“Comeres Pascais”, por Armando Fernandes

Foto: DR

A Primavera rejuvenesce o revestimento dos campos, os pastos ganham húmus e altura, as árvores explodem em flores, as hortas oferecem as primícias em matéria de legumes, do Inverno ficaram (ficavam) as carnes na salgadeira, os enchidos e as compotas, um notável conjunto de produtos destinados a assinalarem convenientemente a festa pascal.

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Acrescentem-se as aves de capoeira e os ovos porque Páscoa sem folares e folarecos que tange a vitualhas não é Festa, sem esquecer as amêndoas agora acrescidas de coelhinhos comerciais a desenvolverem a indústria do ouro negro, entenda-se o chocolate.

A culinária tradicional portuguesa é profundamente influenciada pelas cozinhas de inspiração judaica e muçulmana, por isso mesmo, e porque a natureza propicia boas (nem sempre) pastagens, é a época de metermos os dentes em carnes mimosas e levá-los a insanas mastigações. Estou a referir-me aos cabritos reguilas e aos mansos cordeiros (pensem no cântico religioso) os quais nos variados preparos feitos pelas Mestras e chefes de cozinha nos concedem gratificantes prazeres palatais.

Por esta quadra de graves e dolorosas referências a Jesus Cristo também na área da gastronomia se fazem sentir enormes modificações nem sempre para melhor, disso mesmo se queixam os puristas no tocante à maneira como as delicadas carnes dos jovens caprinos e ovinos sofrem experimentações que deslustram a favor de ingredientes e condimentos abstrusos ou espúrios.

Na maior parte do território português as ditas carnes eram assadas no forno ou na forma de fritas ou em ensopado, acompanham batatas assadas, cozidas e arroz de forno, agora tostam por fora e encruam as ditas cujas na grelha e concedem-lhe como companhia oleosas batatas fritas. Porca miséria.

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O folar rico em carnes, a aletria de génese judaica, o arroz doce, o leite-creme supinamente queimado, ainda as roscas e rosquilhas integravam o naipe lambareiro de jubilosas refeições. Boa Páscoa.

Conde Vimioso

Uma parente minha exímia na arte de conseguir fumeiro de eleição ofereceu-me um salpicão de língua de porco (grande raridade) convenientemente fumado por lenha seca de carvalho. Após lenta cozedura surgiu sobre a mesa na companhia de batatas cozidas e grelos. Havia que encontrar vinho a preceito levando em linha de conta a raridade desta singular e esquisita delicadeza gastronómica.

Para minha alegria ainda encontrei uma amostra do tinto Conde Vimioso, colheita de 2015, elaborado a partir das castas Alicante Bouchet, Aragonês, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional. Escolha acertada em pleno, o vinho granadino, denso, opulento em aromas a fruta madura, polpuda, bem como alguma madeira bem casada e indícios de mineral, o palato deu conta da grande constância entre o seu corpo e a sua alma, em suma: um vinho guloso e prestigiante para a produtora e engarrafadora, a Casa Falua, de Almeirim, a chancela é vinhos TEJO. A graduação 14º suscita cautela pois é fagueiro no beber.

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