“Bicheza”, por Berta Silva Lopes

Foto: DR

O tema desta crónica pode ser nojento para algumas pessoas, fica o aviso desde já, e é verdade que não é fofinho, mas é certo que trata de problemas reais, importantes e verdadeiramente perturbadores. Esta crónica é sobre piolhos.

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Corrijo: esta crónica é sobre piolhos e também sobre outras bichezas que tais, daquelas que não matam, mas chateiam que se farta, sobretudo quando falamos da pequenada. Feito o primeiro alerta, passo ao segundo: é provável que este texto possa causar comichão e outros incómodos físicos aos leitores mais sensíveis. Quem decidir continuar a ler deve por isso certificar-se de que está num local onde pode coçar a cabeça livremente a fim de evitar embaraços desnecessários.

Vem tudo isto a propósito de um recado na caderneta escolar da minha filha, mal tinha começado o ano letivo, não este, outro. Ela avisou-me da mensagem, mas não sabia do que se tratava, afinal ainda não sabia ler e não podia adivinhar. Mau Maria, começamos mal, pensei eu.

Não, não, não, respondia ela às perguntas que lhe ia fazendo. Nenhum problema de indisciplina, falta de educação ou brigas com os coleguinhas; nenhuma repreensão da professora. Apesar do meu sobressalto, as respostas dela são convincentes. Vamos ver o que diz o papel.

“Foram avistados piolhos em algumas crianças desta sala. É favor vigiar a cabeça do seu educando.” Oi? O piolho fêmea possui uma vida média de 30 a 40 dias, podendo produzir até dez ovos por dia, ou seja, ao longo da sua vida, é capaz de depositar mais de 200 lêndeas na cabeça de uma pessoa, leio na internet. Entramos em alerta máximo, portanto.

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De repente, pai e mãe estão cheios de comichão, de certeza que os bichos quiseram experimentar outros couros cabeludos e já andam a passear-se por toda a família. Há que preparar um extermínio em massa, mas é tarde, já não há farmácias nem supermercados abertos no bairro. Parecendo que não, o assunto é urgente e requer medidas imediatas. Felizmente temos uma garrafa de vinagre quase cheia na cozinha. E também um frasco de maionese.

Sou doutorada há muitos anos em aniquilação de piolhos e lêndeas, curso ministrado pela minha avó, com paciência e mimo, em horário pós-laboral. A mim, pareciam-me bichos invencíveis, mas a minha avó só descansava quando dava cabo deles.

Seguindo as indicações dela, os piolhos matam-se lavando a cabeça com vinagre e escorregam facilmente se se passar maionese no cabelo, e depois o pente apropriado. Há quem também defenda a eficácia da coca-cola. Por mim, acredito. Não há que duvidar de um produto que até desentope canos, certo?

Ainda assim, o melhor é prevenir o aparecimento dos piolhos, claro está, e para a prevenção aqui fica mais uma dica: borrifar o cabelo deles (e o nosso, se houver bicharocos a deambular na cabeça da criançada) com perfume, todos os dias. O outro segredo todos sabem: inspecionar as cabeças de vez em quando até à exaustão. Foi a primeira coisa que fiz no dia em que li o recado acima na caderneta da minha filha. Felizmente não apanhei nenhum intruso (ufa!), mas confesso que me cocei bastante, vá.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.
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