“As romãs de Constância”, por António Matias Coelho

Foto: Blog Lebução de Valpaços, 29.09.2015

É agora o tempo delas, das romãs, por altura do Natal. Há muitas, na vila de Constância e por todo o concelho.

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Símbolos de força e de vida, as romãs ocupam lugar de destaque no brasão de armas do município, representando, com a oliveira, os rios e os peixes, a fartura que o povo há séculos arranca desta terra e destas águas.

Numa volta pela vila, mesmo que não andemos em busca delas, é impossível não darmos pela presença abundante, em inúmeros quintais, de romãzeiras carregadinhas de fruta quando vem chegando o inverno.

Por fora são amareladas, mas por dentro os inúmeros grãos que contêm são, em geral, de um vermelho muito vivo e de um sabor único, a um tempo acre e agradável.

Amarelo e vermelho são, precisamente, as cores do concelho de Constância. As cores da romã. As cores que, em heráldica, representam liberdade e energia.

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Quando, em 1937, a Câmara Municipal solicitou a Afonso de Dornelas o estudo das armas, bandeira e selo do município, o distinto arqueólogo elaborou um parecer, fundado em alguns elementos históricos, geográficos e patrimoniais do concelho, em que realçava o facto de a vila se situar «na foz do rio Zêzere, quando entra no Tejo» e de «a fertilidade do seu território [ser] importante, sendo afamados os seus azeites, vinhos e frutos, entre os quais têm nome as romãs»[1]. Foram por isso escolhidos a oliveira e as romãs como elementos centrais do brasão municipal, a par, naturalmente, da representação dos rios que se junta aos pés da vila.

"As romãs de Constância", por António Matias Coelho
Imagem: Brasão de armas de Constância

Como refere o mesmo parecer, «o ouro da oliveira e das romãs denota fidelidade, constância, poder e liberdade», enquanto «o vermelho do aberto das romãs denota força, vida, atividade e energia», características que, segundo Afonso de Dornelas, representam «os valores regionais e a índole dos seus naturais».

O parecer, aprovado pela Comissão de Heráldica da Associação de Arqueólogos Portugueses em 3 de Novembro de 1937 e pela Câmara Municipal de Constância em 23 de março de 1939, seria oficializado pela Portaria n.º 9198, de 11 de abril desse ano[2] que abaixo reproduzimos.

Há, portanto, cerca de 80 anos que o concelho se identifica e se revê nos elementos do seu brasão e nas cores da sua bandeira. Entre os primeiros, as romãs; quanto às segundas, o amarelo e o vermelho – as cores que tem a romã quando a vemos por fora e a desvendamos por dentro

Por outro lado[3], vergando os ramos frágeis das romãzeiras e pendendo às vezes para as ruas e escadinhas onde passamos, há centenas e centenas de romãs. A fazer crescer água na boca a quem gosta do seu sabor. E a lembrar que no concelho é de amarelo e vermelho que se mostra a sua identidade, em sinal da constância e da vida que o caracterizam[4].

"As romãs de Constância", por António Matias Coelho
Imagem: Portaria que legalizou a constituição heráldica do município de Constância

[1] Parecer apresentado à Comissão de Heráldica da Associação de Arqueólogos Portugueses, em 1937, aprovado pela Câmara Municipal em sessão de 23.03.1939 e transcrito no livro de atas respetivo, a fls. 31 v. – 32 v. [sublinhado nosso]

[2] Diário do Governo, I série, n.º 83, de 11.04.1939

[3] O brasão de armas da freguesia de Montalvo (do concelho de Constância), aprovado em 1997, também ostenta, em chefe (isto é, na parte superior), uma romã rachada de vermelho (Diário da República, III série, n.º 44, de 21.02.1997).

[4] Este texto, no qual foram agora introduzidas ligeiras alterações, foi originalmente publicado no Boletim Informativo da Câmara Municipal de Constância, n.º 84, nov.º / dez.º 2003, p. 12-13.

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