“Calceteiro, o artista dos tapetes de pedra”, por António Matias Coelho

Calceteiro a trabalhar | Foto: Junta de Freguesia de Alqueidão da Serra

Na pressa do dia-a-dia, tão atarefados com as voltas da nossa vida, nem damos muitas vezes pelo chão onde pomos os pés.

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Branco e preto, preto e branco, em cubozinhos de pedra, os passeios são tapetes a decorar-nos o andar. E quem os fez é artista, obreiro de obra que se pisa na correria do tempo.

De cócoras, sempre de cócoras, talhando com talhadeira as pedras na perfeição e assentando com rigor a calçada que calcamos, o calceteiro tem de sobra motivos para gostar do que faz e razões para se queixar de nós. Porque, anónimo, constrói obra duradoira e exposta, para as gerações que virão. Porque, incógnito, lhe negam quase sempre o reconhecimento devido a quem põe arte no trabalho e nos alinda os espaços da nossa vida. Tão distraídos que somos! E tão injustos também…

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Memória dos tempos do transporte fluvial numa rua de Constância | Foto: António Matias Coelho

Tudo começa na pedreira, quando, a golpes de mascoto, se talham em pequenos cubos os grandes blocos de pedra. Uns são brancos, outros pretos e não é precisa mais cor para se enfeitar o caminho.

O calceteiro não inventa, executa. Dão-lhe um desenho em papel e uns moldes em madeira, trabalho de desenhador e carpinteiro, talvez de arquiteto antes dele. A arte do calceteiro está na perfeição do talhe, na harmonia do jogar das pedras e dos feitios.

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Há técnicas, como em todos os trabalhos que o homem faz há muito tempo. E tem de haver medições e rigor de execução para que tudo saia a preceito, do assentar dos lancis e das fiadas de cubos que se lhes põem rentes até ao colocar do molde, passando pelo fio que se estica para levar a obra direitinha. Depois há que encher de pedra o desenho assim esboçado: da branca à roda do molde, da preta depois de o tirar. E repete-se uma vez, duas, dez, mil, as que forem precisas até toda a calçada estar pronta. De cócoras, sempre de cócoras.

No fim ainda se aplica, por cima, traço de cimento em pó com areia branca e bate-se com maço e, estando tudo entranhado, rega-se e esfrega-se com areia do rio. É para dar consistência e limpeza à calçadinha e para que não cresçam as ervas. Que o passeio quer-se belo, e belo é branco e preto, preto e branco, sem mais cor nem mais enfeite.

Rossio, Lisboa | Foto: Dicas de Lisboa
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