“Castanhas”, por Armando Fernandes

Foto: DR

O fadista Carlos do Carmo efectuou a festa de despedida dos palcos há poucos dias. A razão residiu no facto de ter acedido ao estatuto de octogenário. Por prudência, o artista saiu pela porta alta. A manter-se, acabaria a mandarem-no sair, transpondo a porta baixa, dado arrastar-se na ribalta a soluçar as canções, entre elas a célebre a exaltar as castanhas quentes e boas.

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A fruta foi farinha essencial à confecção de um pão pesado, adocicado, numa mistura envolvendo centeio, sem embargo de a referida farinha casar com outras em épocas de prolongada penúria que pontua a nossa história. A castanha é um alimento primacial nas terras repletas de soutos, tendo chegado a ser moeda na Córsega, para lá de antes da domesticação do fogo integrar o triunvirato do cru, podre e do fermentado.

Depois do homem aprender a criar e apagar o fogo conforme as suas necessidades de tratar os alimentos, iluminar as cavernas e expulsar (despejando) os moradores indesejáveis, sempre que lhe dava na real gana fazia uma fogueira, fosse na ânsia de conceber armas de defesa, fosse no sentido de obter maior conforto. As castanhas passaram a consumirem-se assadas, cozidas, fritas, grelhadas, guisadas e ao vapor transformando-se em comeres de substância, de acompanhamento e lambisco especialmente no que tange a aperitivos doces e salgados, compotas e bolos, pudins e demais criações de pastelaria.

Se nos dermos ao trabalho de compilar topónimos em Portugal onde surgem termos a indiciarem castanhas verificamos quão importante foi no plano alimentar no terrunho lusitano, se um homem após comer uma dúzia de castanhas: «um palmo de madeira chega», os remediados, pobres e pobres de pedir comiam-nas até fartar, não se importando com o estalejar de ventosidades, os estouros provocavam gargalhadas. Um livro do século XVIII em língua espanhola adverte os leitores do perigo da flatulência por causa do abuso na sua mastigação.

Há dias comi uma castanha, soube-me bem, enquanto me deliciava lembrei sopas de castanhas, doce a sopa de castanhas secas e leite, canjas, caldos grossos de modo a colher ficar erecta no meio da malga, a acompanharem e a rechearem peixes e carnes porcinas, de aves (gansos e perus), de caça de pêlo e pena, maior e menor, cremes, pudins, purés,inseridas em  toda a casta de doçaria como acima referi, as pingonas precisam de muita chuva o que não tem acontecido nos últimos anos.

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Apesar das maleitas e pragas, os castanheiros destacam-se (verdes e amarelos na floração) nos montes beirões, alentejanos (Marvão) e sobretudo transmontanos, na altura (Outono) principiam a cair sobre as folhas castanhas com laivos de verdura, os assadores recebem o lume crepitante, o vento fanfa nas telhas, o ambiente é propício a castanhas e vinho.

Que vinho? Tinto, bom e ribatejano do selo TEJO. Manda a prudência eximir-me a indicar referências. O Ribatejo está a produzir belos e bons vinhos. O leitor desfrute dos produtos outonais, cuide-se caso aceda à tentação de apreciar em demasia as castanhas. Porquê os vizinhos podem ouvir!

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