“Constância, terra de rios, terra de pontes”, por António Matias Coelho

Foto: Triede Plano

Os 125 anos da ponte do Zêzere

Aberta ao trânsito – de pessoas, animais, diligências, carroças e carros de bois – em 1892, a ponte de ferro sobre o rio Zêzere, em Constância, faz agora 125 anos.

A sua construção, nos finais do século XIX, constituiu um dos mais importantes melhoramentos de sempre para Constância e para a região: pela primeira vez na História, as gentes de um lado e do outro do rio puderam atravessar o Zêzere sem terem de estar sujeitas aos horários e ao ritmo lento da barca de passagem.

Construída em ferro, como era costume na época, a ponte foi concebida para um volume e uma tonelagem de tráfego bem inferiores aos que suporta nos nossos dias. Quem poderia adivinhar, há 125 anos, o que iria acontecer no mundo dos transportes rodoviários?

E, no entanto, a ponte resistiu, continuando, tanto tempo depois, a cumprir a sua missão de sempre. Mas, como o mundo não para e a vida de hoje exige deslocações cada vez mais rápidas, foi construída entretanto, a meio da década de ‘90, uma outra ponte sobre o Zêzere, em betão, bem maior e mais moderna do que a sua vizinha oitocentista, para a passagem da autoestrada A23.

A velha ponte, que beneficiou de obras de remodelação e alargamento no início deste século, continuará, certamente por muito tempo, a servir as populações locais. E será, sempre, um monumento em ferro à revolução industrial e à geração de portugueses que, nos finais do século XIX, conseguiu aproximar as margens do rio e dotar Constância com uma das mais úteis e mais significativas peças do seu património construído.

Nos tempos da barca de passagem

Durante séculos, a travessia de pessoas, animais e mercadorias de uma para a outra margem do Zêzere fez-se através de uma barca de passagem.

Dado que o rio serve de limite aos concelhos de Constância e de Vila Nova da Barquinha, a responsabilidade pela manutenção dos cais e do funcionamento da barca, bem como o direito de arrecadar o produto do seu arrendamento cabiam a ambos os municípios em partes iguais. No entanto, dada a proximidade da sede do concelho de Constância, era a Câmara Municipal deste concelho que diretamente administrava tão importante serviço.

Do lado de Constância existia um cais, a uns duzentos metros para montante do local onde agora está a ponte, num sítio onde o rio é um pouco mais estreito. Para se chegar a esse cais ia-se por um caminho que vinha da parte baixa da vila, paralelo à margem.

O cais desapareceu há muito tempo, embora o local ainda hoje continue a ser designado porto do Canto da Milharada. O caminho, esse, lá está, embora cada vez menos andado, a desembocar no rio. E do lado da Barquinha não é difícil adivinhar a sua continuação, ligando a uma estrada de terra que sobe a encosta quase a partir das águas do Zêzere.

Os direitos da barca de passagem eram arrendados pelo município a um particular que os arrematava em praça pública, por um período de tempo determinado, comprometendo-se a pagar uma renda, a manter a barca em bom estado, a ser zeloso no serviço e correto para com o público e a não cobrar aos passageiros mais do que o estipulado pela tabela de taxas estabelecida pela Câmara.

A barca de passagem era um serviço que, por norma, convinha às três partes envolvidas: ao arrematante que cobrava as passagens, às Câmaras que arrecadavam a renda e às populações que assim podiam atravessar o Zêzere, nesse tempo bem mais caudaloso do que agora por não haver ainda barragens a tolher-lhe o curso.

O serviço era de tal importância que a Câmara de Constância tinha então um vereador com o pelouro das barcas – que na vila eram três: esta do Zêzere, um bote que fazia a ligação à estação do caminho de ferro da Praia do Ribatejo e a barca do Tejo para Constância Sul, a única que sobrevive no nosso tempo.

O movimento era constante e muito intenso, a avaliar pelo rendimento que a barca dava e que era significativo. Mas a barca do Zêzere era só uma, havia que esperar a vez, às vezes tinha de se aguardar bastante tempo para se atravessar um rebanho ou uma manada de vacas e, sobretudo, havia determinados carros de maiores dimensões que, por não caberem na barca, não havia forma de os fazer passar para o outro lado.

