“Cabo verde: No stress e morabeza”, por António Matias Coelho

A quatro horas de avião de Lisboa, na zona tropical em frente do Senegal, com o Atlântico por único vizinho, estão as dez ilhas de Cabo Verde que os navegadores portugueses descobriram, desabitadas, nos meados do século XV.

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Visitar Cabo Verde é uma descoberta permanente. E um espanto em muitas situações. Tão semelhante e, ao mesmo tempo, tão diferente!

Em Cabo Verde, em geral, não há pressa, não há stress. O que há é morabeza, um certo jeito de receber que só este povo tem.

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Chega-se a Cabo Verde e sente-se um bafo morno. Aqui anda-se sempre em mangas de camisa, seja de dia ou de noite, porque as temperaturas pouco variam, em torno dos 22 graus. A não ser quando o vento sopra mais forte, o que às vezes acontece, tornando-se então mais agradável vestir alguma coisa leve que nos proteja dele.

A primeira impressão, desembarcando em São Vicente, é que estamos na margem do deserto. Olhando para fora da zona do aeroporto, o que se vê é a mais absoluta aridez. Aqui é muito raro chover. Há quase sempre nuvens no céu mas sobrevoam as ilhas, indiferentes à secura da terra. A impressão seguinte é que neste país se vive e se trabalha a outro ritmo, bem diferente do nosso. Para conseguir o visto de entrada, que é um processo meramente administrativo, espera-se mais de uma hora, em pé, numa fila que não é muito longa mas avança bastante devagar. Só há uma polícia a tratar deste assunto e fá-lo a seu modo, com toda a calma do mundo.

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O transfer leva-nos ao Mindelo. A cidade, à primeira vista, parece uma imensa desarrumação que só uma visita mais atenta, a pé, permitirá corrigir. Aqui, como em Cabo Verde inteiro, constrói-se à medida que o dinheiro dá: levantam-se as paredes e põe-se-lhe um teto em cima e assim se pode habitar. Ficam uns ferros à vista que servirão para acrescentar a esse começo de casa um outro piso por cima, mas isso só será quando houver com quê. Em consequência, grande parte das habitações, que são em blocos de cimento, nunca chegam a ser pintadas. E, quando são, os padrões cromáticos têm uma lógica que não é a nossa, podendo um laranja combinar na perfeição com um lilás. Ou um verde com um vermelho.

Uma rua do Porto Novo, ilha de Santo Antão. Foto: DR

Num país em que os transportes coletivos de passageiros escasseiam, o táxi é uma boa alternativa para quem tem algum dinheiro. Estão identificados, mas a cor que os identifica varia de ilha para ilha. Não têm taxímetro. Os preços, baratos nas zonas urbanas mas nem por isso quando se sai das cidades e em especial nos trajetos turísticos, têm de ser regateados antes de iniciar a corrida, sob pena de poderem ser exagerados. Mas o transporte mais típico e mais popular são os coletivos. Podem ser carrinhas ou carros de caixa aberta e levam um número indeterminado de passageiros. Há-os em todas as ilhas, mas em Santiago, a maior e mais povoada delas, é onde mais se podem ver, em especial junto ao popular mercado de Sucupira.

Não sai da Praia o coletivo sem estar cheio, nem que para isso tenha de dar várias voltas pelas redondezas em busca de passageiros, levando no interior os que já estão apalavrados. Eu, que pensava que já ia a caminho da serra Malagueta, fiquei surpreendido, ao chegar a uma rotunda, por o coletivo voltar para trás. Os outros passageiros, todos cabo-verdianos, devem ter achado isso a coisa mais natural do mundo. Avenida acima, o coletivo vai buzinando enquanto chofer e angariador, meio saídos do carro, apregoam Somada, Somada, cheio! Somada, Somada, cheio! Somada é Assomada, a segunda maior cidade da ilha. Cheio não é propriamente exato: serve para tentar convencer os potenciais passageiros que o coletivo está quase cheio, ou seja, pronto a partir sem ter de dar muitas voltas mais.

Tudo embarca no coletivo: homens, mulheres, crianças, compras e mercadorias várias, incluindo galinhas e pintos. No coletivo que apanhei, uma carrinha tipo Hiace, seguiam 17 pessoas – dezassete! – incluindo duas crianças que iam ao colo. Para-se sempre que necessário e onde é preciso. Há passageiros que saem e, desde que caibam, passageiros que entram. E o coletivo segue a sua marcha à velocidade que pode, buzinando com muita frequência para cumprimentar um conhecido com quem se cruza, para avisar da sua passagem e fazer sair do caminho o que possa ser atropelado: pessoas, em especial miúdos, e animais que vagueiam pela estrada – galinhas, cabras, vacas, burros, porcos, o que seja… Nunca se buzina para protestar. Toda a gente faz coisas a nossos olhos mal feitas, mas ninguém protesta! Só se abranda por força do trânsito, se não se conseguir romper ou para passar as enormes lombas que, em especial nas cidades, com muita frequência aparecem no caminho, umas vezes para servir de passadeiras de peões, outras simplesmente para refrear a velocidade. A começar pelo motorista, ninguém usa cinto de segurança.

