“Campelas de São João”, por Berta Silva Lopes

É uma empreitada que exige tempo, talento e dedicação, mas ainda assim não há por estes dias em Queixoperra criança alguma que não tenha a sua campela. Mais ou menos compostas, em nenhuma falta a murta nem a macela, que sem elas não se pode dizer que a coroa seja uma verdadeira campela de São João.

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(Interrompo a crónica para dizer que não consegui saber o nome correto da planta acima referida como macela – na minha aldeia conhecida por são joão –, nem mesmo após ter pedido ajuda ao Professor António Bagão Félix, autor dos livros Trinta Árvores em Discurso Direto e Raízes de Vida, cuja leitura recomendo muitíssimo, e a pessoa que conheço que mais sabe sobre botânica).

As campelas que saem das mãos da minha mãe, singelas e imaculadas, lindas que só visto, perfeitas na sequência de plantas (murta, cravos, manjerona, são joão, pampilhos, alfazema), levam-me sempre de volta ao junho mágico da minha infância, nostalgia boa onde não cabem dores de cabeça nem outras chatices dignas de lembrança.

De ralações maiores relacionadas com a saúde, dizem os antigos, livrei-me eu graças a São João, o santo popular mais celebrado na minha aldeia. Então, tal como agora, os mais velhos acreditam que usar a campela oferece proteção contra dores de cabeça e que saltar a famosa fogueira, ateada na véspera do Dia de São João em todos os casais, becos e ruas de Queixoperra, afasta maleitas várias.

Na minha meninice, do Cimo da Bica ao Porto d’ Horta, os vizinhos saiam à rua e todos saltavam a fogueira, alimentada constantemente com a macela, o rosmaninho e o alecrim recolhidos dos montes nas semanas anteriores. Antecipar qual seria o grupo capaz de armazenar mais plantas e, portanto, atear a fogueira maior tinha estatuto (saudável) de competição.

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As crianças eram as primeiras a saltar, ainda com as labaredas rentes ao chão, e à medida que a fogueira ia crescendo assim crescia a idade dos participantes. Compareciam todos, novos e velhos, não fosse o diabo tecê-las. Ninguém queria chamar sobre si maldições divinas.

Há pouco assaltou-me uma enxaqueca demoníaca, e foi por causa dela que me lembrei destes rituais, das campelas e fogueiras, das faúlhas escalando a escuridão transportando consigo desejos de saúde e sorte, do céu estrelado e do prenúncio de orvalhada e, sobretudo, dos cheiros tantos e indescritíveis daqueles anos.

Quem como eu teve a sorte de crescer numa aldeia, lugar fértil onde não nascem apenas plantas viçosas e saudáveis, cultivam-se igualmente ritos e tradições antigas, concordará comigo: são (quase sempre) os cheiros que nos levam pela mão de volta à nossa infância.

Ainda ontem me perguntaram a idade, hoje diria que tenho seis. Pois se na cabeça seguro a campela feita com carinho pela minha mãe e estou prestes a saltar a fogueira de São João, tenho seis. Pois se estou na aldeia e cheira tão bem, tenho seis. Pois se não sei o que são dores de cabeça, nem quaisquer outras (felizmente), tenho seis.

E com seis anos, o que poderemos nós ser senão felizes?

 

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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