“Crónica de exceção”, por Paulo Jorge de Sousa

Se ler esta crónica sem estar a pensar e a relacionar se estou a favor de A ou B ou contra C ou D, ou se sou deste ou daquele partido (um grande problema dos pequenos meios), pode concordar ou discordar dela. Se tentar fazer essa ligação então não continue a ler. Não é para si. É sobre um aluno que foi agredido, dentro da escola, por uma pessoa exterior à mesma. Passou-se em Sardoal esta semana.

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E entendo, ao contrário de muitos, que o problema não é da escola. É certo que isto nunca deveria ter acontecido, nem aqui nem em nenhuma escola.

Se, ao mandarmos os nossos filhos para a escola pensarmos que estamos descansados porque estamos seguros de interferências externas, estamos sob um falso pensamento e uma falsa convicção. Quantos pais e/ou encarregados de educação são chamados à escola por comportamentos indesejáveis dos seus educandos?  A escola também sofre de todos os problemas que qualquer organização sofre. E também pode ter  problemas internos.

Ela tem um papel a desempenhar. E pode não ser o de educar, mas o de instruir. São processos diferentes embora tenham de andar de mãos dadas. E processos que se se confundem e que confundimos naturalmente.

E o fato de pensarmos que os nossos filhos possam estar seguros de atentados físicos dentro da escola não quer dizer que estejam seguros em relação ao exterior, não ao exterior físico como o da paragem do autocarro, por exemplo, mas sim um outro, o virtual, o moderno, o das redes sociais, o que não conseguimos ver nem acompanhar.

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E o que aconteceu lá dentro poderia ter acontecido cá fora, bastava os agressores terem esperado silenciosamente que o agredido viesse ao exterior, ou terem escolhido outro local, mesmo sem ser ali, perto ou longe da escola.

O problema não está no local da agressão, está nos motivos que a provocaram.

Já vai longe o tempo em que se considerava que a agressão só era considerada como tal quando alguém exercia força física sobre o outro e em que acabava tudo à pancada. Neste mundo moderno a agressão pode ser verbal, psicológica, presencial, real, virtual, enfim, de inúmeras formas e por variadíssimos meios.

Não é justo, portanto, que queiramos todos deitar abaixo a instituição escola por causa do que aconteceu. Não vi ninguém dar uma solução lógica e racional para que um porteiro de uma escola possa ter a certeza de que uma pessoa que entra na escola não vá fazer aquilo que o informou que ia fazer. Se calhar ter uma pessoa para cada visitante que entra na escola para levá-lo ao local que pretende e, quem sabe, ir acompanhado por dois agentes da autoridade. O que queremos é que as pessoas possam acreditar nas pessoas, senão o mundo está completamente ao contrário daquilo que precisamos acreditar e que queremos que seja.

E não me interpretem mal, sei do que falo. Fui dirigente da Associação de Pais e Encarregados de Educação muitos anos e com várias equipas, acompanhei de perto muitos problemas e não-problemas, estive em  Conselhos Pedagógicos, fiz parte de Conselhos Gerais e posso dizer que conheço bem as duas realidades, as de dentro e as de fora da escola.

Isto poderia ter acontecido dentro da escola, num balneário do campo de futebol, na paragem do autocarro, na piscina, num supermercado, ontem, amanhã ou para a semana que vem.

Este problema não é da escola, é de uma sociedade que se pensa estar sob controle mas que afinal ninguém consegue controlar.

*Fotografia: Diplomas de fim de ano de uma escola, no Centro Cultural Gil Vicente, 2018

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Nasceu no Sardoal em 1964, e é licenciado em Fotografia. Fez o Curso de Fotojornalismo com Luíz Carvalho do jornal “Expresso” (Observatório de Imprensa). É formador de fotografia com Certificado de Aptidão Profissional (registado no IEFP). Faz fotografia de cena desde 1987, através do GETAS - Centro Cultural, do qual também foi dirigente e fotografou praticamente todos os espetáculos. Trabalha na Câmara Municipal de Sardoal desde 1986 e é, atualmente, Técnico Superior, editor fotográfico e fotógrafo do boletim de informação e cultura da autarquia “O Sardoal” e de toda a parte fotográfica do Município. É o fotógrafo oficial do Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal. Em 2009, foi distinguido pela rádio Antena Livre de Abrantes com o galardão “Cultura”, pelo seu percurso fotográfico. Conta com mais de meia centena de distinções nacionais e internacionais. Já participou em dezenas de exposições individuais e coletivas.

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