“Cada um deve fazer a sua parte”, por José Rafael Nascimento

Foto: José Rafael Nascimento

Uma só pessoa, numa determinada circunstância, comunicando a mensagem certa pelo canal apropriado, pode produzir a mudança necessária na comunidade, com um impacto para além do imaginável. A História regista muitos destes momentos, fazendo-nos acreditar na força da razão e da acção individuais. É preciso ter este sentimento de auto-eficácia, aliado a alguma dose de coragem e atrevimento, pois muito da acção colectiva tem origem na palavra e no exemplo inspirador de um só indivíduo, levando depois um número elevado de pessoas a terem o mesmo sentimento de auto-eficácia e a acreditarem que podem fazer a diferença e gerar mudança (p.e. participando e votando), mesmo quando a participação cívica é ameaçada ou condicionada pela apatia e indiferença, ou por grupos incumbentes que tudo fazem para se perpetuar no poder.

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“Não perguntem o que pode o vosso país fazer por vós, perguntem o que podeis vós fazer pelo vosso país”, foi o desafio que o presidente John F. Kennedy fez ao povo americano em 20 de Janeiro de 1961, no discurso inaugural do seu mandato. Há frases inspiradoras que ficam para sempre e esta é certamente uma das mais famosas, expressando um pensamento válido para todas as terras e comunidades, grandes ou pequenas. Ela questiona a nossa própria responsabilidade e convoca-nos para a acção cívica em favor do bem comum, revelando a capacidade de liderança de quem, em vez de ceder à fácil demagogia e populismo, apela à consciência patriótica e à participação criativa de todos na luta pelo progresso e desenvolvimento.

Discurso Inaugural do Presidente John F. Kennedy, em 20-01-1961 | Foto: DR

Neste tempo de incertezas e angústias, parece ser isto que falta nas nossas comunidades: o chamamento de todos e de cada um à responsabilidade para com as suas aldeias, vilas e cidades, participando na vida das colectividades locais e no funcionamento dos órgãos autárquicos. Pelo menos nas suas assembleias públicas, porque a democracia não é completa quando se faz apenas da escolha periódica dos representantes que se elege, deixando-a amputada da indispensável componente participativa. Que sentido faz eleger (e muitos nem isto fazem…) vereadores e membros de assembleias municipais e de freguesia, se não se contribui com ideias e sugestões inovadoras para o trabalho autárquico que vão fazer? De que vale eleger pessoas, humanas e susceptíveis ao erro como qualquer um, se não se acompanha e controla o seu trabalho? Que moral se tem e o que se ganha em sistematicamente apontar culpados pelo que não se faz (ou faz mal), se não se assume a responsabilidade de fazer a sua própria parte?

Não concordo com aqueles que criticam a falta de participação dos cidadãos, imputando-lhes a maior responsabilidade pela indiferença e abstenção. Faz-me lembrar os que culpam as vítimas de violação por terem saído à rua, fazendo-as duplamente vítimas. A maior responsabilidade cabe sempre às lideranças (o que não isenta de responsabilidade os faltosos, naturalmente), às quais compete dar o exemplo, facilitar e incentivar o comportamento desejado. Uma coisa é quando não participa meia dúzia, outra bem diferente é quando não participa uma quantidade expressiva. Quando isto acontece, alguma coisa está mal com o chamado “sistema”. E ele, o sistema político e cívico municipal está, em muitos casos, fechado e bloqueado, ocorrendo um divórcio entre os cidadãos munícipes e os políticos autarcas. As razões desse fechamento e bloqueio podem ser várias, mas geralmente deve-se à desilusão, ao compadrio ou ao medo, todos estes factores responsabilizando sobretudo o poder local, não apenas o da situação mas também, por vezes, o da oposição (por conluio ou inacção).

