“Celebrar Camões em Constância”, por António Matias Coelho

Pomonas Camonianas Foto: Câmara Municipal de Constância

10 de Junho é Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Mas em Constância assume-se, em primeira linha e sobretudo, como Dia de Camões. A razão é óbvia, tão antiga e tão intensa é a relação afetiva da vila e do concelho com a memória do épico.

PUB

Em cada ano, pelo 10 de Junho, Constância celebra Camões com as Pomonas Camonianas. Mas este ano está a ser verdadeiramente especial em termos de dinâmica e de obras realizadas e em curso no Jardim-Horto e de espectativas quanto ao processo com vista à abertura da Casa-Memória. Há, por isso, redobradas razões para se fazer a festa.

A celebração do 10 de Junho em Constância remonta a 1981, quando o Presidente da República, general Ramalho Eanes, inaugurou o Monumento a Camões da autoria do mestre Lagoa Henriques. A partir de então, todos os anos nessa data se passou a homenagear o poeta naquele lugar, com a deposição de coroas de flores pelos presidentes da Câmara Municipal de Constância e da Associação Casa-Memória de Camões, seguida dos discursos de ambos.

A partir de 1994 as celebrações assumiram outra dimensão, outra participação comunitária e outra visibilidade pública com a realização das Pomonas Camonianas, criação da jornalista e camonista Manuela de Azevedo, fundadora e então presidente da Associação, à qual o Município e a comunidade, em especial a comunidade educativa, deram depois corpo e seguimento.

A ideia é simples e consiste, no essencial, em prolongar pelo 10 de Junho, ali a dois passos, o que o Jardim-Horto faz durante o ano inteiro: às plantas referidas por Camões na sua obra que o visitante pode apreciar no Jardim-Horto, juntam-se as flores e os frutos a que o poeta faz menção, invocando Pomona, a divindade romana dos frutos e dos jardins, numa exposição-venda em ambiente de festa que traz aos nossos dias o ambiente quinhentista em que Camões viveu e por Punhete (agora Constância) terá passado.

PUB

Recria-se o espaço do mercado, com as coloridas bancas e os animados vendedores que apresentam cultura em forma de flores e de frutos. São sobretudo alunos, educadoras dos jardins de infância e professores das escolas, mais os voluntários de associações e outras instituições do concelho, crianças, jovens e adultos que se juntam para desempenhar inúmeros papéis e assumirem diferentes estatutos sociais, da mais alta nobreza e mais reverenciada clerezia até à ignota gente do povo. E Camões, ele próprio, claro está.

Durante vários dias – este ano serão três: 8, 9 e 10 de junho – há muita animação em toda a zona ribeirinha do Zêzere, no Jardim-Horto de Camões e em outras partes da vila: ouve-se música renascentista, dança-se, declama-se, festeja-se. Celebra-se Camões na mais camoniana das vilas portuguesas.

Danças quinhentistas pelas crianças dos jardins de infância do concelho. Foto: Câmara Municipal de Constância

Para além das razões de celebração que são permanentes e justificam a renovação das Pomonas e dos festejos em cada 10 de Junho, desta vez há motivos especiais de alegria e de otimismo.

Apesar das inúmeras e imensas dificuldades com que vive e diariamente se debate, a Associação Casa-Memória de Camões, com os apoios de instituições e de pessoas que tem vindo a congregar, conseguiu levar a cabo duas obras da maior importância para a reabilitação e renovação do Jardim-Horto de Camões: a construção de um novo edifício de entrada, mais amplo e mais funcional para receber os visitantes, e o restauro do Pavilhão de Macau, obra singular erguida há cerca de 30 anos e que estava a precisar de uma intervenção urgente, profunda e complexa.

Na parede exterior do edifício de entrada passa a figurar a Rota de Camões pelo Mundo (1553-1570), trabalho generoso da arquiteta Dália Lacerda-Machado, que muito contribui para a valorização de todo aquele espaço. E junto ao Pavilhão de Macau, cujo lago será recuperado a seguir, será instalada uma cascata, prevista no projeto inicial do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles mas que nunca chegou a ser concretizada.

Entretanto, o Jardim-Horto está outro, graças às diversas intervenções de que beneficiou recentemente, com destaque para a renovação dos canteiros e das plantas, para a substituição das placas identificativas das espécies e para a construção do xadrez ao ar livre que Manuela de Azevedo tanto gostaria de ter visto e que, no ano da sua morte (2017), foi implantado em sua homenagem, como o monumento que evoca a sua presença e a sua obra em Constância, colocado junto à oliveira da entrada onde gostava de passar, sentada à sombra dela, as tardes de maior calor.

Tabuleiro de xadrez ao ar livre no Jardim-Horto de Camões. Foto: DR

Por outro lado, o processo com vista à abertura ao público, num futuro que esperamos próximo, da Casa-Memória de Camões, teve, nos últimos meses, desenvolvimentos consideráveis e animadores. Em fevereiro a CIMT – Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo declarou, por unanimidade dos 13 municípios que a integram, a Casa-Memória de Camões em Constância como de interesse regional pela sua relevância cultural, patrimonial, socioeconómica e turística.

Em março, a Secretária de Estado da Cultura recebeu em audiência os presidentes da Associação Casa-Memória de Camões e da Câmara Municipal de Constância, tendo recebido documentos estratégicos entregues pela Associação relativos à situação em que se encontra a Casa-Memória e ao que se pretende que ela venha a ser.

Em maio estiveram na Casa-Memória técnicos da Direção-Geral do Património Cultural e da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas que se inteiraram das condições existentes e dos objetivos da Associação com vista à produção de um parecer técnico a submeter à apreciação superior.

Nas próximas semanas aguarda-se a vinda da própria Secretária de Estado da Cultura, convidada a visitar a Casa-Memória e que prontamente prometeu fazê-lo. Sabendo que estes processos não são fáceis, nem simples, nem rápidos, o que se avançou durante esta metade do ano permite perspetivar o futuro com mais otimismo e maior esperança.

Ao celebrarmos Camões em Constância neste 10 de Junho estamos a honrar a memória dos que, antes de nós, se bateram por esta causa – com justificado destaque para o médico constanciense Dr. Adriano Burguete (1872-1956) e para a jornalista Manuela de Azevedo (1911-2017) – e a consolidar a profunda relação de afeto de Constância com a memória do épico.

As Pomonas Camonianas e tudo o que elas apresentam e representam são parte importante deste trabalho de muitos anos que, de uma forma continuada e coerente, vem sendo feito em Constância, honrando Camões e servindo Portugal.

PUB
PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here