“Camões de Constância é de todo o Médio Tejo”, por António Matias Coelho

Foto: DR

A causa de Camões em Constância acaba de ganhar um importante apoio e um acrescido incentivo. Na semana passada a CIMT – Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo declarou a Casa-Memória de Camões em Constância de interesse regional, enquanto bem patrimonial e cultural que pode (e deve) contribuir decisivamente para o desenvolvimento socioeconómico e turístico do Médio Tejo no seu conjunto.

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Mas para isso, como é óbvio, é preciso que a Casa-Memória abra ao público e desenvolva um programa regular, rico e diversificado de atividades que cativem os diferentes públicos que é seu propósito servir. Foi, aliás, com esse intuito que o Conselho Intermunicipal da CIMT, reunido em 28 de fevereiro, deliberou declarar o interesse regional da Casa-Memória.

Há muito que a Direção da Associação Casa-Memória de Camões em Constância, a que presido, se batia para conseguir que esta declaração de interesse regional se concretizasse. A questão foi colocada pela primeira vez na Assembleia Geral da Associação realizada em dezembro de 2017, já lá vai bem mais de um ano. A declaração de interesse regional ocorreu agora e vem muito a propósito, numa fase de grande atividade da Associação e num momento em que decorrem importantes diligências a vários níveis, e em especial junto do Ministério da Cultura, com o objetivo de, 13 anos passados sobre o fim da construção da Casa, se reunirem as condições que permitam a sua abertura ao público com a dignidade que a memória de Camões justifica e exige.

A declaração da CIMT é especialmente significativa pelo facto de ter sido tomada pela unanimidade dos 13 municípios que integram a Comunidade Intermunicipal. Não se trata, portanto, de uma simples declaração de cúpula, mas de uma deliberação assumida conjunta e solidariamente por todos os concelhos que constituem o território da nossa região. Ao declarar o seu interesse regional, o órgão supramunicipal vem assumir que a Casa-Memória de Camões é importante não apenas para Constância mas para todo o Médio Tejo.

E, como declarou na ocasião a nova Presidente da CIMT, citada pelo mediotejo.net, «a CIMT está disponível para ajudar (…) e ir onde for necessário, temos de ser solidários uns com os outros, porque aquilo que é bom para um concelho é bom para os concelhos à volta e reconhecemos aqui por unanimidade a importância daquele ativo que temos no território».

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Neste processo foi fundamental a ação colaborativa da Associação Casa-Memória de Camões e da Câmara Municipal de Constância, indispensável para afirmar a importância e a relevância local, ponto de partida para se chegar ao reconhecimento, no degrau acima, do interesse regional. O patamar superior – o de nível nacional – fica, assim, como espero, menos distante e mais acessível.

Casa-Memória de Camões em Constância. Construída há 13 anos, continua por inaugurar num país que não tem uma Casa de Camões. Foto: DR

Fruto do querer e do batalhar da grande amiga de Constância e reconhecida jornalista, camonista e mulher de letras Manuela de Azevedo, falecida em 2016, que dedicou metade da sua longa vida a esta causa, a Casa-Memória de Camões, erguida sobre as ruínas do edifício quinhentista que o povo diz ter acolhido o poeta durante a sua estadia em Punhete (atual Constância), foi sendo construída num processo muito lento e difícil, ao longo de quase 20 anos e à medida dos apoios financeiros que a sua promotora ia conseguindo reunir.

Concluída em 2006, nunca chegou a ser inaugurada porque, embora conte com um importante conjunto de peças legadas por Manuela de Azevedo em vida e pela Família após a morte, não dispõe de conteúdos bastantes, significativos e organizados para poder falar, ao país e ao mundo, de Luís de Camões, da sua época, da sua relação com Constância, da sua obra e da universalidade da língua e da cultura portuguesas. Porque é isso, exatamente, que a Associação pretende: que a Casa-Memória seja a Casa de Camões que Portugal não tem e deveria ter. E que não tem, tendo: porque a Casa existe, nova, ampla e funcional, desenvolvendo-se em cinco pisos pela colina acima, do Tejo até à Rua Luís de Camões que percorre o centro histórico de Constância.

Trata-se de um edifício com excelentes condições, projetado pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa, que tem estado subaproveitado, numa situação de chocante desperdício num país com as características e as carências do nosso. É esse edifício que a Associação, empenhada em dar-lhe vida mas não tendo recursos humanos, nem capacidade técnica nem meios financeiros para isso, há já três anos vem disponibilizando ao Estado português com o intuito de lhe ser dada dimensão nacional. O processo nesse sentido tem conhecido várias vicissitudes, com diversos e significativos apoios de diferentes quadrantes, mas também com longos tempos de espera e algumas promessas que ficaram por cumprir.

A declaração de interesse regional por parte da CIMT, agora tomada, constitui um importante passo em frente nesta caminhada em que nos sentimos mais acompanhados e representa, sem dúvida, um apoio de peso a esta causa. Porque, a partir de agora, a abertura ao público da Casa-Memória de Camões deixou de ser um assunto apenas de Constância para se assumir como um objetivo que interessa a toda a região do Médio Tejo.

Quando, a meio deste mês de março, tiver oportunidade de expor a situação à senhora Ministra da Cultura, em audiência que nos concedeu conjuntamente, a mim enquanto Presidente da Associação Casa-Memória de Camões e ao Presidente da Câmara Municipal de Constância, irei sentir que não seremos só nós os dois que estaremos a bater-nos por esta causa: há 13 concelhos que pensam como nós, que têm o mesmo interesse geral e que declaradamente nos apoiam. Seremos, afinal, apenas os porta-vozes de uma região inteira.

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