“Assistente Social condenada por violência doméstica”, por Vânia Grácio

“O Tribunal de Évora condenou esta quinta-feira um homem, acusado de violência doméstica, a oito anos e meio de prisão efetiva, por agredir e ofender a companheira, os dois filhos e um enteado. Também a mulher e vítima acabou condenada no mesmo processo.

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Segundo o acórdão do coletivo de juízes, o homem de 39 anos, desempregado e que se encontra em prisão preventiva desde janeiro de 2016, foi condenado por quatro crimes de violência doméstica, um por cada uma das vítimas.

No mesmo processo, a mulher de 38 anos, assistente social na Santa Casa da Misericórdia de Évora, foi igualmente condenada numa pena suspensa de dois anos e meio de prisão por um crime de violência doméstica contra um dos seus filhos.” Fonte: TVI24

Mais um caso de violência doméstica que, felizmente, já teve condenações e muito bem. No entanto, o meu comentário à notícia não se prende, esta semana, com o assunto em si, mas antes com o facto de os crimes terem sido imputados a duas pessoas, uma delas Assistente Social. Ora, nas redes sociais circulam partilhas da notícia e em alguns grupos surgiram questões se esta mulher iria ser “proibida” de exercer a profissão para sempre. Sim, para sempre! Vi a notícia ser partilhada por pessoas com responsabilidade na defesa dos direitos da profissão, sem um esclarecimento prévio ao conteúdo e uma tomada de posição. Vi colegas de profissão a levantarem questões sobre a idoneidade da senhora para continuar a exercer.

Pergunto-me, independentemente da condenação, que julgo ter sido certa, se um médico quando é condenado por negligência, por exemplo, é erradicado da profissão “para sempre”? O princípio da reintegração dos indivíduos, da reinserção social, é muito bonito mas é só para os outros. Questiono-me sobre a análise das situações no dia-a-dia destes profissionais. Os preconceitos e estereótipos são só para algumas situações? Temos dois pesos e duas medidas?

Condeno veementemente os atos praticados e julgo até que se a justiça fosse mais célere e mais efetiva talvez tivéssemos menos casos destes. Num mês onde se promove a prevenção dos maus tratos infantis, é triste termos notícias destas. Por outro lado, temos de proteger as crianças e as pessoas (em concreto os pais) têm de perceber que as crianças não são objetos, propriedade dos adultos e que lhes podem fazer o que entenderem. Mas, os profissionais não podem “guardar a ética na gaveta” quando lhes dá jeito, e não podem defender os direitos da criança num local e agredi-las noutro. Devem existir penalizações, mas devemos trabalhar para que estas situações não existam e não se repitam.

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Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no www.mediotejo.net ao sábado.

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1 COMENTÁRIO

  1. Então defende o mesmo quando são os homens os agressores , certo? Porque se essa é a abordagem terapêutica estamos de acordo, só não gosto do dois pesos e duas medidas quando as mulheres são as agressoras . Onde estão o mesmo tipo artigos quando são os homens ?! Não estão !

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