Crónica de Viagem (3)| De Ourém aos EUA: A importância de se reconhecer português (c/vídeo)

À saída de Times Square, o grupo encontrou por acaso o Agente Ramos, lusodescendente de 2ª geração que tirou uma fotografia com a Fanfarra e conversou um pouco sobre a vida de polícia na cidade de Nova Iorque Foto: mediotejo.net

O português nos EUA não gosta de se identificar como “latino” ou “hispânico”, designação normalmente assumida pelas populações de origem castelhana da América do Sul. Nos Census, por tal, tende a nada escrever no espaço onde o questionam sobre a etnia/raça, limitando-se a colocar “caucasiano”. Isto cria um problema. Estão registados 1,4 milhões de portugueses em todo o país, mas os representantes das comunidades portugueses acreditam que sejam muitos mais, sobretudo se se adicionarem os lusodescendentes de 3ª e 4ª geração.

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Ter número implica mais dinheiro do Estado central para apoiar projetos relativos à comunidade, como escolas portuguesas ou no apoio à terceira idade. Não se reconhecer português canaliza os impostos, pagos por todos, para outras comunidades e uma ausência de determinadas respostas que poderiam ser mais bem estruturadas dentro da comunidade portuguesa nos EUA.

No terceiro dia da viagem de agradecimento da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ourém à comunidade lusodescendente e ouriense emigrada nos EUA, no sábado, 8 de junho, começam-se a abordar questões de natureza mais política. Não tanto se calhar para os Bombeiros, que entram oficialmente no programa de atuações, mas para quem tem por missão acompanhá-los. O grupo deixa a pitoresca zona residencial de Newark/Elizabeth, no Estado de Nova Jérsia, e atravessa a ponte George Washington para o outro lado do rio Hudson, pisando finalmente o Estado de Nova Iorque e os arredores de Manhattan.

Fanfarra de Ourém abriu as celebrações portuguesas no City Hall de Yonkers, tornando a atuar ao longo da tarde Foto: mediotejo.net

Mas, neste dia, o destino inicial é ligeiramente mais a norte do Estado, no município de Yonkers, condado de Westchester, a cerca de uma hora de distância de Newark. A localidade celebra no sábado o Dia de Portugal e das Comunidades (as diferentes comunidades escolhem dias diferentes de celebração para não coincidirem, havendo arraiais populares nos respetivos clubes portugueses ou grandes paradas celebrativas) e a Fanfarra atua pela primeira vez frente ao City Hall (Câmara Municipal) de Yonkers, na presença de várias personalidades locais, o próprio mayor (presidente da Câmara) de Yonkers e algumas dezenas de emigrantes portugueses.

Momento emblemático da manhã: o hastear da bandeira nacional portuguesa, seguindo-se o hino norte-americano e o hino português.

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Hastear da bandeira portuguesa em Yonkers, Nova Iorque, com atuação da Fanfarra dos Bombeiros de Ourém

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 8 de junho de 2019

É aqui que nos deparamos com o problema do registo da origem que afeta a comunidade portuguesa nos EUA, num alerta deixado por Isabelle Coelho-Marques, presidente do New York Portuguese American Leadership Conference, durante as celebrações, distribuindo também panfletos pelos presentes.

“Não basta dizer que há muitos portugueses, é preciso ter dados”, frisaria na sua intervenção, salientando a importância da comunidade ter uma representação adequada a nível legal.

Um pouco mais tarde, no arraial que se segue tarde e noite dentro no Portuguese American Community Center (Clube Português de Yonkers), pedimos à responsável mais detalhes sobre o aparente problema. Não obstante o renascimento de um certo “orgulho português” entre os emigrantes portugueses e lusodescendentes nos últimos anos, como a comunidade não se identifica como “latina” ou “hispânica” (num questionário realizado há alguns anos cerca de 83% destes portugueses afirmaram não se classificar dentro destas categorias – dados PALCUS) acaba por estar mal representada nos Census norte-americanos.

“Só podemos trabalhar legalmente, a nível de advocacia, se soubermos quantos somos”, explica Isabelle Coelho – Marques, “há programas governamentais que podem ser usados mas que não estão a ser aproveitados porque no Census os portugueses dizem que são caucasianos e não pela origem, que é portuguesa”.

Por um lado não se identificam com a América latina, por outro estão tão habituados a ser independentes, integrando-se relativamente bem na sociedade norte-americana, que a questão nem parece um problema. Mas é, afirma a responsável. Até há poucos anos, exemplifica, muitos portugueses regressavam a Portugal na reforma, mas esse regresso tende a perder-se com a instalação dos filhos nos EUA. Quem os vai apoiar?

