Constância | O inclemente destino de António, vencido na batalha da vontade

António Silvestre na cadeira de rodas elétrica disponibilizada pelo Hospital de Alcoitão

Véspera de Natal de 2008, António Silvestre viaja para o Algarve. Vai ver a filha, a única que tem. No meio da viagem uma chamada telefónica. Volta para trás. Ao chegar a casa encontra a companheira com o amante. Palavras iradas e António é atacado pelo homem: três facadas na cabeça, uma no pescoço e outra na cervical. A vida como a conhecera morreu ali. Mas António sobrevive com uma lesão na medula que o deixa numa cadeira de rodas com 65% de incapacidade. Sem poder trabalhar sobrevive com menos de 400 euros. Apesar do fantasma de um Natal passado, neste presente não é um homem triste. Orgulha-se dos progressos e da horta biológica que cultiva sentado, mas com vontade. De Alcoitão chegou o convite para duas palestras: António mostra como é a vida (saudável) com uma lesão medular.

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António Silvestre mostra uns olhos de um azul vivo, como o céu que gosta de contemplar sentado à beira da sua horta. Passa os dias naquele espaço, entre os terrenos ajardinados e a casa. Sorri frequentemente. Poderá ser difícil perceber porquê. As expressões vincadas da face são talvez reflexos de saudades de uma vida passada. Mantém as mãos algo curvadas, em particular a direita que perdeu a força por completo, tal como a perna direita que arrasta ligeiramente na sua locomoção precária em desafio às lei da anatomia.

Esta dramática história desenhou-se há uma década, quando o Natal ganhou um novo sentido para António José Silvestre. Pelas piores razões. “O Natal para mim está marcado”, desabafa ao mediotejo.net. Aos 35 anos, uma facada nas costas deixou-o às portas da morte, com uma lesão medular incurável entregue a uma cadeira de rodas, aos cuidados da mãe e da família. Mas o homem recusa limitar-se a sobreviver na pequena casa que comprou com a indemnização que o Estado português lhe pagou na vez do condenado. Dedica-se à sua horta biológica que devagar e com cuidados, inventando ferramentas de apoio às tarefas, leva por diante com orgulho e persistência.

O cenário é Cardal, pequena povoação no concelho de Constância, a poucos quilómetros do campo militar de Santa Margarida, onde, apesar das limitações, António entregou-se à agricultura para consumo próprio, oferecendo, ainda, a sua produção a familiares e amigos.

Na horta, entre os cravos túnicos com a função de afastar os insetos, encontramos couves, alfaces, nabiças, grelos, cenouras, brócolos, feijão verde e até azeitona. António desenvolveu um apetrecho que lhe permite ripar o fruto da oliveira até ao chão. No ano passado apanhou 443 quilogramas que lhe renderam 43 litros de azeite. Desta vez a safra foi mais fraca, seis litros dos 75 quilos de azeitona que teve forças para colher.

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Constância | O inclemente destino de António, vencido na batalha da vontade
António José Silvestre no quintal da sua casa no concelho de Constância

“Não consigo estar em casa sem fazer nada!” afirma António mostrando as enxadas e os sachos com longos cabos aplicados, a única forma de os poder utilizar. “Faço tudo sentado” explica. E se para o cultivo, os utensílios foram alongados, dentro de casa, adquirida em 2016 com a indemnização de apoio à vítima de crimes violentos, por imperativo da locomoção reduziu o mobiliário ao “essencial” abrindo alas ao movimento.

António Silvestre está na condição de reformado por invalidez. Para cálculo do valor da pensão (cerca de 274 euros) “contaram os anos de descontos para a Segurança Social, acrescidos de um complemento de dependência de 100 euros por ter ficado com 65% de incapacidade”. Revolta-se.

“O Estado paga cerca de 1000 euros às instituições por cada pessoa com deficiência, no entanto dá-me 100 euros para pagar a um cuidador. Quem é que trabalha por esse dinheiro?” questiona. Vale-lhe a irmã que trata da roupa, da casa e ainda cozinha quando as mãos de António mostram-se renitentes em mexilhar. Aliás, é praticamente “um milagre” tendo em conta a opinião dos médicos, céticos na sua recuperação devido à lesão medular incurável que o colocou numa cadeira de rodas.

Na véspera de Natal de 2008, António Silvestre viaja de carro a caminho do Algarve onde residia a filha, que atualmente tem 14 anos e vive com o pai. Profissionalmente António era técnico de jardinagem em Lisboa, cidade que o acolheu aos 16 anos depois de sair da Portela onde nasceu em Constância sul. Naquele dia, durante a viagem, recebeu um telefonema da mulher com quem vivia.

