“Coisas que nem ao Papa interessam”, por Hália Santos

Foto: Mariella, Pixabay

A ‘Primeira Comunhão’ foi feita aos seis anos, depois de poucas semanas de catequese. A vela foi a coisa mais engraçada. A ‘Comunhão Solene’ aconteceu aos dez anos de idade. O pior de tudo foi o gancho no cabelo. Tudo o resto era o resultado de um processo de socialização, que nem sequer enquadramento familiar tinha. A formação religiosa, numa cidade como Braga, logo a seguir ao 25 de Abril, era algo ´natural´, mesmo para as famílias não praticantes. Que eram, convenhamos, uma minoria.

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Portanto, a vida religiosa iniciou-se a par da escola primária. Como se fosse um ritual: durante a semana ia-se à escola, o sábado era dedicado às atividades dos escuteiros (ou melhor, Guias e Escuteiros, portanto, meninas para um lado e meninos para o outro) e o domingo de manhã era para a catequese e para a missa. Não se questionava. Era assim. Mesmo que alguns miúdos tivessem a liberdade de ‘apenas’ irem à escola, nos escuteiros havia muitas atividades e isso era bom, na catequese havia temas interessantes para debater e isso era bom.

Quer dizer… na catequese havia temas interessantes para debater se houvesse abertura para tal. As miúdas e os miúdos curiosos tinham poucas possibilidades de questionar. A História de Jesus, os Princípios Cristãos e a Fé não se discutiam. Por isso, na década de 70, as crianças que tinham sempre muitas perguntas para fazer tornavam-se incómodas. E as mães (sim, as mães, nunca os pais) eram chamadas à catequese para serem repreendidas pelo comportamento dos filhos, incompreensível à luz da Igreja e de quem a representava.

Perderam-se, portanto, possíveis fiéis. Porque não houve sensibilidade para cativar quem até estava disponível para ser cativado. Sobretudo, numa idade em que tudo se absorve, como esponjas. Por isso mesmo, a falta de explicações, a falta de paciência para as dúvidas, a deliberada confusão entre curiosidade irrequieta e mau comportamento afastaram mesmo muitas crianças e jovens. Sobretudo aquelas que vinham de ambientes pouco ou nada crentes.

Esta terá sido uma geração que cresceu a ver Famílias Católicas Praticantes e Famílias Católicas Não Praticantes. Como se ir à missa fizesse de umas famílias mais Católicas do que as outras. É certo que muitos dos que vão à missa todas as semanas são verdadeiros Católicos. Não precisam de o apregoar. Conhecemo-los bem e, sendo pouco ou nada praticantes, não temos como não os respeitar. Têm uma vida coerente entre o que pensam e o que fazem. Acreditam nos princípios com que estruturam as suas vidas. Vivem a sua Fé na intimidade. Como também há muitos que fazem tudo isto sem ir à missa.

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Depois há os outros, os que só vão à missa para dar continuidade ao ritual. Fizeram o percurso do Batismo, Comunhões, Crisma e Casamento pela Igreja e acham que, talvez para ganhar o Céu, devem continuar a ir à missa todas as semanas, mesmo que a sua prática de vida nada tenha a ver com os princípios Católicos. Esta falsa religiosidade não interessa a ninguém. Nem ao Papa. Literalmente! “Quantas vezes vemos o escândalo dessas pessoas que passam o dia na Igreja, ou que lá vão todos os dias, e depois vivem a odiar ou a falar mal dos outros?” – pergunta o Papa Francisco. E acrescenta que, se assim é, o melhor é nem irem à Igreja. “Mas se vais à Igreja, então vive como filho, como irmão, dá um verdadeiro exemplo.” E, 40 anos depois, finalmente surge um discurso, bem de dentro da Igreja Católica, que cativa aqueles que por ela foram afastados, numa época em que os vestidos das comunhões para mostrar aos outros valiam muito mais do que as curiosidades dos miúdos e das miúdas.

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