“As Vindimas de outros tempos”, por António Matias Coelho

Vindima – Chamusca, anos ‘50 | Foto: Foto Cabaço

Chegando setembro é tempo de colher as uvas que o verão amadureceu e levá-las para a adega onde com elas se fará o vinho da nossa alegria que pelo S. Martinho se há de provar.

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É a Chamusca terra de vinhas famosas e de vinhos de afamada qualidade. A tal ponto que, quando o Marquês de Pombal, em 1765, mandou arrancar todas as vinhas situadas em terrenos que pudessem ser usados para a cultura de cereais, os vinhedos da Chamusca foram poupados, por ficarem em terras da rainha e olhando à qualidade dos seus vinhos, muito apreciados pela fidalguia da corte. E ainda no século XIX, usando o Tejo como caminho, se abasteciam com eles os palácios e as tabernas de Lisboa.

A vindima tradicional, sendo trabalho duro e frequentemente mal pago, tinha um lado festivo, de celebração da generosidade da natureza, expresso no cantar dos ranchos durante o trabalho e na adiafa que encerrava a safra.

Brasão do município da Chamusca

 Basta olhar para o brasão de armas do município da Chamusca para de imediato se concluir ser a vinha, em termos tradicionais, uma das suas riquezas maiores, representada pelos quatro cachos de uvas que carregam a bordadura do escudo. De igual forma, a freguesia da Chamusca também escolheu para a sua ordenação heráldica, colocando-o em chefe, um ramo de videira com três cachos de uvas.

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Há muitos séculos que nestas terras da Borda d’Água, como por todo o Ribatejo, se produzem boas castas e se fazem apreciados vinhos.

Nas últimas duas décadas do século XIX, devido à filoxera [1] que atacou severamente as vinhas, muitas delas tiveram de ser arrancadas. Pouco antes disso, escrevendo em 1876, António Augusto de Aguiar afirmava que «é em volta da grande bacia do Tejo, ou ao longo das suas margens, que as videiras se encontram dispostas em atraente panorama, debruçadas sobre os vales, e subindo airosas colinas, que não podiam apetecer outra cultura melhor». E completava a descrição desta forma: «Na margem direita do Tejo, temos que mencionar os vinhedos de Carcavelos, de Lisboa, de Bucelas, de Camarate, de Cadafais, de Vila Franca, da Arruda, de Alenquer, do Cartaxo, de Santarém e de Torres Novas» e «sobre a margem esquerda do rio, ocupam igualmente uma extensa área de terreno e estendem-se desde a Chamusca até para baixo de Almada, passando por Alpiarça, Almeirim (…)[2]». E mesmo hoje, apesar do arranque sistemático de grandes vinhedos nas últimas décadas, sacrificados a culturas economicamente mais rentáveis, a paisagem vinhateira continua a ser uma constante do universo em que nos movemos.

Por outro lado, o vinho é um elemento fulcral da nossa cultura mediterrânica e judaico-cristã. Já os gregos divinizavam o vinho na forma de Dioniso e davam-lhe um lugar central na plêiade olímpica e nas festividades de muitas pólis. Os romanos associaram a Baco o gosto pelo prazer de beber. O cristianismo transformou o vinho no sangue de Cristo no altar da consagração. E depois disso a tradição das comunidades rurais desenvolveu em torno do vinho uma infinidade de rituais e de espaços que o fizeram chegar até nós como a mais nobre das bebidas do gosto popular: com o vinho se faz um brinde à nossa saúde, se celebrava, em época não muito distante, o contrato da molhadura na praça de jorna, se animavam as tabernas no tempo em que tinham freguesia, se alegram ainda hoje casamentos e outras festas. O vinho é cultura e alegria, não sendo justo associá-lo aos excessos que conduzem à bebedeira porque nesse caso a culpa não é do que se bebe mas de quem não sabe beber.

À semelhança de muitos outros trabalhos sazonais – como as mondas, as ceifas, a apanha do tomate ou a apanha da azeitona – as vindimas nestas terras de extensos vinhedos eram feitas por ranchos, muitas vezes vindos de fora. Era trabalho essencialmente feminino. Aos homens cabia sobretudo a tarefa, fisicamente mais exigente, de transportar as uvas para o lagar. Usavam cestas e seirões de verga levados no dorso de um burro ou macho ou grandes selhas de madeira, seguras por duas alas de fueiros, colocadas em carroças puxadas por um animal ou uma parelha. Também aos homens competia, já no lagar, fazer a pisa das uvas e dar trabalho ao mosto até estar em condições de o passar para as dornas ou para os depósitos onde havia de ficar até ser tempo de o beber, em chegando o São Martinho.

