Crónica de Viagem (1) | De Ourém aos EUA: Encontramos-nos na “Champigny” americana

Pelas ruas de Elizabeth, no rescaldo das celebrações do Dia de Portugal, a bandeira portuguesa mistura-se com a americana Foto: mediotejo.net

Entre os dias 6 e 10 de junho, a jornalista do mediotejo.net Cláudia Gameiro vai acompanhar a Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ourém numa viagem aos Estados Unidos da América , que tem por objetivo celebrar os 40 anos de reativação do grupo e agradecer todo o apoio que a comunidade luso-descendente tem prestado à corporação ouriense.

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“Cheguei aqui, parecia Portugal. Casa sim, casa sim, era tudo português. Falava-se português na rua. Já não quis ir para Nova Iorque, fiquei mesmo em Newark…”

Umas horas depois da chegada, com a jornalista a tentar tornar rentável o primeiro dia de viagem – saída de Ourém às 05h30, saída de Lisboa às 10h30, viagem de oito horas, check in no hotel e jantar, finalmente, pelas 19h30 locais (meia-noite em Portugal), no Portuguese Instructive Social Club de Elizabeth – alguém lembraria, saboreando um bom frango assado com arroz e batata frita, que, há algumas décadas, se usava chamar à cidade de Newark, no Estado de Nova Jérsia, de “Champigny” americana. A referência diz respeito à zona de França para onde emigraram os primeiros portugueses depois da I Guerra Mundial, muitos da zona de Ourém, e que se tornou uma referência da emigração lusa, em particular pelos bairros de lata que ali se geraram.

Há um certo padrão em algumas histórias. Na região de Leiria/Ourém haveria um passador, associado a uma rede, que encaminhava jovens ambiciosos ou com dificuldades financeiras para o México e daí, sob variadas formas de transporte consoante a narrativa, entrava-se em território norte-americano. São episódios com 30/40 anos, situados sobretudo na década de 80, no tempo em que não havia muros a separar os dois países e a legalização era mais simples.

Curiosamente, nem sempre era o sonho americano que os levava a sair de casa. França foi, em alguns casos, a primeira tentativa, e só depois empreenderam a travessia do Atlântico.

Em Elizabeth há um clube português, uma escola portuguesa e até uma pequena quinta comunitária Foto: mediotejo.net

Separa Nova Jérsia e Nova Iorque o rio Hudson. Está prometido um passeio até à beira-rio, numa perspetiva que afirmam ser esplendorosa, sobretudo à noite, sob a Estátua da Liberdade e Manhattan. Prevista para o fim da tarde do primeiro dia, o passeio é transferido para a sexta-feira, dia 7, tal a exaustão da comitiva. Perto de meia centena de homens descontraem, quase 24 horas depois da partida, ao sabor de uma Super Bock e da gastronomia portuguesa, contando incidentes da viagem e reconhecendo vizinhança e parentesco nos que por cá vivem e entre os que por lá ficaram.

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Sucedendo-se entre si, quase sem nos apercebermos das limitações geográficas, percorremos as cidades de Newark, Elizabeth e Union, entre outras cujo nome não conseguimos registar. A região tem-se tornado o dormitório da cidade de Nova Iorque, explicam-nos, devido à lotação da capital financeira, o que tem provocado alguma inflação no imobiliário.

Primeiras impressões: é um país que gosta de bandeiras e onde as casas, todas feitas em madeira, parecem saídas de uma loja de bonecas. Pequenas mas com dois andares, um garagem e jardins aprimorados, não fosse Nova Jérsia “the garden state” (o Estado jardim).

Na semana passada, para não coincidir com as celebrações de outras localidades, festejou-se em Elizabeth o Dia de Portugal e das Comunidades, com um grande arraial preparado no Portuguese Instructive Social Club. O desfile, contam-nos, percorreu as ruas da localidade, colocando-se bandeiras portuguesas pelo circuito, com alguns grupos presentes provenientes de países da América Latina. O dia só não foi mais glorioso porque a chuva veio estragar a parte gastronómica, preparada a céu aberto para receber os convivas.

No Portuguese Instructive Social Club de Elizabeth ainda se notam os vestígios das festividades, com um carro alegórico discretamente estacionado, uma quermesse fechada, um placar a anunciar a venda de febras e um celeiro típico do norte de Portugal, algo perdido no meio do recinto, cuja origem e sentido não conseguimos perceber. Ali mesmo fica a Escola Portuguesa Amadeu Correia. Outrora, contar-nos-á Fernando Albuquerque, presidente do Clube, chegou a ter mais de 300 alunos. Hoje recebe uma média de 50 crianças.

A emigração mudou, constata Fernando Albuquerque, um natural de Carregal do Sal que chegou com 15 anos aos EUA e por aqui fez vida. “Os nossos pais tinham aquela visão de que os filhos tinham que aprender português”, recorda, daí a existência da escola. Hoje já se relativiza bastante a aprendizagem do idioma de origem.

Portuguese Instructive Social Club de Elizabeth Foto: mediotejo.net

Por Elizabeth ainda persiste uma comunidade grande de emigrantes lusos ou já descendentes, muitos com origem na região de Leiria e Ourém, constata. A família de Fernando Albuquerque veio em busca do sonho americano, mas apesar da tenra idade com que chegou à América do Norte, Fernando ainda levou 13 anos a legalizar-se.

Talvez por isso estas comunidades parecem ser tão unidas. No isolamento de uma terra estranha, afastados das raízes culturais e de um sentido de identidade, bebe-se uma Super Bock, come-se uma perna de frango, bebe-se um vinho tinto de produção local (garantem-nos!) e termina-se a refeição com uma bica. Na televisão, está ligada a RTP. Nem parece que estamos a mais de 5.400 quilómetros de Portugal.

Presidente da Associação dos Bombeiros de Ourém, Rui Neves, José Luís Vale, emigrante ouriense que organzou a viagem e Fernando Albuquerque, presidente do Portuguese Instructive Social Club de Elizabeth. Clube português recebeu a comitiva da Fanfarra no jantar do dia de chegada Foto: mediotejo.net

Recorda-se o verão de 2017 e como a comunidade luso-descendente se uniu para angariar fundos para entregar, diretamente, às vítimas de Pedrógão Grande (cerca de 200 mil dólares angariados). Recordam-se outras iniciativas do género, como o apoio à corporação dos Bombeiros de Ourém, que partiu de toda a comunidade portuguesa e não apenas de ourienses, frisam-nos. Lembram-se histórias antigas, alcunhas de famílias, vidas marcadas por uma certa dose de aventura mas também por todo um percurso de muito trabalho e sacrifício num país que nem sempre significou bonança.

Talvez Portugal, citando uma reflexão ouvida certa vez a uma emigrante de 2ª geração, seja efetivamente mais bonito à distância…

Programa de 7 de junho:

A Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ourém visita esta sexta-feira, dia 7, o Quartel dos Bombeiros de Elizabeth, seguindo-se uma visita ao rio Hudson, com vista sobre a Estátua da Liberdade. Está ainda programada um convívio em Pittstown, Nova Jérsia, e no Sport Club Português de Newark.

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