“Brincar com o fogo!”, por Nuno Pedro

Foto: João Henriques

Não, não se trata de nenhuma alusão a uma célebre música dos UHF. O caso é sério e deveras preocupante. A irresponsabilidade para não lhe chamar incúria por parte das forças policiais, em particular de quem as tutela, no caso o Governo, é tanta, que a qualificação para o recente anúncio do Comando Metropolitano da PSP, quer do Porto, quer da PSP de Loures, cuja jurisdição abarca uma grande área da Grande Lisboa, em deixar de efetuar policiamento nos jogos dos escalões de formação dos campeonatos distritais, não pode ficar muito longe do completo absurdo.

Foi dado o mote no Porto e em Loures, mas não tenhamos a mínima dúvida que tal medida se irá estender por todo o território. Porque quem decide só olha a números. Não olha a pessoas. E escusam igualmente de argumentar que o que está em causa é o cumprimento do decreto-lei 216/2012, o qual veio estabelecer a não aceitação de pedidos de policiamento renumerados para eventos desportivos cuja requisição não seja obrigatória ou cuja regra seja a dispensa do policiamento. Nada disso. O que conta, para quem tem a prerrogativa de mandar, são os números. Do dinheiro. Ou seja, aquilo que os “inteligentes” querem impor, que se traduz na ausência de policiamento, é arrecadar, ou melhor, não gastar o quinhão que cabe ao Governo suportar em cada jogo que exista policiamento. Porque a outra parte, essa é suportada pelos clubes, por muito baixo que seja o valor, nomeadamente nos escalões mais jovens em que a presença de agentes é diminuta. Porque em termos de provas de quadros competitivos seniores, aí tudo pia mais fininho.

A título de exemplo, num jogo desse escalão de uma divisão distrital, um clube paga em média 130 euros pelos serviços de cinco agentes, correspondente a 50% do custo total, quando em muitos casos, em face do número reduzido de espectadores, não se justificava a presença de tantas agentes. Mas aí, também em muitas situações, não há por parte de quem define a razoabilidade necessária para perceber esse facto.

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Todos nós temos consciência e não são só aqueles que mais diretamente estão relacionados com o fenómeno futebolístico, que as emoções estão cada vez mais à flor da pele. Seja num jogo de seniores, ou até mesmo numa concentração de benjamins. Mas isso são contas de outro rosário e cuja explicação não era difícil de encontrar. Mas quando são as cúpulas a dar exemplos de apelos à desordem, à desresponsabilização de comportamentos altamente censuráveis, como aqueles que todos os dias nos entram em casa pelo pequeno écran, por quem tem o dever de impor a disciplina pública, ainda ter a falta de decoro de ver o futebol como mau exemplo da sociedade, só pode ser brincadeira.

E os alertas para a perigosidade que esta medida encerra vêm de todos os quadrantes. Não só das várias associações distritais e regionais de futebol, como da própria Associação Sindical dos Profissionais da Polícia. Porque são eles que conhecem o terreno e não os “senhores” dos gabinetes. Esses não têm conhecimento do mundo real. Os outros têm. Nós temos.

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E não tenhamos ilusões, em caso do aumento da violência desportiva que resulte destas novas directivas, os responsáveis estão identificados. E bem identificados.

Mais uma vez, a esperança que o bom senso ainda venha a imperar é tudo aquilo que desejamos. Pois se tal não acontecer… nem vale a pena dizer.

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