“Celebrar o Dia Mundial da Floresta e a Primavera”, por José Alho

Este mês vai ser, uma vez mais, comemorado no próximo 21 de Março o Dia Mundial da Floresta, a efeméride criada pela FAO- Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura em 1971, fazendo coincidir a data com o início da Primavera no hemisfério norte.

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Vamos encontrar a origem desta celebração no Estado Norte-Americano do Nebraska onde em 10 de Abril de 1872 se comemorou o “Arbor Day” pela ação militante do jornalista Julius Sterling Morton resultando na plantação simbólica de árvores pela população, curiosamente no mesmo ano em que também nos Estados Unidos da América foi criado o Parque Nacional de Yellowstone, o primeiro a ser criado em termos mundiais.

Em Portugal vamos encontrar diversos registos de comemorações entre 1907 e 1917 com a designação de “Festa da Árvore”, ou designações similares, com o mesmo objetivo de sensibilização para a proteção das árvores, e em 1970 no âmbito das comemorações do Ano Europeu da Conservação da natureza a que o nosso país aderiu também se celebrou o Dia da Árvore no mês de Dezembro.

"Celebrar o Dia Mundial da Floresta e a Primavera", por José Alho

Esta celebração tem vindo a colher uma significativa adesão no nosso País, nos programas de educação formal mas sobretudo nos programas de educação ambiental não formal promovidos pelas autarquias e outras entidades aproveitando a feliz coincidência do começo do novo ciclo primaveril e da celebração do Dia Mundial da Poesia.

Esta capacidade de mobilização e a forte participação são bem representativas da evolução da consciência ambiental das comunidades.

Nuno Gomes Oliveira, histórico diretor do Parque Biológico de Gaia, instituição de referência no domínio da educação ambiental no nosso País, alertava há poucos dias, na dinâmica das redes sociais, para que não se plantassem árvores no seu dia mundial e a esse apelo quero dar expressão nesta crónica, por considerar que esse é um pedido que faz todo o sentido.

Já aqui referi que muitas das ações simbólicas, atualmente, despoletadas nas comemorações de 21 de Março redundam em insucesso, em virtude do aumento significativo das temperaturas e da redução da precipitação que se faz sentir com a antecipação da época quente de Verão, acentuadas pelo efeito já percetível das alterações climáticas.

Ao diminuírem significativamente as probabilidades de sucesso dessas iniciativas relacionadas com a sensibilização para a defesa da floresta no nosso País vemos frustradas as boas intenções que estavam na sua génese, contribuindo para uma desmotivação dos agentes e cidadãos envolvidos

A comemoração do Dia Mundial da Floresta contribui de forma simbólica para chamar a atenção de todos para a necessidade de olhar para a importância da nossa Floresta no sentido de inverter o estado de esquecimento a que têm estado votada e lançar ações que permitam relançar a sua valorização junto das comunidades, mas que sejam coerentes e sobretudo consequentes apelando à criatividade e inovação.

"Celebrar o Dia Mundial da Floresta e a Primavera", por José Alho

As plantações podem ficar para 23 de Novembro, quando na Península Ibérica se comemora o Dia da Floresta Autóctone que foi estabelecido para promover a divulgação da importância económica e ambiental da conservação das nossas florestas naturais e a necessidade de as salvaguardar da destruição. Nessa altura do ano as condições climatéricas são mais favoráveis para se proceder à sementeira ou plantação de árvores em alternativa ao 21 de Março:

Abordar o Dia Mundial da Floresta na lógica da sensibilização para a prevenção dos incêndios e do fenómeno das alterações climáticas a par com o seu significado para a nossa qualidade de vida para a biodiversidade, o solo e os recursos hídricos continua a ser uma necessidade imperiosa junto das crianças, mas também junto de todos os cidadãos.

Adquirimos uma nova forma de olhar pela nossa floresta nativa que não têm de se esgotar num tipo de ação num dia dedicado pelo calendário, em contraciclo com as dinâmicas naturais do nosso País e desta região do sul da Europa e que pode ser substituída por outras iniciativas e por outros contributos de cidadania como os gestos simples de cuidar ou evocar, em dia também dedicado à poesia, como faz António Gedeão no seu Poema das Árvores:

“As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,

e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.

Os animais são outra coisa.

Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,

fazem amor e ódio, e vão à vida

como se nada fosse.

As árvores, não.

Solitárias, as árvores

exauram terra e sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;

com o vento soltam ais como se suspirassem;

e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,

A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós

E entretanto dar flores.”

Não podemos ficar à margem dessa missão, pois os nossos gestos por mais simples que sejam farão a diferença!

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José Manuel Pereira Alho
Nasceu em 1961 em Ourém onde reside.
Biólogo, desempenhou até janeiro de 2016 as funções de Adjunto da Presidente da Câmara Municipal de Abrantes. Foi nomeado a 22 de janeiro de 2016 como vogal do Conselho de Administração da Fundação INATEL.
Preside à Assembleia Geral do Centro de Ciência Viva do Alviela.
Exerceu cargos de Diretor do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, Coordenador da Reserva Natural do Paúl do Boquilobo, Coordenador do Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire, Diretor-Adjunto do Departamento de Gestão de Áreas Classificadas do Litoral de Lisboa e Oeste, Diretor Regional das Florestas de Lisboa e Vale do Tejo na Autoridade Florestal Nacional e Presidente do IPAMB – Instituto de Promoção Ambiental.
Manteve atividade profissional como professor convidado na ESTG, no Instituto Politécnico de Leiria e no Instituto Politécnico de Tomar a par com a actividade de Formador.
Membro da Ordem dos Biólogos onde desempenhou cargos na Direcção Nacional e no Conselho Profissional e Deontológico, também integra a Sociedade de Ética Ambiental.
Participa com regularidade em Conferências e Palestras como orador convidado, tem sido membro de diversas comissões e grupos de trabalho de foro consultivo ou de acompanhamento na área governamental e tem mantido alguma actividade editorial na temática do Ambiente.
Foi ativista e dirigente da Quercus tendo sido Presidente do Núcleo Regional da Estremadura e Ribatejo e Vice-Presidente da Direcção Nacional.
Presidiu à Direção Nacional da Liga para a Protecção da Natureza.
Foi membro da Comissão Regional de Turismo do Ribatejo e do Conselho de Administração da ADIRN.
Desempenhou funções autárquicas como membro da Assembleia Municipal de Ourém, Vereador e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ourém, Presidente do Conselho de Administração da Ambiourem, Centro de Negócios de Ourém e Ouremviva.
É cronista regular no jornal digital mediotejo.net.

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