“Boa Viagem de Constância | Uma senhora festa!”, por António Matias Coelho

Nascida das águas dos rios e da devoção dos marítimos de Constância, a Festa da Senhora da Boa Viagem é uma das mais antigas e mais significativas festividades religiosas e culturais do Vale do Tejo. Sabendo adaptar-se às mudanças do tempo e da vida, transformando-se e integrando as vivências e os gostos de diferentes épocas, a Festa chegou ao nosso tempo com a dignidade e a pujança que lhe dão o respeito pela sua essência e a vitalidade das gerações atuais. Passado e presente, tradição e modernidade, fé e folgança, tudo harmoniosamente se conjuga nesta grande Festa do Tejo.

PUB

O tempo dos marítimos

Começou por ser, no século XVIII, uma festa de marítimos. Estrategicamente situada no lugar onde o Zêzere se encontra com o Tejo, Punhete, como então Constância se chamava, vivia nesse tempo, em boa parte, das atividades económicas que os rios proporcionavam: a pesca, claro, mas também o comércio, a construção e a reparação navais e, sobretudo, o transporte fluvial, por ser pelos rios, e em especial pelo Tejo, que na época se fazia o trânsito de mercadorias.

 

"Boa Viagem de Constância | Uma senhora festa!", por António Matias Coelho
Constância nos tempos do transporte fluvial

Era muito diferente o Tejo desse tempo: não havendo ainda barragens, a água corria livremente, sendo bastante mais do que é hoje – o que facilitava a navegação – mas tornando-se excessiva em períodos invernosos ou de longas chuvadas – o que tornava mais difícil e perigosa a vida dos marítimos.

Foi por causa desses perigos, que nem sempre o saber ou a força dos homens eram capazes de evitar ou de vencer, que os marítimos de Punhete se entregaram à proteção da Mãe do Céu, confiando que ela os protegeria nas horas mais difíceis e lhes asseguraria sempre boa viagem.

A primeira referência documental conhecida à devoção à Senhora da Boa Viagem em Constância data de 1788, quando a rainha D. Maria I, a pedido dos marítimos da vila, lhes concede autorização para que construam, a expensas suas, na maior igreja da vila, que é agora matriz, um altar para nele colocarem a imagem da sua devoção. O altar é o segundo do lado do evangelho, isto é, do lado esquerdo de quem entra no magnífico templo. A imagem, com o seu lindíssimo manto azul e uma embarcação aos pés, é a mesma que continua a sair em procissão, na segunda-feira de Páscoa de cada ano, para abençoar os homens, os barcos e, mais recentemente, as viaturas também.

"Boa Viagem de Constância | Uma senhora festa!", por António Matias Coelho
Nossa Senhora da Boa Viagem: imagem do século XVIII que continua a sair em procissão

Sendo uma classe socioprofissional numerosa, viajada, detentora de algum poder económico para os padrões de então e de um estatuto social de relevo na pequena comunidade da vila, os marítimos empenharam muito do seu esforço, do seu entusiasmo e do seu dinheiro na organização dessas primeiras festas em honra da sua protetora. Durante quase dois séculos, sem uma única falha que se saiba, sempre os festeiros trataram do que era preciso fazer para que a festa se realizasse.

Numa época de profunda vivência religiosa, os marítimos respeitavam à risca os preceitos da Igreja Católica que determinavam que todos se confessassem e comungassem pela Páscoa, a maior festa do calendário litúrgico. E assim, todos os anos, a meio da Semana Santa, os homens do mar vinham aportando a Constância para cumprirem o mais apetecido ritual: viverem a festa pascal, reverem a família e os amigos e, na segunda-feira, fazerem a Festa a Nossa Senhora da Boa Viagem.

Sempre assim foi enquanto houve marítimos e, para além dos de Constância, muitos outros aqui chegavam nesse dia especial, vindos dos demais portos do Tejo, para celebrar a amizade, agradecer à Senhora e receber a bênção que lhes assegurasse a proteção do Céu para o novo ciclo de trabalho. Para os da terra, a folga prolongava-se até ao dia seguinte, chamado Terça-feira de Praia, em que os marítimos realizavam um almoço de confraternização com as famílias nas areias do Zêzere, durante o qual a bandeira azul da Boa Viagem era entregue ao festeiro do próximo ano, garantindo a continuidade da tradição.

Os anos difíceis

Entretanto o mundo mudou, o Tejo mudou, a vida mudou. A chegada do comboio, na segunda metade do século XIX, e sobretudo a das camionetas de carga, a meio do século XX, aliadas à construção das barragens que reduziram os caudais e tornaram a navegação impossível, foram ditando a transferência do transporte de mercadorias do rio para o caminho de ferro e para a estrada e os barcos deixaram de se fazer à água. Os marítimos tiveram de mudar de vida e uma vez, em Terça-feira de Praia, ninguém pegou na bandeira azul da Boa Viagem. Tinha chegado ao fim uma época marcante da história do Tejo e da vida de Constância.

Em consequência, a Festa decaiu e só não acabou porque a Paróquia, procurando manter a tradição, assegurou a realização da procissão, apenas com umas quantas pessoas da vila e com cada vez menos barcos nos rios a receberem a bênção.

"Boa Viagem de Constância | Uma senhora festa!", por António Matias Coelho
Procissão nos anos ‘60

A Festa do nosso tempo

A meio dos anos 80, o município resolveu intervir, criando as Festas do Concelho que abrangem todo o período festivo da Páscoa e a Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem. Os festejos ganharam novo fôlego, com a criação de inúmeras atividades novas, como as ruas floridas, as tasquinhas, as mostras de artesanato e de atividades económicas, o desporto, o folclore e os grandes espetáculos musicais e pirotécnicos que trouxeram novos motivos de interesse e atraíram novos públicos.

Retomando a tradição de outrora de os marítimos convidarem os amigos de outros portos para se associarem à Festa, a Câmara Municipal passou a convidar os municípios ribeirinhos, juntas de freguesia, unidades militares, corpos de bombeiros, grupos de escuteiros, associações e coletividades que se foram juntando à Festa, contribuindo para a sua renovação e o seu crescimento. E deste modo, de apenas três barcos que receberam a bênção em 1990, passou-se para os mais de meia centena que a vêm receber agora. E de umas dezenas de pessoas que acompanhavam a procissão passou-se para as muitas dezenas de milhar que, de todo o lado, acorrem a Constância em cada Páscoa. Nossa Senhora da Boa Viagem transformou-se, assim, numa das maiores e mais conhecidas festividades cíclicas do nosso país e, honrando a memória dos marítimos de outros tempos, voltou a ser, como outrora, a grande Festa do Tejo.

"Boa Viagem de Constância | Uma senhora festa!", por António Matias Coelho
Pormenor da Bênção dos Barcos na atualidade

Nota:

Este texto foi originalmente publicado no Boletim Informativo da Câmara Municipal de Constância, n.º 115, jan.º / fev.º 2009.

 

COMPARTILHE

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

Artigo anteriorTorres Novas | Dealema atuam no Festival da Juventude
Próximo artigoEntroncamento | Reunião da Câmara Municipal

DEIXAR UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here