E havia ocasiões, em anos mais invernosos, em que a travessia ficava mesmo suspensa por vários dias ou até semanas por ser impossível à barca enfrentar a violência do rio.

Foi, como é bem sabido, o que aconteceu às tropas do general Junot, durante a primeira invasão francesa a Portugal, em novembro de 1807, que tiveram de esperar durante três dias em Constância, travadas pela corrente do Zêzere, até poderem seguir a caminho de Lisboa.

Em finais do século XIX a ponte era, pois, uma antiga ambição e uma grande necessidade das populações da vila e da região.

Ponte precisa-se!

O pedido formal para que fosse construída a ponte foi apresentado ao rei D. Luís I em finais de 1887, sendo presidente da Câmara de Constância o dr. Francisco Augusto da Costa Falcão. Esse documento, aprovado em sessão camarária em 14 de dezembro daquele ano, pedia a Sua Majestade a construção de uma ponte no rio Zêzere desta vila, melhoramento há muito reclamado pelos povos deste concelho e dos próximos [1].

A Câmara de Abrantes, igualmente interessada no empreendimento, secundou o pedido. Moveram-se influências junto dos órgãos de decisão. Personalidades do concelho e da região (designadamente das famílias Falcão e Sommer) empenharam-se pessoalmente no processo.

Em consequência, e ao contrário do que era norma em casos semelhantes, a resposta do Governo foi muito rápida: apenas cinco meses mais tarde, em maio de 1888, já se faziam estudos para a execução da obra. Um ano e meio depois teve lugar a adjudicação dos trabalhos à empresa construtora – a Empreza Industrial Portugueza, de Santo Amaro, Lisboa, como reza a placa metálica afixada a meio do tabuleiro – e as obras começaram logo a seguir, em 1890. Em apenas dois anos a ponte estava pronta. Corria o ano de 1892. Fez agora 125 anos.

A visita real

Foto: Arquivo Municipal de Constância

Com os seus 200 metros de comprimento e 23 de altura, a ponte do Zêzere era, aos olhos dos constancienses de então, mais do que aos de hoje, uma obra de grande envergadura. Apesar disso, não consta que tivesse sido oficialmente inaugurada nem sequer se conhece a data certa em que foi aberta ao trânsito.

A verdadeira consagração da ponte verificou-se quatro anos depois da sua construção, quando o rei D. Carlos, acompanhado da esposa, a rainha D. Amélia, e do herdeiro da coroa, o príncipe D. Luís Filipe, esteve na vila em 8 de maio de 1896. Nessa ocasião, a ponte foi devidamente engalanada para receber, com a dignidade que se impunha, o cortejo real.

Embora a fotografia fosse ainda uma relativa novidade entre nós, o fotógrafo desta vez estava lá e fixou para a posteridade a belíssima imagem que aqui reproduzimos e que constitui uma importante peça do património documental de Constância [2].

A festa do centenário

Foto: António Matias Coelho

Assinalando os 100 anos da ponte do Zêzere, a Câmara Municipal de Constância colocou, em 8 de novembro de 1992, uma placa comemorativa da efeméride. Descerrou-a o presidente da Câmara de então, António Mendes, seguindo-se o lançamento de foguetes e uma arruada pela Banda da Associação Filarmónica Montalvense 24 de Janeiro. Na ocasião esteve patente no local uma exposição fotográfica e documental relativa à ponte que depois foi transferida para o átrio dos Paços do Concelho onde permaneceu até ao final do ano.

Para muitos, como eu, que vivemos tudo isto, parece que foi ontem. Mas já passou (mais) um quarto de século…

***

[1] Livro de Atas das Sessões da Câmara Municipal de Constância, sessão de 14.12.1887, fls. 121 v.

[2] Os meus agradecimentos ao Arquivo Municipal de Constância, na pessoa do seu responsável, o dr. Rui Duarte, pela cedência da fotografia, sem marca de água, para reprodução neste texto.

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