“Camões em Constância, um diamante por lapidar”, por António Matias Coelho

Escultura de Camões, em Constância Foto: António Matias Coelho

Como em 2016, a Associação Casa-Memória de Camões em Constância viveu de novo, neste final de ano, uma fase de dificuldades para assegurar a substituição da sua Direção após o anúncio, reiterado, da intenção de deixar o cargo por parte do presidente – eu próprio – e da vice-presidente, a Dr.ª Ana Maria Dias. Apenas a tesoureira, Dr.ª Maria Manuela Arsénio, manifestou disponibilidade para continuar mas na condição de ser no mesmo cargo que ocupou no mandato agora terminado.

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Na Assembleia Geral eleitoral, realizada em 22 de dezembro, não surgiu qualquer lista candidata aos órgãos sociais para o próximo triénio, nem ninguém se perfilou no sentido de vir a organizar uma. Como aconteceu há três anos, o espectro de uma crise diretiva voltou a pairar sobre a Associação, fundada há 40 anos pela jornalista e camonista Manuela de Azevedo, recentemente falecida.

"Camões em Constância, um diamante por lapidar", por António Matias Coelho
A obra de Manuela de Azevedo em Constância tem de prosseguir e de ser completada | Foto: Câmara Municipal de Lisboa

Os objetivos da Associação, o trabalho já efetuado e o que falta fazer para os conseguir concretizar são reconhecidamente importantes, não apenas para Constância mas para a região do Médio Tejo e para o conjunto do país, exigindo uma Associação dinâmica, com uma Direção determinada e atuante que prossiga e aprofunde as realizações alcançadas até aqui.

Foi esse sentimento e a consciência das minhas responsabilidades – por ser um dos associados mais antigos e por durante tantos anos ter trabalhado com a fundadora, com quem estabeleci uma sólida amizade – que, face à situação criada, me levaram a reconsiderar a posição anteriormente assumida e a disponibilizar-me para dirigir a Associação num novo mandato de três anos que espero seja, definitivamente, o último.

Assim, está formada uma lista candidata à Direção, constituída por mim, pelo major António Luís Mendes como vice-presidente e pela Dr.ª Maria Manuela Arsénio como tesoureira, mantendo-se, no essencial, a composição dos outros dois órgãos sociais.

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Recebendo a confiança da Assembleia Geral, em reunião a realizar proximamente, a Associação ficará dotada das condições necessárias ao seu normal funcionamento, com uma Direção reforçada e pronta para o imenso e complexo trabalho que tem pela frente.

Esse trabalho desenvolve-se sobretudo em duas frentes: a beneficiação e a melhoria do funcionamento do Jardim-Horto de Camões e o processo com vista à abertura ao público da Casa-Memória de Camões.

O Jardim-Horto foi reabilitado nos últimos anos no que respeita às espécies vegetais e vai agora beneficiar da construção de um novo edifício de entrada que lhe mudará a face e possibilitará melhores condições de acolhimento aos visitantes, de exposição de materiais para venda e de trabalho da funcionária.

E, por outro lado, como espero, proceder-se-á ao restauro do Pavilhão de Macau e zona envolvente, uma obra tecnicamente especializada e urgente face ao estado de degradação a que o imóvel chegou ao cabo de 30 anos de existência sem qualquer intervenção de vulto.

Homenagem viva a Luís de Camões, através das plantas por ele referidas na sua obra, o Jardim-Horto é justamente considerado o mais vivo e singular monumento erguido no mundo a um poeta. Uma vez realizadas as obras referidas, que ascendem a mais de 60 000 euros, ficará, desejavelmente durante este ano que agora começa, ainda mais interessante e digno da memória de Camões que lhe compete honrar.

"Camões em Constância, um diamante por lapidar", por António Matias Coelho
Casa-Memória de Camões em Constância: a Casa de Camões que Portugal não tem e deve e pode ter | Foto: DR

A Casa-Memória de Camões, erguida sobre as ruínas, classificadas como imóvel de interesse público, da casa quinhentista que o Povo diz ter servido de morada ao poeta quando da sua permanência em Punhete (agora Constância), está construída há uma dúzia de anos, mas ainda não foi aberta ao público por não dispor dos conteúdos necessários para o efeito de modo a fazer dela a Casa de Camões, digna do nosso épico, que Portugal não tem e deve e pode ter.

É necessário juntar vontades e ações, de diferentes procedências e a vários níveis, de modo a conseguir a concretização do objetivo, sonhado por Manuela de Azevedo e a que vimos dando sequência.

Há que sensibilizar os responsáveis políticos e as entidades com capacidade financeira para este projeto de ter no centro do país, num lugar servido por excelentes acessibilidades e numa vila como Constância que tem com a memória de Camões uma relação como nenhuma outra terra em Portugal, uma Casa-Memória dedicada ao nosso épico e que dignifique também a universalidade da língua e da cultura portuguesas.

Esse é um esforço que terá de ser coletivo: da Associação, evidentemente, mas também da Câmara Municipal de Constância, da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, do Estado Português, em especial através do Ministério da Cultura, e de diversas entidades, como fundações, institutos, empresas e personalidades.

Mas que será sem dúvida, a prazo que espero não muito longo, compensado não apenas em termos estritamente culturais mas também enquanto centro de interesse e polo de desenvolvimento socioeconómico e turístico que beneficiará não apenas Constância mas a região do Médio Tejo e o país no seu conjunto.

Como tenho repetidamente afirmado, Camões em Constância é, em múltiplos aspetos, um diamante quase completamente por lapidar, do qual nem dez por cento estão até ao momento aproveitados.

Os próximos tempos serão decisivos para fazer andar um conjunto de investimentos e de diligências que permitam concretizar os objetivos da Associação, que Manuela de Azevedo sonhou e aos quais dedicou metade da sua longa vida e temos nós agora a responsabilidade e a honra de levar por diante e de tornar realidade.

Por Camões, por Constância, pelo Médio Tejo e por Portugal.

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