“As figuras castiças do concelho da Sertã”, por Sartagografia

Paisagem da Sertã, nas primeiras décadas do séx. XX. Foto cedida por Sartatografia

O concelho da Sertã também teve (e ainda tem) as suas figuras castiças. A lista é numerosa e nela figuram nomes como os de Serafim Mendes, Carlos Banzola, João Cacilda, Manuel Bichanoco, Maria Isabel, Liquitó, António da Eira ou António Jacinto.

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Seria difícil contar a história de todos eles neste espaço, por isso optámos por destacar dois: António da Eira e António Jacinto.

Natural da Serra de São Domingos, o homem a quem chamavam de António da Eira teve uma vida plena de peripécias que, com toda a certeza, poderiam dar azo a um argumento hollywoodesco.

Homem de baixa estatura trabalhou como ferreiro durante muitos anos até, segundo rezam as crónicas, ter endoidecido. Abandonou o trabalho, mas ocasionalmente ainda fazia agulhas para coser os sacos.

Vinha frequentemente à Sertã trazer carvão. Na vila, era frequentador assíduo das tabernas, onde bebia o seu copito. Nutria um ódio de estimação por Alfredo Serra (conhecido por Mata-Pretos), rogando-lhe todo o tipo de pragas, quando o álcool já lhe aquecia o sangue.

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Foi preso várias vezes. Numa dessas ocasiões, a polícia surpreendeu-o a transportar, às costas, um santo da capela do convento de Santo António. Noutra situação, entrou numa adega e bebeu até ficar inconsciente – o senão foi ter-se esquecido de fechar a torneira do pipo e o precioso líquido ter invadido as ruas adjacentes. Questionado sobre o sucedido, defendeu-se dizendo que não havia motivo para alarido, até porque “só bebera três malgas de vinho”.

Por seu lado, António Jacinto (conhecido por ‘António Meteorologista’) tinha uma capacidade para memorizar os dias de uma qualquer semana de anos anteriores ou até para fazer previsões meteorológicas.

Pouco se conhece da sua juventude, apenas que nasceu em Ferreira do Zêzere no ano de 1918. Veio para a Sertã ainda jovem, acompanhando uma irmã que casara para os lados do Figueiredo. Padecia de uma deficiência mental bastante grave, no entanto essa limitação não o coibia de mostrar as suas aptidões. Aliás, sempre que alguém lhe perguntava, por exemplo, em que dia da semana calhara o 13 de junho de 1900, ele respondia pouco depois e quase sempre de forma acertada (a propósito, o 13 de junho de 1900 coincidiu com uma quarta-feira).

Era também procurado devido aos seus dotes de meteorologista. Muitos o questionavam: “Mas quando é que chove?”, e ele respondia: “Isso só daqui a três semanas”. Decorrido o período estimado, eis que a chuva fazia a sua aparição. Os sertaginenses admiravam-se com esta sua capacidade, questionando-o sobre como conseguia prever o tempo. Ele também não o sabia, mas não admitia, preferindo atirar um desafiante: “Isso querias tu saber!”

Era também procurado devido aos seus dotes de adivinhação, mas aqui a precisão dos seus vaticínios não era reconhecida. Dizia-se que, quando o tratavam bem, as previsões eram positivas e que, no caso contrário, não hesitava em pressagiar uma vida de azar ao seu interlocutor.

Como já se vê, e apesar da sua deficiência mental, apresentava uma lucidez pouco usual. O seu principal sustento era a pastorícia e durante anos guardou os rebanhos do veterinário Pedro Matos Neves e do talhante António da Silva.

Trajava invariavelmente da mesma maneira: fato completo e chapéu já gasto. Uma das suas grandes paixões eram as festas populares. Tentava não perder nenhuma e a sua presença era motivo de regozijo de todos os que o conheciam.

Encontrou a morte no regresso de uma dessas festas, sendo atropelado no dia 26 de julho de 1992, junto à zona da Maljoga, na freguesia da Várzea dos Cavaleiros.

 

Para mais histórias, consultar www.sartagografia.pt

1 COMENTÁRIO

  1. O site referido no artigo encontra-se em baixo há uns tempos. O que se passa?
    Era um excelente depósito de material sobre a Sertã.

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