Constância | Privados querem recuperar e dinamizar Quinta Dona Maria em Montalvo

Quinta D. Maria, em Montalvo. Foto: DR

A Quinta Dona Maria em Montalvo, propriedade do município de Constância mas que se encontra abandonada, pode vir a ganhar nova vida se o projeto de dois irmãos empresários de Montalvo for concretizado. A previsão para o investimento inicial é de meio milhão de euros, mas o autarca de Constância aponta para mais de um milhão de euros o custo da recuperação total da Quinta.

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A Câmara de Constância aprovou na reunião do dia 19 a constituição de direito de superfície da Quinta, a minuta do contrato e a isenção do IMI pelo período de cinco anos e do IMT, benefícios que têm de ser aprovados pela Assembleia Municipal a reunir dia 28.

“Acreditamos que é um passo importante não só para o concelho como um todo mas sobretudo para a freguesia de Montalvo que tem um espaço na zona nobre da aldeia que está com mau aspeto e a necessitar de uma intervenção”, afirmou o presidente da Câmara.

Sérgio Oliveira fez questão de sublinhar que “qualquer intervenção no imóvel deve preservar a traça arquitetónica e deve ter algo que perpetue a memória daquilo que foi a quinta e a vivência de gerações que trabalhavam em grandes quintas como esta”.

Recuperar o antigo lagar e manter o museu agrícola são outras das exigências do município.

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“Aparecendo um investidor privado, natural do concelho, que aceita cumprir estas exigências, acho que não devemos desperdiçar esta oportunidade”, defende o autarca, depois de recordar o processo da Quinta que foi adquirida pela Câmara há uns anos, para instalar o Centro Escolar mas que acabou por ser construído noutro local.

Mais recentemente surgiu outra ideia para a Quinta, o projeto Quintas do Tejo, mas que nunca foi concretizado por falta de financiamento.

O imóvel foi também colocado numa plataforma do Turismo de Portugal como imóvel de interesse turístico para potenciais investidores mas não apareceram interessados.

Há poucos meses um investidor privado, Nuno Cristóvão, reuniu com o presidente da Câmara e manifestou interesse em dinamizar a Quinta D. Maria, propondo-se recuperar o espaço para aí instalar um restaurante com provas de vinhos e de azeites e algumas unidades de alojamento.

A previsão para o investimento inicial é de meio milhão de euros, mas o autarca de Constância aponta para mais de um milhão de euros o custo da recuperação total da Quinta, havendo a possibilidade de candidatura a fundos comunitários até setembro.

O presidente da Câmara, com base no apoio jurídico do advogado José Amaral, ao serviço da Câmara há mais de 30 anos, garante que está acautelado e defendido o interesse público, reconhecendo que o projeto envolve alguns riscos, principalmente para o investidor privado.

O assunto acabou por ocupar a maior parte do tempo da reunião pública da Câmara, que decorreu no Centro Escolar de Montalvo. Apesar de algumas questões levantadas pela bancada da CDU e depois dos esclarecimentos do jurista, o processo foi aprovado por unanimidade.

A história da Quinta Dona Maria

A Quinta Dona Maria, em Montalvo, no início do século XX, era uma das quintas mais prósperas do concelho de Constância. Composta por grandes propriedades na região, a Quinta Dona Maria dedicava-se ao cultivo do olival, da vinha e dos cereais. Com uma agricultura tradicional, ocupava grande número de homens e mulheres de Montalvo.

Os edifícios agrícolas da Quinta Dona Maria situam-se em frente à casa solarenga onde viviam os proprietários. Estes edifícios passaram a pertencer, no início do século XX, a Dona Maria de Serpa Pimentel, casada com Fernando Falcão Themudo. Por falta de descendência, as propriedades foram desmembradas, sendo a casa da família deixada à diocese de Portalegre e a Quinta Dona Maria à família Falcão Themudo.

D. Maria Teresa Falcão, D. Adelaide Themudo de Sommer, Dona Maria de Serpa Pimentel Themudo e D. Helena Themudo de Castro. Foto: DR

A quinta entrou em decadência na segunda metade do século XX, tendo sido o lagar o último a fechar ao público, nos anos 80. Tinha sido modernizado alguns anos antes, uma vez que a quinta sempre teve extensos olivais e muita azeitona, não faltando, por isso, matéria-prima para o lagar.

Há poucos anos, a Quinta Dona Maria passou a ser propriedade do município de Constância, que o transformou no Museu Quintas do Tejo, com o intuito de preservar a memória das antigas atividades agrícolas, através dos utensílios, equipamentos e ferramentas outrora utilizados pelas populações e que são testemunhos vivos de um tempo e espaço únicos e de uma cultura identitária que tende a desaparecer.

Dona, por extenso, porque, segundo dizem as gentes de Montalvo, seu pai, D. João, ainda era de sangue nobre. Dona Maria toda a sua vida demonstrou ser uma mulher muito religiosa, tanto que as pessoas de Montalvo recordam-na a dar a doutrina, catequese, às crianças numa casa da sua propriedade. Quando estas crianças faziam a primeira comunhão, pelo S. João, oferecia às meninas um vestido e aos meninos uma camisa do mesmo tecido de flanela e ainda lhes oferecia um almoço no telheiro do pátio da sua Quinta, constituído por sopa, carne de borrego guisado com batatas e muita melancia.

Também no dia de Todos os Santos era muito generosa com as crianças de Montalvo. Já os esperava e dava os bolinhos no pátio à frente da sua casa, hoje Convento das Clarissas, com a ajuda das criadas. As crianças entravam no pátio e faziam fila, esperando cada uma pela sua vez para receber os bolinhos, que, geralmente, compreendiam uma tigela de castanhas, nozes, tremoços, uma romã, uma broa, marmelos, passas e, às vezes, até um tostão.

Casada com Fernando Falcão Themudo, nunca tiveram filhos. Daí os seus bens passarem para os sobrinhos do marido, da família Falcão Themudo. Já com as propriedades entregues a esses familiares, passava longas temporadas em Lisboa, regressando a Montalvo unicamente no verão. Porém, regularmente, um carro da família transportava produtos da quinta para a casa onde vivia em Lisboa, como azeite, vinho, ovos, aves, etc.

D. Maria Felismina Falcão, D. Manuel Falcão (Bispo de Beja), Dona Maria de Serpa Pimentel Themudo e D. Adelaide Themudo de Sommer

Dona Maria era uma pessoa muito querida em Montalvo, sendo recordada, ainda hoje, como alguém que tinha sempre algo para dar aos mais pobres e mais necessitados, bastando bater à sua porta.

Fernando Falcão Themudo faleceu em 1955, com 72 anos e Dona Maria viria a falecer em 1986, aos 89 anos.

Fotos: CM Constância

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