“Disse que se sentia mal e pedia para voltar. Precisava ir ao hospital”. António conta a história que mudou para sempre a sua vida. A tragédia aconteceu pouco tempo depois de chegar a casa em Bucelas, Loures, onde encontrou a companheira com o amante. A discussão foi forte e a mulher saiu para a rua. Enquanto isso, o amante alcançou uma faca na cozinha e desferiu três facadas na cabeça de António, uma no pescoço e outra na cervical. Nesse momento caiu inanimado, parecia morto sem perder os sentidos mas com lesões irreversíveis.

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António Silvestre na apanha de azeitona

António chegou ao Hospital de Santa Maria, depois foi transferido para o Hospital de Abrantes e por fim chegou ao Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, com um primeiro internamento de seis meses, um segundo internamento de três meses e o último de um mês. Os médicos davam-lhe raras hipóteses de recuperação, mas ele não desistiu.

Sofre de síndrome de Brown-Séquard, uma lesão medular incompleta, caracterizada por um quadro clínico decorrente de uma hemissecção da medula espinhal. Esperava-o, por isso, a cadeira de rodas da qual acabou por se libertar… ainda que por curtos momentos.

Após toda as sessões de fisioterapia entendidas pelos clínicos, em 2013, tentou largar a pirâmide de quatro pés e mais tarde as canadianas. E hoje consegue dar uns passos mesmo sem apoio, valendo-se da cadeira de rodas elétrica para se deslocar. O atacante, “um indivíduo com historial de agressividade e violência”, foi condenado a três anos de prisão e ao pagamento de uma indemnização, que na realidade foi paga pelo Estado por justificada carência financeira.

Para instituições de solidariedade social António recusa entrar. Sente-se melhor na sua casa, particularmente na horta composta também por outras árvores além das oliveiras como limoeiros, pessegueiros e figueiras. Com o tempo, que tem de sobra, e com a experiência aprendeu que as hortaliças “não gostam de estar debaixo das árvores”.

Para estrumar a terra António recorre à ajuda das galinhas e aos restos de relva do jardim. À volta dos canteiros António construiu uns muretes com paciência e dedicação, bloco a bloco dificultados no manuseamento pela falta de força na mão direita ou pela falta de sensibilidade na mão esquerda. Ao longo das culturas garrafas e garrafões de plástico para demover os gatos nas suas rapadelas diárias. No meio espantalhos e velhos cds que já não ecoam música mas espelham as cores do arco-íris e afastam a passarada. E os cravos túnicos como repelente de piolhos.

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Na horta biológica de António Silvestre encontra-se couves, alfaces feijão verde e flores

Couve coração de boi, lombarda, tronchuda portuguesa, António inventou também um sistema de plantação de couves quer para a conceção dos regos quer para fazer os buracos para as plantas. Uma ripa de 50 centímetros ajuda a medir as distâncias. Produtos que cultiva seja inverno ou verão graças ao sistema gota-a-gota com fita de rega e à água do tanque ou do poço dos vizinhos. No final dos dias quentes, António senta-se numa cadeira munido de uma mangueira com agulheta e vai regando os verdes.

Esta prática não passa apenas por um complemento aos seus parcos rendimentos, “demonstra que a solução é nunca parar, é estar ativo, ter força de vontade e mostra como é possível viver saudável com uma lesão medular”, afirma.

A esse propósito António Silvestre foi convidado pelo hospital de Alcoitão para ser orador em duas palestras, a última em maio de 2018, sob o tema ‘Lesão medular, como viver com ela e manter-se saudável’ destinada aos utentes e familiares do serviço de lesões vertebro-medulares.

“Tomava 10 comprimidos por dia quando saí de Alcoitão, agora não tomo nenhum”, diz, orgulhoso, garantindo que a base da sua alimentação é a sua horta. “Pouco peixe e ainda menor quantidade de carne. As carnes do supermercado não prestam. São duras”, observa.

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António Silvestre no meio das suas plantas

Como deixou de conduzir, apesar de ser isento de Imposto de Circulação devido à deficiência, o seu carro jaz na horta, há dois anos, ao lado dos legumes e das árvores de fruto. “Serve para ter ferramentas, sementes e para quando a cadeira tem as rodas vazias” recorrendo ao compressor para as voltar a encher. “Tenho carta de ligeiros há 15 mas só conduzi seis anos”, refere.

Atualmente o Natal é celebrado em casa da mãe. E apesar das festividades lhe trazerem à memória o estado de quase morte, declara não ser “um homem triste”. António José passa os dias no quintal da sua casa, à beira da estrada de Cardal, sentado na cadeira, com as galinhas e o cão, a ver quem passa. “É melhor olhar para o céu e para as plantas do que estar em casa a olhar para o computador”.

Em dias de chuva poderá sentar-se no cadeirão talvez em frente ao televisor, entretenimento que ao fim de uma hora o aborrece. “Tenho de aceitar a minha condição, mas não me resigno”, assegura, insistindo na sua vida ativa para os músculos não atrofiarem. António tem os seus momentos de solidão mas nunca se sentiu sozinho, tem família e alguns amigos com quem pode contar.

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