaparecem assim que surgem as salas das vítimas.

Mesmo que aqueles rostos pouco nos digam e sigamos em frente com bastante facilidade, reconhecemos-nos a nós mesmos nas imagens dos aviões a bater nas torres, nas fotografias de desespero que se tornaram emblemáticas, nas capas de jornais que se fizeram míticas, nas fotografias do fumo, da poeira, da nuvem de destroços que engoliu Nova Iorque.

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No Memorial do 9/11 os bombeiros puderam observar vários carros de socorro atingidos pela queda das Torres Gémeas Foto: mediotejo.net

Não é fácil ter memória e entrar no “Memorial do 9/11”. Para os bombeiros a visita tem uma dimensão ainda mais particular, pois foi um evento que afetou também os profissionais de socorro, apanhados pela queda inesperada das torres.

Pelos corredores do museu, carros destruídos, fardas, capacetes, acompanham a extensa disposição de objetos que narram os eventos daquele dia, as vítimas, os dias seguintes, a caça aos terroristas, quem eles eram e o percurso que fizeram, a história de Bin Laden e da Al-Qaeda, a limpeza do Ground Zero e a reconstrução do espaço, com o novo Memorial e um novo edifício adjacente, ao que nos dizem ainda bastante vazio.

Mas a parte eventualmente mais interessante desta visita nem foi tanto o Memorial. O grupo teve hipótese de conhecer e conversar com Luís Mendes, o português natural de Lisboa responsável pela limpeza e reconstrução do “Ground Zero” e que é atualmente vice-presidente sénior do monumento.

“Foi um mundo de engenharia”, de uma logística impressionante, recordou, da própria limpeza inicial à reconstrução, que o emigrante luso pôde observar por dentro, com admitido orgulho pela sua parte no processo.

Narrou assim as bombeiros ourienses pequenos episódios, desde querelas internas com a polícia à burocracia envolvida, as reuniões com as famílias das vítimas e os restos de corpos que permanecem por identificar, assim como o perigo que representou a eminente queda do paredão que suporta as águas do rio Hudson.

No primeiro mês depois dos atentados, o quarteirão das Torres Gémeas ficou entregue à total responsabilidade dos bombeiros.

Luís Mendes, diretor da obra de limpeza e reconstrução do Ground Zero, falou aos bombeiros ourienses Foto: mediotejo.net

A passagem por Nova Iorque só não foi mais longa porque o mau tempo impediu a caminhada prevista pela cidade, até à zona de Wall Street. Regressados a Newark, houve ainda tempo para a comitiva ser recebida na Câmara Municipal pelo único português eleito para esta autarquia num cargo semelhante ao de presidente da junta, embora com mais competências.

Augusto Amador, eleito pelo bairro de Ironbound, explicou aos presentes o sistema de poder local norte-americano, bastante participado e com uma democracia muito mais direta que a portuguesa.

Dos 750 bombeiros que existem em Newark, adiantou, 150 são portugueses. A profissão é bem paga, atingindo os 100 mil dólares por ano, com diversas regalias e consumindo, a par da polícia, 2/3 do orçamento do município. Um universo bem diferente do português, assumindo os bombeiros uma importância determinante na vivência comunitária.

Comitiva foi recebida pelo município de Newark, representado pelo autarca português Augusto Amador Foto: mediotejo.net

De volta ao clube português de Elizabeth, a despedida trouxe lágrimas aos olhos de todos. Fizeram-se novas amizades e reforçaram-se conhecimentos antigos, com vários encontros registados entre familiares. “Sentimos verdadeiramente aquilo que nos proporcionaram”, comentou o presidente da Assembleia Municipal de Ourém, João Moura, “para muitos de nós esta foi uma viagem única. Era impossível que tivesse corrido melhor”.

Fechamos assim as páginas desta crónica de viagem. O objetivo – agradecer à comunidade portuguesa, em particular a ouriense, pelo apoio dado aos seus bombeiros – foi alcançado. Dos convívios aos momentos oficiais, a Fanfarra foi recebida sempre com grande entusiasmo e uma certa melancolia pelos que decidiram procurar a sorte além fronteiras.

Nos EUA há muito orgulho pelo que se alcançou, mas também saudade pelo que se deixou para trás. Ao som dos tambores e das trombetas dos bombeiros, lembrou-se assim o pulsar nacional, tão distante do acelerado mundo americano.

Porque estas festas nos clubes portugueses, as paradas e os momentos simbólicos de hastear de bandeiras ou troca de presentes em Câmaras Municipais traduzem uma realidade bem mais vasta: a da diáspora portuguesa e o sentimento de pertença comum a uma realidade, uma tradição ou uma herança. E esta é uma força nacional nem sempre presente ou em consciência dos que ficam pela terra natal.

Cruzar realidades é cruzar histórias e emoções e continuar a contribuir para um espírito global de empreendedorismo que os portugueses tanto gostam de realçar na sua História. Desta vez competiu aos Bombeiros irem dar esse testemunho.

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