Fica, no entanto, por compreender, a opção de muitos cidadãos pela passividade e não por uma reacção activa, usando os instrumentos democráticos ao dispor, sejam eles de natureza representativa ou participativa. O que geralmente dizem é que “um voto não muda nada” ou “uma pessoa não consegue mudar isto sozinha”. Há aqui uma percepção de fraca auto-eficácia, a qual assenta em duas falácias: a primeira é a da pretensa irrelevância ou inutilidade da acção individual, cabendo aqui recordar a máxima de que “salvar uma vida é salvar a humanidade”; de facto, um único acto individual pode ter repercussões imprevisíveis (o conhecido “efeito borboleta”), além de que moral ou eticamente corresponde a “cada um fazer a sua parte” (ver a fábula do Colibri, contada aqui pela já falecida activista ambiental e Prémio Nobel da Paz 2004 Profª Wangari Maathai). O segundo engano, é o de que a acção colectiva ocorre holisticamente e logo à partida; na verdade, ela é fruto do trabalho individual e vai-se forjando à medida que os exemplos individuais vão acontecendo e inspirando os demais participantes.

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Como o Colibri, cada um deve fazer a sua parte, incentivando os outros a fazerem a parte deles | Imagem: DR

Cada terra pertence aos que nela nasceram, vivem ou trabalham, mas sobretudo aos que a amam, respeitam, defendem e desenvolvem. Todos devem ter uma ideia para a sua terra, o que querem que ela seja (e, também, que não seja). E todos devem empenhar-se para que essa ideia seja concretizada (e não adiada ou bloqueada), pois afinal os frutos revertem para os próprios, por vezes de imediato, quer em qualidade de vida quer de trabalho. Ou seja, a participação dos cidadãos na vida cívica e política da sua comunidade tem efeitos concretos e significativos, a prazo mais ou menos curto, no seu bem-estar material e espiritual, até porque os recursos são escassos e as diversas comunidades competem pelos mesmos recursos.

As formas de participação local cidadã são muitas e variadas, desde a candidatura a/e exercício de cargos associativos e autárquicos, até ao simples passa-palavra no espaço público e mesmo em casa. Pelo meio, existe a participação em assembleias de associados, fregueses e munícipes, a expressão de opinião nos meios de comunicação social e a apresentação de reclamações ou pedidos de esclarecimento pelos canais físicos e electrónicos apropriados, entre outras formas possíveis. O importante é que a acção seja útil e eficaz, estando postos de lado o pusilânime distanciamento, a frouxa lamúria ou a vã gabarolice. Quando a opção é pela não participação e abstenção, é certo e sabido que a escolha e decisão são relegadas para outros, geralmente uma minoria que assim impõe facilmente os seus interesses particulares e egoístas.

Participar na vida da comunidade é um direito e um dever de cada cidadão | Foto: mediotejo.net

A participação tanto pode resultar em crítica como em elogio ou sugestão, sendo qualquer deles direito e dever do cidadão, de sua livre e inteira escolha. Os incumbentes gostariam de receber apenas elogios e insistem que “é fácil criticar”, que os cidadãos exigentes “só sabem dizer mal” e que “criticam, mas não fazem”, chegando a apelidá-los de “detractores profissionais”. Percebe-se o incómodo, mas na verdade o poder sabe auto-elogiar-se muito melhor do que saberiam fazê-lo os seus críticos. Por outro lado, não é preciso fazer (nem saber fazer) para se criticar, até porque normalmente quem critica não possui os recursos para resolver os problemas (ou preveni-los), ao contrário daqueles que exercem o poder e têm a obrigação, legal e ética, de ser transparentes e prestar contas regularmente. Finalmente, ao contrário do que se afirma, criticar não é realmente fácil, é mesmo muito difícil, sobretudo quando a crítica é bem fundamentada e dirigida a poderes instalados que ameaçam, ou pelo menos condicionam, de forma aberta ou subtil, a liberdade de opinião dos cidadãos. Fácil seria bajular ou permanecer calado. Em casa, de preferência.

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