“Constância, concelho republicano”, por António Matias Coelho

Na ocasião em que Abrantes celebra um século da sua elevação a cidade – que em grande parte foi um testemunho de reconhecimento do novo regime pela forma entusiástica como a vila e a região se bateram, antes e depois do 5 de Outubro, pela causa da República, faz sentido destacar o papel que o vizinho concelho de Constância também desempenhou nesse processo.

Foi José Relvas, um ribatejano, quem proclamou o novo regime da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Nos dias seguintes, todo o país fez o mesmo e uma enorme onda de entusiasmo percorreu Portugal, dando vivas à República.

Em Constância, terra de fortes tradições republicanas, a implantação da República foi acolhida com júbilo e, como por todo o lado, as pessoas viram no novo regime uma espécie de panaceia capaz de resolver todos os problemas do país.

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Seguiram-se tempos de muita mudança, de algumas realizações e de bastantes desencantos. Em Portugal inteiro e em Constância também. Amada por uns e odiada por outros, sinónimo de renovação ou de desregramento, de sonho ou de desilusão, a I República, que vigorou escassos 16 anos, até 1926, foi das fases mais intensas da História política portuguesa e marcou profundamente o país e a nossa região.

É conhecida a forte adesão dos ribatejanos ao ideário republicano nos anos que antecederam a revolução do 5 de Outubro de 1910. O historiador abrantino Fernando Catroga, analisando a estrutura do Partido Republicano Português [PRP] em 1907, salienta que «Lisboa aparece como o principal foco de militância, logo seguido pela linha do Tejo»[i], onde se encontravam organizados e em funcionamento mais de uma dúzia de Centros Republicanos em vários concelhos, entre os quais o de Constância.

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Nos anos finais da monarquia, o PRP intensificou a propaganda, sobretudo através da imprensa. Na nossa região, os republicanos contavam com diversos jornais que lhes eram afetos e veiculavam a sua mensagem. Para além d’O Debate, que se publicava em Santarém e tinha âmbito distrital, havia muitos outros, como O Benaventense, O Futuro da Golegã, A Voz d’Ourém e, mais próximos de nós, A Verdade, de Tomar, O Abrantes e O Jornal de Abrantes.

Por outro lado, multiplicavam-se pelo vale do Tejo as conferências, realizadas nos Centros Republicanos, e os comícios com a presença de destacados dirigentes do PRP. Abrantes, uma das vilas ribatejanas com maior mobilização republicana, assistiu a dois grandes comícios, um em 1895 – que terá contado com umas três mil pessoas – e outro em 1907, na praça de toiros, em que discursaram grandes figuras do movimento republicano, como António José de Almeida e Bernardino Machado (que viriam depois a ser Presidentes da República), Brito Camacho e o médico abrantino Ramiro Guedes, entre outros[i]. Estas realizações públicas foram de grande importância para a divulgação dos ideais republicanos e para a tomada de consciência, por parte das populações locais, ainda maioritariamente analfabetas, do descrédito da Monarquia e do pouco que faltava para que ela caísse. A base social de apoio ao republicanismo crescia, assim, a olhos vistos nas terras ribatejanas.

No 1.º de novembro de 1908 realizaram-se eleições em Portugal para as Câmaras Municipais e para as Juntas de Paróquia (que a República depois passaria a Juntas de Freguesia). Nessas eleições, os republicanos venceram em 12 municípios, com destaque para o de Lisboa, contando-se entre eles cinco concelhos ribatejanos[i], dois dos quais do distrito de Santarém: Almeirim e Benavente. E, embora em minoria, o PRP elegeu vereadores em outros 21 municípios, sobretudo do centro e sul do país, entre os quais seis do Ribatejo[ii], com destaque para Constância.

No que respeita às Juntas de Paróquia, no território do distrito de Santarém, os republicanos venceram as eleições do 1.º de novembro de 1908 em 15 delas, incluindo as de Constância e de Santa Margarida da Coutada no mesmo concelho[iii].

Da Câmara Municipal de Constância eleita nessa data, composta por cinco vereadores, dois eram inquestionavelmente republicanos: Manuel Luiz da Silva e José dos Santos Pinhão. Assim se compreende que, após o 5 de Outubro de 1910, ambos tenham permanecido na nova Câmara Municipal republicana, presidida por José Eugénio Nunes Godinho, enquanto os outros três vereadores foram afastados. Os dois novos elementos que entraram foram João Alves Mathias (que anos mais tarde seria secretário da Comissão Política Municipal de Abrantes do PRP[iv]) e o comerciante Manuel dos Santos Costa[v].

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A Praça, chamada Alexandre Herculano meio ano antes da República, verdadeiro centro cívico, político e económico de Constância

Sintomática também do sentimento republicano de Constância, com expressão ao nível das próprias instituições políticas e das elites que as constituíam, foi a decisão de atribuir à Praça – então designada Praça Nova –, o nome de Alexandre Herculano. O grande historiador oitocentista, falecido havia mais de trinta anos, era um liberal, partidário do municipalismo, anticlerical, adepto do casamento civil, do acesso à instrução e de outros valores muito caros ao republicanismo. Não admira, por isso, que o seu nome povoasse as placas toponímicas das ruas, avenidas e praças de todo o país a seguir à implantação da República.

Mas Constância, onde os republicanos tinham óbvia influência, antecipou-se e, por ocasião do centenário do seu nascimento, assinalado a 17 de Março de 1910, meio ano antes do 5 de Outubro, deu o nome de Alexandre Herculano ao mais belo e mais nobre dos seus espaços públicos – a Praça. A proposta, que a Câmara Municipal aprovou por unanimidade, foi apresentada por Manuel Luiz da Silva, um dos dois elementos republicanos eleitos em 1908[1]. E a Praça Alexandre Herculano, centro cívico, político e económico da vila, pelo facto de assim ser chamada, representava um voto de Constância a favor da República que não tardaria a chegar.

Sendo uma terra com tão forte pendor republicano, não admira, pois, que a notícia da implantação da República tenha sido tão calorosamente recebida em Constância e que, nos tempos que se seguiram, tanto entusiasmo e tanta expectativa tenham marcado a vida do concelho durante a I República.

[1] Sobre as circunstâncias e o significado da atribuição do nome de Alexandre Herculano à Praça de Constância, vejam-se os textos «Praça Alexandre Herculano» e «Alexandre Herculano» que publicámos no Boletim Informativo da Câmara Municipal de Constância, n.º 12, nov. / dez. 1991, p. 14-17.

[i] Moita, Aldeia Galega do Ribatejo (atual Montijo), Alcochete, Benavente e Almeirim.

[ii] Vila Franca de Xira, Cartaxo, Vila Nova da Barquinha, Constância, Abrantes e Ponte de Sor.

[iii] Veja-se o Relatório da Comissão Distrital Republicana de Santarém (1906-1908), publicado na edição de 20.08.2009 do jornal Correio do Ribatejo.

[iv] Livro de Atas das Sessões da Comissão Executiva Municipal de Constância, sessão de 27.11.1924, fls. 50 v.

[v] Livro de Atas das Sessões da Câmara Municipal de Constância, sessão extraordinária de 15.10.1910, fls. 29-29 v.

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