“Contradições e incoerências”, por Carlos Alves

Foto: Carlos Alves

«Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém.»

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Esta realidade existencial foi proferida por Fernando Pessoa. Esta transcrição é importante para entender as inopinadas mutações de individualidades, a instabilidade de temperamento, a sensação de insegurança, de versatilidade de espírito e de desesperante desconhecimento de si próprio. É que realmente as pessoas podem não ser culpadas das suas incoerências e contradições. A complicação maior é quando tudo isto se decompõe em sucessivas vivências fragmentárias e se intrinca em pensamentos obscuros e vácuos anulando a possibilidade de uma idealização retilínea e coerente. Esquisito este pensamento? Não me parece! É apenas o início de uma reflexão discursiva e maleável do ponto de vista intelectual. Não nos podemos esquecer que a lei em democracia garante aos cidadãos a liberdade de se exprimirem. E como dizia Voltaire «pensar por escrito». É apenas isso que pretendo fazer sem querer cair em generalidades básicas.

As belas moedas do erário público são gastas conforme haja vaga para o fazer. Gente de segunda classe que arrisca a ficar com a reputação em fanicos. Teatros fechados, bibliotecas às moscas e as populações risonhas. Realmente quem nasce para burro nunca chega a cavalo. Temos a mania das grandezas, culpa da imprudência e da leviandade de alguns que acham que tudo se resolve com discursos e festas. Tendo pândega, tudo se esquece!

A sociedade é curiosa e inspirou os filósofos, historiadores, moralistas e sociólogos a fazer inúmeras reflexões sarcásticas ou amargas, análises e fórmulas satíricas que colocam de sobreaviso os que tentam cultivar a subtileza supérflua. Tomem consciência que o povo tem à sua disposição conhecimento preciso sobre a realidade. Tomar decisões sobre os mais variados temas ditados pela imaginação, a paixão e a propaganda torna-se perigoso quando a fonte de argumentos no debate político é feito por homens que se louvam pela sua astúcia, a sua arte de seduzir a opinião e de enganar os rivais. A democracia não pode viver sem a verdade, a democracia suicida-se se se deixar invadir pela propaganda, pela mentira. Como pode alguém querer governar uma cidade, estar ao leme de uma sociedade se se revela já incapaz de desempenhar esse papel na sua própria vida? A função de alguém que quer estar na vida pública só pode ser cumprida se ele próprio estiver comprometido com a ética da convicção, com a ética da responsabilidade. Não compreender esta visão do mundo que molda a opinião pública é não ter arte de governar. Quantas vezes se ouvem dirigentes políticos a pronunciar uma diatribe inflamada contra as companhias multinacionais de manhã e à tarde fazer todos os esforços, para incitar o presidente de uma dessas mesmas companhias a investir no seu território. Vemos nisto, uma contradição ou talvez não. Quando muito, um desdobramento. Por um lado, o lirismo terceiro-mundista e em seguida a integração no universo lógico. São estas cegueiras ideológicas e as extravagâncias da propaganda que levam muitas vezes a atos de intolerância. Devemos defender o direito de cada um dar a conhecer o seu ponto de vista, a sua opinião, mesmo se este ponto de vista ou opinião nos horrorizar, e devemos nós mesmos combatê-lo apenas pela palavra e a argumentação, nunca pela força nem pela calúnia: liberta-se então o princípio da tolerância.

Sabemos que muitos defendem a punição através da jurisprudência da autoridade sobre os abusos de liberdade de expressão, as opiniões prejudiciais à honra, à dignidade ou à segurança de outrem e à paz civil. Ressalta sempre a questão, de que podem impedir-se estes abusos sem atentar contra esta liberdade. De maneira geral, conclui-se que mais vale aceitar os inconvenientes do que tentar remediá-los pela legislação porque, a sabedoria pública, fruto da experiência da liberdade e do hábito de confrontar as teses, se encarregará de descreditar os difamadores e os facciosos. Eu sou daqueles que acha que a pureza da linguagem, ou o decoro da frase, pode ser o melhor modelo do profundo respeito com que se hão de tratar todos com urbanidade e amabilidade.

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Passamos o tempo à procura de grandes Homens, mas esses morreram há muito. Caminhamos sempre pelas profundezas psicológicas, pela universalidade, tentando encontrar, Shakespeare, Goethe ou Dostoievski…

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