“Cabral Moncada, uma memória que perdura”, por António Matias Coelho

Largo Cabral Moncada em Constância – vista parcial Foto: DR

Foi recentemente arranjado o Largo Cabral Moncada, em Constância, mercê de uma obra de reabilitação promovida pelo município local. No momento da inauguração, alguém perguntou quem foi Cabral Moncada e todos se viraram para mim. Embora falando de cor, informei do que me lembrava sobre esta influente família da Constância de outros tempos. Mas, porque a curiosidade era muita e para que conste, justifica-se trazer aqui um texto que escrevi há muitos anos (1) e permite fazer luz sobre esta família que deu nome ao local e por ele ganhou direito à preservação da memória.

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Houve um constanciense ilustre, Francisco Xavier Cabral Moncada, que foi Governador-Geral de Angola nos primeiros anos do século XX e desempenhou muitos outros cargos importantes. Há um painel de azulejos, na que é agora Casa-Museu Vasco de Lima Couto, que inclui o seu nome entre as personalidades ilustres que a habitaram ao longo do século XIX.

Houve um casarão em ruínas, com um enorme quintal, que ocupava todo um lado da rua que liga a do Olival à de D. João. A velha casa dizem que pertenceu à família e a rua ostenta o nome dela: Cabral Moncada. Vamos saber de quem se trata.

Um constanciense de vulto

O Dr. Francisco Xavier Cabral de Oliveira Moncada nasceu em Constância em 4 de setembro de 1859 e era filho de José Maria de Moncada e de D. Maria Xavier da Costa Freire Cabral.

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Estudou em Coimbra, no Seminário Episcopal, ingressando depois na Universidade, tendo obtido o grau de bacharel em Direito em 1884. Foi advogado em Torres Novas e depois delegado do Procurador Régio nessa vila e em Lisboa e administrador do concelho de Sintra. Em 1895 foi nomeado ajudante do Procurador-Geral da Coroa e Fazenda, sendo depois promovido a juiz e colocado na comarca de Coruche.

O momento mais alto da sua vida pública ocorreu no ano de 1900, quando um decreto o nomeou Governador-Geral da província de Angola. Desempenhou essas funções durante cerca de quatro anos, tendo sido sob a sua direção que foi dominada a revolta do Bailundo, ocorrida nesse período. Sobre esses acontecimentos escreveria o livro A Campanha do Bailundo, publicado em 1903.

Em Luanda ainda hoje existe uma rua com o nome de Cabral Moncada e a menção ao período em que foi Governador-Geral, conforme fotografia que aqui reproduzimos.

Placa toponímica em rua de Luanda Foto: Ionut Sendroin

De volta ao reino, retomou as suas funções de juiz, desta vez na comarca da Idanha, na Beira Baixa.

Para além de diversas outras funções, foi também parlamentar em várias legislaturas, eleito pelo Partido Regenerador de Hintze Ribeiro, tendo deixado impressos inúmeros discursos apresentados aos deputados.

As suas qualidades foram publicamente reconhecidas em vida, tendo recebido a medalha de ouro da rainha D. Amélia e sido feito comendador da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

Faleceu em 4 de janeiro de 1908, com apenas 48 anos de idade, e não foi sepultado na sua terra.

As casas dos Cabral Moncada em Constância

Sabe-se, pelo já referido painel de azulejos, que a família habitou, no século XIX e primeiros anos do século passado, o solar que é agora a Casa-Museu Vasco de Lima Couto. Da lista de personalidades ilustres que viveram na casa e que o painel regista fazem parte o pai de Francisco Xavier, o comendador José Maria de Moncada, sua tia-avó, D. Eulália Christina Cabral Falcão «da linhagem de um dos doze de Inglaterra» e o próprio «Doutor Francisco Xavier Cabral de Oliveira Moncada (Governador-Geral de Angola) e seus descendentes» (2).

Atual Casa-Museu Vasco de Lima Couto, habitada pela família Cabral Moncada no século XIX Foto: Portal de Turismo do Médio Tejo

O Dr. Cabral Moncada teve quatro filhos: Francisco, José, Luís e Maria Inácia. Nasceram todos em Lisboa, mas um deles, Francisco Cabral Moncada, viveu em Constância no edifício que é agora o Arquivo Municipal. O mais ilustre dos quatro foi, porém, o filho Luís, professor catedrático da Universidade de Coimbra e magistrado de reputação internacional, tendo desempenhado as funções de juiz do Supremo Tribunal de Plebiscito do Sarre.

Na zona baixa de Constância, paralela ao Zêzere, situa-se a artéria à qual foi dada a designação de Rua Cabral Moncada. Não é muito extensa, mas delimita um enorme espaço entre as ruas do Olival e de D. João até à Avenida das Forças Armadas.

É esse espaço, que em tempos foi quintal da casa de família, que a Câmara Municipal de Constância agora reabilitou, transformando-o no Largo Cabral Moncada. Do casarão, situado à direita de quem segue para a igreja da Misericórdia e que era o único edifício existente desse lado da rua, restavam umas ruínas que, mesmo assim, deixavam transparecer a sua antiga dignidade e das quais se conserva a memória. Dizem que foi da família Cabral Moncada e talvez por isso o seu nome tenha sido dado à rua.

Não se sabe quando nem em que circunstâncias a rua recebeu essa designação porque a deliberação municipal, certamente por lapso, não foi registada em ata. A primeira vez que as atas da Câmara se referem a ela é em 1946, quando um cidadão, residente no Polígono de Tancos, Ricardo Romero, recebe licença para «reparar um prédio que possui na vila, na Rua Doutor Cabral Moncada» (3), mas não sabemos qual deles fosse.

A família Cabral Moncada, que é de nobreza e usa brasão, acabou por se ausentar de Constância, não restando na vila qualquer dos seus membros. Mas ficou a memória dela e dos seus filhos ilustres que aqui viveram, perpetuada na placa toponímica da rua com que a vila a distinguiu.

E, agora, reforçada pela criação do espaço público arranjado pelo município e que, naturalmente, passa a ser o Largo Cabral Moncada.

1. O texto foi redigido em meados do ano 2000 e publicado no n.º 63 do Boletim Informativo da Câmara Municipal de Constância, relativo a maio / junho de 2000, p. 16/17. Republica-se agora com ligeiros ajustamentos e atualizações.
2. COELHO, António Matias, Histórias do Património do Concelho de Constância, Câmara Municipal de Constância, Constância, 1999, p. 105.
3. Livro de Atas das Sessões da Câmara Municipal de Constância, sessão de 12.09.1946, fls. 50-v.

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