“Carnes tenras”, por Armando Fernandes

Não vá o leitor ser acometido de luxuriosos pensamentos a concederem plenitude aos subentendidos ou escondidos na conhecida expressão: «a carne é fraca», esta crónica é restringida à consumição de carnes tenras, mas mortas. Quero dizer o quê?

Pretendo dizer quão cobiçosas são as carnes frescas, são e tenras, desprovidas de artifícios enganadores e até capazes de colocarem em risco a saúde das pessoas quando sofrem tratamentos de molde a prolongar a sua sapidez e tenrura. Como sabemos os mixordeiros desde há séculos esforçam-se no sentido de apresentarem e servirem gato por lebre, isto é: carne em mau estado por carne de estalo, boa, debaixo das várias cozeduras em uso.

Recentemente descobriu-se no Brasil gigantesca fraude consubstanciada em carne desprovida de qualidade imersa em aditivos conservantes de molde a prolongar o seu viço e desta forma os consumidores serem enganados. As autoridades brasileiras deram a conhecer a vergonhosa marosca provocando intensos clamores nos meios económicos pois as exportações de carne de gado vacum é extremamente importante no nicho das exportações daquele país em feroz competição com o Uruguai e Argentina, no tocante a esse produto.

Apesar das campanhas dietéticas avisando dos riscos contraídos devido ao continuado regime alimentar baseado na absorção de carnes vermelhas frescas, o seu especial sabor e a sua múltipla aplicação culinária levam à predilecção por elas, dando substância ao tal anexim – a carne é fraca – quando a mesma é tenra, sem osso e desprovida de veios e durezas acompanhantes.

O sucesso de restaurantes especializados na preparação de carnes tenras é global, mesmo os meninos de pouca idade sabem o significado gustativo de hambúrgueres, bifes, bitoques, lombelos, já os adultos acrescentam ao rol outras designações e mesmo os vegetarianos já ouviram falar em bifanas, costeletas e pregos.

O filósofo Roland Barthes escreveu um ensaio a destacar as razões da aderência das crianças à comida rápida comercializada debaixo da designação de fast-food, outros pensadores e investigadores não se cansam de publicar as suas indagações, certezas e conclusões acerca do fascínio pela carne em detrimento do peixe e dos vegetais. Será porque no início da génese, formação e consolidação o Homem não sabendo dominar o fogo comia apenas o cru, o fermentado e o podre? Será porque nesse recuado tempo o Homem imitava os predadores aproveitando os restos de carne inseridos nas carcaças abandonadas pelos animais de grande porte? Será porque esses mesmos restos às vezes sofriam os efeitos do acidental fogo proveniente de incêndios espontâneos concedendo aos despojos especial sabor?

Não continuo a formular interrogações, as inseridas nesta crónica, julgo eu, são passíveis de levar o leitor a reflectir sobre as razões de biliões de pessoas nutrirem grande apetência pela carne, especialmente a tenra.

Sim, é a carne fornecedora de energias, também outras matérias-primas, só que… um tassalho de carne somente polvilhado por alguns grãos de sal e passado levemente pelas brasas a exalar penetrante aroma faz salivar quem o freme nas narinas e não tarda a fazer penetrar os caninos naquela suculência, em milhentos locais conhecida por posta.

Há milhares de anos o genial Homero escreveu duas obras-primas da cultura Ocidental, a Ilíada e a Odisseia, nesses dois baluartes literários encontramos abundantes referências às carnes frescas de animais acabados de matar, sendo de imediato assadas nas brasas. Eis as tão celebradas postas que o nosso chauvinismo as considera património desta e daquela localidade. Bom apetite!

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