A comunidade precisa de acesso a fundos, de que não está a usufruir, para garantir financiamento para certos programas sociais, como os que apoiam as escolas portuguesas. E este é dinheiro que é pago em impostos, mas que acaba a ser canalizado para outras comunidade por falta de dados objetivos da realidade.

Arraial celebrativo do dia de Portugal em Yonkers com a comunidade portuguesa Foto: mediotejo.net

Na burocracia, haver número é importante. No estado de Nova Iorque, por exemplo, existirão bem mais que os 50 mil portugueses registados, acredita a responsável, sobretudo se os lusodescendentes de 3ª e 4ª geração forem sensibilizados a registar a sua origem.

“A minha associação está a trabalhar na mobilização das comunidades portuguesas para se identificarem como portugueses” no próximo Census nacional, em 2020, integrando uma rede de associações portuguesas que está a trabalhar nesta matéria a nível de todos os EUA, a PALCUS.

“É muito um trabalho de base, tem que se andar a explicar” toda a situação, constata Isabelle, esforço esse que andou a empreender durante todo o sábado no Clube Português de Yonkers, falando pessoalmente com os emigrantes presentes.

Isabelle Coelho-Marques e um lusodescendente com família em Fátima e Porto de Mós, Joaquim Brita Foto: mediotejo.net

Mergulhados em entrevistas sobre a diáspora ouriense (que entretanto já se terá tornado uma reportagem sobre a diáspora regional), só tornamos a pensar no assunto já passada a meia-noite, em plena Times Square, Manhattan, cidade de Nova Iorque, quando encontramos por acaso o agente Ramos, um polícia que faz a vigilância no local e a quem se pediu um foto.

Ao arranhar um português já de 2ª geração emigrante, é uma felicidade tanto para este como para o grupo poder trocar ideias e tirar uma pitoresca fotografia frente ao New York Police Departement em plena Times Square.

“Isto hoje até está mais ou menos, em julho/agosto as pessoas caminham encostadas, tal a enchente”, comenta sobre a realidade desta praça mítica (mais pequena do que seria de supor) em plena Manhattan. O agente Ramos gosta bastante de por aqui fazer o ser serviço, uma vez que a criminalidade se resume a roubos relacionados com o turismo, como malas e carteiras. Noutras zonas da cidade, como o Bronx, vê por vezes coisas que não tão agradáveis e mais complicadas, constata.

Os bombeiros estão interessados num dispositivo que o agente trás ao peito. Instalado nos uniformes há cerca de um ano, explica, é basicamente um câmara de filmar. Tem vantagens, constata o agente Ramos, mas não resolve todos os problemas.

Os Bombeiros interessam-se por um dispositivo eletrónico que o agente Ramos traz ao peito e que se vem a verificar se uma câmara. A segurança em Nova Iorque é outro nível Foto: mediotejo.net

Despedimos-nos do agente Ramos com grande alegria mútua e a promessa de enviar a fotografia para que este possa mostrar aos pais, que são originários do norte de Portugal. Houve finalmente tempo de comprar lembranças para a família e ainda houve oportunidade de visitar o Hard Rock Café. Times Square fervilha, ao ritmo da cidade que nunca dorme e que aparenta ter mais tráfego à noite que durante o dia. Aqui voltaremos na segunda-feira, dia 10, para ver o memorial do 11 de setembro.

O que aprendemos no sábado, entre celebrações oficiais, trocas de lembranças, fotografias, uma apresentação aos Bombeiros sobre o esforço do CDOS – Comando Distrital de Operações de Socorro de Santarém no apoio às vítimas de Moçambique na sequência do furacão IDAI e muitas entrevistas no Clube Português de Yonkers, é que a portugalidade importa.

Para os emigrantes é significativo o encontro de parentes e vizinhos além fronteiras; para os representantes das comunidades significa apoios financeiros para atividades que possam beneficiar os seus. Como nos narrou um lusodescendente de 2ª geração, “ser português é um modo de vida”, um pilar identificativo que une as pessoas e criar redes de solidariedade. Nem sempre todos se identificam com elas, mas a sua importância é fulcral para quem chega a um país distante, afastado completamente das suas raízes, e precisa de ajuda.

Programa de domingo, 9 de junho:

Após a missa na Igreja de Nossa Senhora de Fátima de Elizabeth, a Fanfarra atua na grande parada da comunidade portuguesa de Newark, prevista para as 13h00. Há emissão prevista da SIC e uma promessa de se chegar ainda a tempo para ver o jogo da seleção nacional.

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