“Casório”, por Berta Silva Lopes

Foto: SplitShire, Pixabay

Nas vésperas do casório foram sacrificados o porco, a cabra e as galinhas. Montaram-se as mesas e os bancos foram trazidos para a rua. Voltaram a ser lavados os pratos, travessas, copos e talheres, tudo às centenas.

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Fritaram-se os rissóis, croquetes e pastéis, pôs-se o bacalhau a demolhar, acondicionaram-se os alimentos nas arcas refrigeradoras, os vinhos e sumos foram postos a refrescar, foi revista a lista completa da parafernália necessária para servir tanta gente.

Na sexta-feira já o dia era de festa. Tenda montada, presunto com fartura na mesa, pão a sair do forno a lenha durante toda a tarde, bebida à discrição para todos quantos por ali andam, na cozinha e fora dela.

Os ovos foram oferecidos nas últimas semanas pelas vizinhas, que também aparecem agora para descascar batatas, bater claras em castelo, preparar as formas para as tigeladas, barrar bolos, fazer o arroz doce, seguir as ordens da cozinheira.

Dentro da tenda mesas corridas de uma ponta à outra, bancos devidamente alinhados e florista a trabalhar nos últimos retoques. As meninas solteiras partiram há pouco com os fretes à cabeça, cestos de verga cheios de bolos, carne e outras ofertas, cortesia dos pais dos noivos para entregar em casa dos padrinhos.

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Os convidados que moram longe começam a chegar à aldeia e depressa são acolhidos nas casas dos familiares da noiva. Confessam-se curiosos para ver o que se segue, impressionados que estão com este casamento à moda antiga.

Quem me conhece sabe bem o quanto gosto de ‘ajuntamentos ciganos’, não apenas de os organizar mas sobretudo do espírito que os caracteriza. Foram assim baptizados os encontros que juntam os meus amigos do tempo da escola primária, os do tempo do ensino superior, a minha grande família paterna.

Grande parte deles assistiu há precisamente 12 anos ao casamento atabalhoadamente recordado nesta crónica, o meu. Muitos ainda hoje relembram esses dias quentes de Setembro em que houve festa na aldeia durante praticamente uma semana inteira.

Findo o casamento, quem pôde voltou a juntar-se à família dos noivos nas tarefas de limpar o espaço, arrumar a loiça, as mesas e os bancos, esvaziar arcas e armários, distribuir bolos e fruta e tantas outras coisas que ainda sobraram por amigos e familiares.

Muitos vestiram o avental e serviram à mesa, ajudaram na cozinha, quiseram reviver tradições de antigamente há muito desprezadas por quem prefere uma festa chave-na-mão num qualquer restaurante, que até o casar já passou de moda.

No meu casamento houve quem tivesse interrompido as férias em Espanha porque alguém que estava na boda lhe ligou e disse para vir, porque ali cheirava a eucalipto. E cheirava, e não há melhor. Por mim, voltava já a juntar a ‘ciganada’ toda outra vez e siga a festa. Vou ligar aos meus padrinhos para ver se podem repetir o ‘espalhado’* de há 12 anos.

* Lançamento no adro da igreja de rebuçados e outras guloseimas aos convidados, oferta dos padrinhos.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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