Na maior parte dos casos, as estradas são, aos nossos olhos, muito más. Predomina o empedrado, em geral bastante irregular, que provoca forte trepidação das viaturas e obriga a marcha lenta. Quando há um impedimento ao trânsito, devido a um abatimento do piso por exemplo, a regra não é reparar, é abrir ao lado uma passagem alternativa. Há estradas em que se passa o tempo a apanhar desvios. Na Boa Vista há mesmo uma – a que liga o aeroporto à praia de Santa Mónica, a mais famosa da ilha – em que os automobilistas abriram por sua conta uma picada paralela por onde se faz o trânsito. Ou seja, a gente anda quilómetros a circular no pó com a estrada, vazia, ali mesmo ao nosso lado.

Os cabo-verdianos fazem muito a vida na rua. Há mercados em toda a parte, onde se vende o que calha: batatas, inhame, hortaliças, fruta, peixe, carne, tudo. A carne expõe-se ar livre, em cima da mesma tábua em que se coloca tudo o resto. As moscas tomam conta dela aos olhos de quem passa. Se alguém quiser, em muitos casos a vendedeira assa ali mesmo a costeleta, as salsichas ou o que for e vende ao cliente que, em norma, come de imediato em singelo, sem pão nem outro acompanhamento.

Venda de peixe na rua. Foto: DR

As ilhas são todas diferentes e qualquer delas mais bonita do que a anterior. Conheci quatro delas. São Vicente é um deserto lindíssimo com o maior porto do país e a mais cosmopolita e cultural das cidades cabo-verdianas – o Mindelo de Cesária Évora. Santo Antão é duas ilhas numa, muito árida a sul e verdejante a norte, e um paraíso para os amantes das caminhadas com percursos pedestres arrebatadores. A Boa Vista é a aridez quase total circundada por praias de areia branca, desertas e a perder de vista, com águas tépidas de um azul-turquesa inigualável. Santiago é um pouco disto tudo, com a modernidade da Praia, a cidade mais próxima dos nossos padrões na sua parte central – o Plateau –, o fervilhar de vida da Assomada ou a candura da histórica Cidade Velha ou da Ribeira Grande. Vai-se a Cabo Verde e nunca a vista se cansa nem o viajante se farta.

O Mindelo, cidade portuária e cosmopolita na ilha de São Vicente. Foto: DR

 

 

Interior da ilha de Santo Antão, um paraíso para os amantes das caminhadas. Foto: DR
Praia de Santa Mónica, ilha da Boa Vista. Foto: DR

Apesar de ser considerado um dos países mais desenvolvidos de África, por comparação com os muito baixos padrões do continente, tendo mesmo dos melhores sistemas de educação e de saúde dessa parte do mundo, Cabo Verde é um país pobre e com muitas carências. Importa quase tudo o que consome e vive basicamente do turismo.

Infelizmente, o essencial do sector turístico é controlado por estrangeiros, em especial pelos italianos. Boa parte dos turistas que viajam da Europa vão no regime de tudo incluído, chegam lá e instalam-se em resorts mais ou menos luxuosos, quase sempre com praia privativa, onde passam todo o tempo da sua estadia, apanhando sol e dando mergulhos no caldo do oceano. Vêm embora sem conhecer o melhor de Cabo Verde que é o seu povo. E o dinheiro que pagam são euros que os grandes operadores turísticos europeus transferem depois para os seus países, enriquecendo a Europa, e não escudos cabo-verdianos que pudessem ajudar a desenvolver a débil economia do arquipélago.

Em Cabo Verde nunca nos sentimos estrangeiros. Trazia um passaporte no bolso, mas era como se estivesse na minha terra. A afabilidade da população é tocante. São um povo humilde e doce: têm sempre um sorriso, uma palavra amiga, um jeito de se relacionarem connosco que enternece. Muitos só falam crioulo, a língua mãe das ilhas, mas em português, a língua oficial, nos entendemos com quase todos. E isso é um fator de fortíssima aproximação entre nós e eles. É impossível um português não sentir um arrepio quando, mal chegado ao Mindelo, entra na igreja de Nossa Senhora da Paz e houve um grupo de mulheres a rezar o terço na nossa língua, Avé Maria cheia de graça… Ou participar na procissão do Santo Nome de Jesus na Cidade Velha e ouvir, nas ruínas da imponente catedral, a missa em português, Pai Nosso que estais no céu… Numa remota aldeia das serranias de Santiago, um homem já com idade, para meter conversa comigo, perguntou-me É português ou estrangeiro?, nesta frase sintetizando a forma como nos veem e o modo como nos tratam.

Em Cabo Verde o tempo flui devagar. Não há pressas, não se stressa. O que há é uma atenção autêntica, espontânea, a quem chega ao país. É isso a morabeza, tão linda palavra crioula que a língua portuguesa já integrou e que significa afabilidade, amabilidade, gentileza.

Quem visita Cabo Verde dificilmente passa sem lá voltar. O avião descola e já se sente sodade.

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