Constância | “Há bombeiros a passar fome” na corporação, denuncia Comandante

Adelino Gomes, comandante dos bombeiros Voluntários de Constância, fala em situação de "calamidade social" e reclama dívidas na ordem dos 400 mil euros. Foto: mediotejo.net

Em Constância há bombeiros a passar fome e a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Constância (BVC) corre risco de insolvência. Quem o diz é Adelino Gomes, Comandante da Corporação, em declarações ao mediotejo.net. Há dois meses de ordenado em atraso, famílias a passar fome, e a corporação não tem mais crédito para meter combustível nas viaturas. O pedido de um apoio extraordinário à Câmara foi recusado, posição que Adelino Gomes afirma não entender. O serviço prestado pelas ambulância pode parar na segunda-feira.

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O problema, afirma, tem a ver com a “falta de pagamento do Serviço Nacional de Saúde através de vários hospitais e centros hospitalares” à Associação, dívida que estará na ordem dos 400 mil euros. Sem dinheiro, a Corporação não pagou aos bombeiros o 13° mês de 2018 nem o mês de janeiro deste ano.

“São 33 famílias, os nossos funcionários não têm dinheiro e alguns deles estão a passar fome. E esta é a verdade”, reforça Adelino Gomes. Revela que pediram apoio à câmara para que adiantasse algum dinheiro, mas “o presidente da Câmara reagiu pela negativa, quando devia reagir pela positiva”.

Constância | "Há bombeiros a passar fome" na corporação, denuncia Comandante
Adelino Gomes em frente ao quartel de bombeiros. Foto: mediotejo.net

Na sua opinião, o comunicado emitido pela Câmara na sexta-feira apresenta “uma série de coisas que não têm nexo”.

Dá como exemplo o pagamento do seguro de acidentes pessoais dos Bombeiros que a Câmara paga. “Isso é de lei, todas as Câmaras do país pagam e é dinheiro que vem do Orçamento do Estado”, defende o Comandante.

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Também o pagamento de 50 % dos custos referentes à equipa de intervenção permanente referido no comunicado da Câmara, “é dinheiro que passa pela Associação para pagar àqueles cinco homens que são da Autoridade Nacional para a Proteção Civil”.

Em relação às verbas transferidas da Câmara para a Associação para a aquisição de equipamento (em 2018 a autarquia diz que apoiou com 1.500€, e em 2019 com 5.000€), Adelino Gomes ironiza que no primeiro caso “é uma fortuna” e, no segundo caso, são 3.700 euros e não o montante que a Câmara refere.

“Isto é ridículo quando estamos perante uma situação de quase calamidade social para as famílias dos bombeiros e depois vir dizer que é a associação do concelho que mais dinheiro recebe, a querer comparar os bombeiros com uma rancho folclórico ou um grupo recreativo”, lamenta Adelino Gomes.

Constância | "Há bombeiros a passar fome" na corporação, denuncia Comandante
Adelino Gomes, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Constância (Foto: mediotejo.net)

Acrescenta que há outras Câmaras do país que fazem alguns adiantamentos de dinheiro às associações humanitárias com as mesmas dificuldades para poderem ultrapassar esta situação, o que não se verifica com o município onde a corporação está sediada.

“A Câmara de Constância vem dizer que está solidária com os funcionários. Como é que é possível ser solidária com os funcionários com gente a passar fome?“, questiona Adelino Gomes que apela ao presidente da Câmara “que ponha a mão na consciência”.

No comunicado, o município de Constância afirma não poder assumir “uma responsabilidade que não é sua. A Associação Humanitária dos BVC tem órgãos sociais próprios que são totalmente responsáveis pelas decisões e opções que tomam, bem como serão os únicos que poderão explicar a todos e a todas como é que a Associação Humanitária chegou à atual situação”.

Em relação a esta crítica, o Comandante defende-se dizendo que talvez tenham errado em “continuar a fazer o serviço de transporte de doentes, sem receber”. De resto, argumenta que reduziram o pessoal em sete funcionários e houve também um corte nos custos.

Sobre as atuais dívidas, além das remunerações, refere uma dívida de 15 mil euros em combustível, havendo o risco de ter de se parar as ambulâncias a partir de segunda feira.

Questionado sobre o futuro da Associação Humanitária, Adelino Gomes coloca a hipótese de uma insolvência controlada como única forma de se pagar as dívidas.

Apesar de tudo, o responsável tem esperança “que haja bom senso das autoridades deste país” e apela a que o Ministério da Saúde pague algumas dívidas de transporte de doentes dos meses de dezembro e janeiro, em falta.

No comunicado da autarquia refere-se que “os apoios fixos aos Bombeiros, sem contabilizar os pontuais, ascendem a um valor anual de 56.360,03 € (dados de 2018)”, sendo “a instituição do concelho que mais apoio financeiro recebe do município de Constância”.

Ao tomar conhecimento da grave situação financeira da corporação, a Câmara solicitou uma audiência com carácter de urgência à Ministra da Saúde e enviou um ofício ao Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) questionando sobre o valor em divida à Associação.

Constância | "Há bombeiros a passar fome" na corporação, denuncia Comandante
Adelino Gomes, comandante dos bombeiros de Constância, é ainda vice-presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Foto: DR

Segundo Adelino Gomes, “com o CHMT, os bombeiros de Constância não têm estado a trabalhar desde julho de 2018 devido a uma divergência quanto a uma dívida acumulada que não foi paga”. São outros hospitais e centros hospitalares que têm atrasado os pagamentos provocando sérias dificuldades à gestão da instituição.

No Conselho Nacional da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) reunido em Pombal este sábado, dia 9 de fevereiro, foi aprovada, por unanimidade, uma recomendação para que o Ministério da Saúde analise esta situação e uma moção de solidariedade com a corporação de Constância e todas as associações humanitárias que estão a viver dificuldades financeiras devido às dívidas dos hospitais relativas ao transporte de doentes.

De acordo com Jaime Soares, as dívidas de 395 mil euros aos bombeiros de Constância “é incomportável e leva à falência” da associação, que se vê obrigada a não pagar aos funcionários, combustível ou o arranjo de viaturas.

“Se o problema fosse só Constância, nós até fazíamos um peditório e ajudávamos os nossos colegas, mas é que são os bombeiros de Portugal que estão nesta circunstância”, frisou.

O presidente da LBP confirmou que o Ministério da Saúde deve, atualmente, 35 milhões de euros aos bombeiros portugueses, pelo que “se em algum momento estiver em perigo o socorro às populações não podem ser assacadas as responsabilidades aos bombeiros”.

c/LUSA

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