Fazendo-se de sol a sol, era a vindima trabalho custoso, porque vezes sem conta se tinha o corpo de baixar para cortar o cacho e depois erguer e virar para o deitar no cesto de verga ou no poceiro de folha que o transportaria até ao fim do eito onde havia de passar a carroça a recolher tudo. E setembro é tempo ainda de calor, a dar nas costas sem dó e na cabeça também, embora as mulheres cuidassem de a proteger, cobrindo-a com um lenço e pondo-lhe em cima um largo chapéu de palha. Sendo trabalho monótono, porque os gestos se repetiam milhares de vezes iguais e os movimentos também, restava ao rancho, para amainar o cansaço, a conversa que ia correndo entre as camaradas mais chegadas e as cantigas que se levantavam, refrescando o ânimo e contagiando as mulheres e moças mais afoitas que muitas vezes cantavam ao desafio:

Ó videira, dá-me um cacho,
Ó cacho, dá-me um baguinho;
Meu amor, dá-me um abraço,
Que eu te darei um beijinho!

Também os poetas celebraram estes trabalhos do campo, incluindo a vindima, em versos coloridos como esta quadra de Álvaro do Amaral Netto:

Ribatejo! Moças lindas das aldeias!
Nas suas mãos calosas e trigueiras
o arroz se monda, o milho vai às eiras
e os cachos são cortados às mãos cheias!

Finda a vindima, era tempo da tão esperada festa – a adiafa. A tradição consagrou que fosse o patrão a oferecer a adiafa, quer dizer, a dar a expensas suas a comida para o rancho e o vinho para os homens. Era, em jeito festivo, uma espécie de recompensa do senhor da vinha ao rancho que a vindimou. E, para o rancho, uma forma de amenizar a canseira e fechar a safra guardando dela o melhor lado de todos, o lado da alegria. Comendo e bebendo se esqueciam, por um dia que fosse, as dores das costas, o calor de setembro e a escassez da féria que se levava para casa.

Adiafa no Pombalinho (atualmente do concelho da Golegã), 1950 | Foto: blog Pombalinho, 2.04.2009

Em muitos casos, o rancho preparava, ao longo das semanas da vindima, a bandeira da adiafa. Era uma bandeira colorida, bordada pelas mulheres, com desenhos a seu gosto e às vezes quadras que elas próprias criavam. Era para dar ao patrão ao findar a adiafa, como quem diz obrigado pela festa que lhes foi dada e forma de o lembrar que no ano seguinte haveria mais uvas para vindimar e gente a precisar da jorna.

A partir do dia seguinte, ficava a vinha vazia. As parras iriam mudar de cor, com a chegada do outono, acastanhando a paisagem. Haveria ainda por lá um ou outro cachito esquecido que alguém, andando ao rabisco, passaria a recolher. E um ou outro bago que mesmo assim lá ficasse serviria de alimento à passarada, num tempo e numa sociedade em que não havia lugar para o desperdício [3].

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[1] A filoxera é uma doença provocada por um inseto hermafrodita que se alimenta do suco que extrai das raízes das videiras e de outras plantas. Originária da América do Norte, onde foi encontrada pela primeira vez em 1853, a filoxera alastrou à Europa, na década de 1860. Portugal, depois da França, foi o segundo país europeu a ser infetado, tendo sido encontrada filoxera em vinhas do concelho de Sabrosa, no Douro, ainda nessa década de 1860. O fenómeno ficou, contudo, circunscrito e só alastrou ao resto do país, e portanto também à Chamusca, na década de 1880, tendo tido efeitos devastadores.

[2] António Augusto de Aguiar, Conferências sobre Vinhos, Lisboa, Tipografia da Academia Real das Ciências, 1876, p.138.

[3]  Este texto, no qual foram agora introduzidas ligeiras alterações, foi originalmente publicado no livro do autor Os Abrigos da Memória, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012, p.85-88.

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